A democracia, as eleições e a cidade

Tomislav R. Femenick – Jornalista   Dentre os inúmeros presentes que recebemos dos gregos (falo dos presentes genuínos, e não do cavalo de Troia), a democracia talvez tenha sido o mais precioso. Mais »

Elefantes brancos no Elefante Potiguar

Tomislav R. Femenick – Jornalista   Partindo da premissa de que o nosso Estado é um dos menores e mais pobres do país, é lógico se pensar com parcimônia no que gastar Mais »

Os Monomotapas

Tomislav R. Femenick – Historiador e jornalista   O e-mail era lacônico: “O que sabe do gd Zimbábue?”. Respondi sucinto: “É assunto do meu livro Os Escravos”. Recebi de volta: “Então escreva Mais »

Reforma agrária é coisa capitalista

Tomislav R. Femenick – Contador, mestre em economia e historiador. Da janela da minha biblioteca, vejo a bela instalação predial que o INCRA desfruta em nossa capital. Também, a posse da terra Mais »

Usado em vão o nome de Cristo

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia, com extensão em sociologia e história   Um caso que chegou ao TSE, pedindo a cassação do mandato de uma vereadora goiana, por ter praticado Mais »

O pioneirismo econômico de Portugal

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Tomislav R. Femenick – Autor do livro “Os Herdeiros de Deus: a aventura da navegação e os negócios da colonização” e membro do IHGRN.

 

Nos séculos XV e XVI, o feudalismo permanecia como modo de produção predominante na Europa, embora, no último desses séculos, tenha-se iniciado a crise que o desintegrou e resultou no surgimento do capitalismo. Nesse período, formas capitalistas de produção já coexistiam com o feudalismo, porém, sob a sua hegemonia.

A economia portuguesa viveu essa simbiose “feudal pré-capitalista” com algumas atividades amarrando-se às formas tradicionais e outras deslanchando em busca de maior espaço para o seu desenvolvimento. O comércio foi o segmento econômico que mais dinâmica apresentou e o que mais influiu na determinação histórica da nação lusitana; foi a principal forma de acumulação do capital. “O comércio externo de Portugal é mais antigo do que o de qualquer outro país da Europa, à exceção da Itália” (Adam Smith,1981/3). Nos séculos XIII e XIV, o comércio atlântico já era ativo nos portos portugueses. As exportações atingiam o norte da África, a França e a Inglaterra. A primeira feira estrangeira em Burges (Bruxelas) foi organizada por comerciantes portugueses.

No final do século XV, pelos portos portugueses eram exportados produtos locais, e reexportados produtos vindos de longa distância: trigo de Marrocos, das Ilhas Atlânticas e da Europa Setentrional; produtos têxteis da Inglaterra, Irlanda, França e Flandres; latão e contas de vidro da Alemanha, Flandres e Itália; ostras das Ilhas Canárias; especiarias, ouro e escravos africanos. Com os descobrimentos, Portugal era a única nação europeia que mantinha comércio regular com as Índias Orientais, além de manterem estabelecimentos no Congo, Angola e Benguela, na costa da África, e em Goa. Paralelamente, mantinha uma importante colônia em Antuérpia, onde cerca de sessenta famílias representavam os interesses lusitanos. O desenvolvimento do comércio se refletiu também no seguro e na navegação. Em 1383, Dom Fernando I, rei de Portugal, criou o seguro marítimo.

A navegação é um capítulo à parte. Entre o meio e o fim do século XVI, a frota comercial portuguesa representava uma capacidade de carga em torno de 50 a 100 mil toneladas métricas. O porto de Lisboa registrava cerca de quatrocentas ou quinhentas embarcações fundeadas – o que seria um exagero do cronista da época. No século seguinte, os navegadores portugueses descobriram a Ilha da Madeira, as Canárias, os Açores, as Ilhas de Cabo Verde, a Costa da Guiné, a de Loango, o Congo, Angola e Henguela (Namíbia). Contornaram o Cabo da Boa Esperança e atingiram à Costa do Indostão (subcontinente indiano). Certo é que essa empresa contou com ativa participação do governo. No entanto, essa foi uma empreitada muito mais da burguesia do que da nobreza. A própria intenção dos descobrimentos era comercial.

No campo, a “Lei das Sesmarias”, publicada em 1375, quebrou o poder da nobreza rural, ao impor a reordenação das terras improdutivas dos senhores feudais, sem que esses recebessem nenhuma paga por elas. Diversos produtos agrícolas eram cultivados em Portugal, com destaque para a parreira e a oliveira. A indústria extrativa de sal marinho remonta a épocas anteriores à própria constituição do Estado português, datando dos séculos X e XI.

Por sua vez, a produção têxtil sempre foi rudimentar, familiar e rural. A cultura do linho, do cânhamo e do bicho-da-seda, bem como a pecuária de ovinos, de onde se extraia a lã, tiveram importância relativa e somente orbitavam em torno da economia feudal, raramente constituindo uma presença de modo mais avançado de produção, por pouco que fosse. Quantitativa ou qualificativamente essas atividades não representavam qualquer avanço na economia do Portugal medievo.

A análise da economia lusitana nos séculos XV e XVI, principalmente das atividades ligadas ao comércio e à navegação – setores em que os portugueses estiveram à frente da economia europeia, comprovados na expansão e descobrimentos marítimos – evidencia um sistema com um significativo poder de acumulação pré-capitalista.

 

Tribuna do Norte. Natal, 01 jan. 2020.

O capitalismo ‘made in USA’ e o nosso

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Tomislav R. Femenick – Mestre em economia, com extensão em sociologia e história – Do IHGRN

O filósofo francês Michel Aglietta (1988) diz que os Estados Unidos nasceram com um aparato ideológico nas relações socioeconômicas: a liberdade de produzir sem entraves criados pelo Estado e instituições que são reguladas por princípios que formalizam as relações econômicas. Além do que, o ordenamento legal expressa a liberdade e igualdade do indivíduo, enquanto agente econômico.

Essa talvez seja a grande diferença da história das duas nações: enquanto os Estados Unidos, embora escravistas, nasceram sob a égide do capitalismo e da república, o Brasil se tornou independente sob um regime monarquista e com uma economia eminentemente escravocrata. Com a abolição da escravidão e a proclamação da República, houve o início de uma nova matriz econômica, porém sem atingir a profundidade necessária à transformação das estruturas, que somente caminhou para a realidade capitalista após a revolução de 1930, quando o governo federal direcionou as atividades econômicas para a industrialização.

Assim tínhamos o Estado brasileiro atuando em duas dimensões distintas, que em alguns pontos sofrem intersecção ou confronto. No plano coletivo (político), o Estado exercia o “poder” pela instrumentação de “controles”, objetivando a sua “perpetuidade”. No plano individual, das relações de troca, o que se buscava eram vantagens (o excedente econômico), pela sempre maior “eficiência”, em relações tipicamente dissolvíveis. Aqui cessa o paralelismo ideológico entre a economia brasileira e a economia norte-americana, pois lá o Estado não interfere tão intensamente nas relações de produções e não tem atuação como agente-produtor.

Focando a atenção na agricultura e na indústria dos dois países, evidenciam-se as contradições mais acentuadas entre eles. Nos Estados Unidos os produtores agrícolas, mesmo os que faziam a economia da fronteira, nunca fizeram agricultura de subsistência, sempre produziam para o mercado. Aqui também sempre se produziu para o mercado. Cana-de-açúcar, fumo, mate, algodão, café, por exemplo, sempre se destinaram para o mercado; o mesmo acontece com a soja, laranja, melão etc. Entretanto, ainda hoje, uma parte considerável de nossas unidades agrícolas se voltam para a agricultura de subsistência.

A industrialização dos EEUU está entrelaçada à própria história daquele país. Lá a grande indústria, com produção em larga escala, foi o resultado natural – como causa e efeito – do crescimento da nação. Por aqui, o processo industrial se deu só a partir da primeira metade do século passado e se acelerou na década de 50, pelos empreendimentos do então presidente Juscelino Kubitscheck. Entretanto, entre 1961 e 1967, o Brasil entrou em crise social e refreou o crescimento econômico que vinha do período anterior. Findo esse interregno, segundo Celso Furtado (1983), a indústria brasileira voltou a crescer, como resultado “de uma política governamental muito bem-sucedida, que visa atrair as grandes empresas transnacionais…”.

Os três aspectos aqui abordados – o ordenamento legal, a agricultura e a indústria – não esgotam o paralelismo comparativo da industrialização dos Estados Unidos e do Brasil. Poder-se-á estender este estudo com a incorporação de novos elementos e fazer correlações sobre o desenvolvimento dos meios de comunicação viária (lá as estradas de ferro em direção ao oeste, aqui as ferrovias do café; lá e cá as rodovias dos anos 50 e 60) etc. Entretanto os principais campos de investigação para a ampliação deste cenário comparativo talvez sejam as políticas educacionais dos dois países, bem como a formação e a atuação dos políticos e dos partidos políticos.

No mais, tem-se que pôr em relevo a diferença do caráter da atividade empresarial dos capitalistas norte-americanos e brasileiros. Lá eles enfrentam o mercado sem dificuldades criadas pelo Estado e sem sua ajuda; aqui eles têm que enfrentar as dificuldades criadas pelo aparato estatal e, no mais das vezes, somente têm condição de obter êxito se contarem com incentivos do próprio governo. Lá os empresários exitosos são quase que heróis nacionais; aqui alguns formadores de opinião os veem quase que como marginais.

 

Tribuna do Norte. Natal, 25 dez. 2019

O parlamento e seus desvios, opus 2

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Tomislav R. Femenick – Jornalista – Do IHGRN

 

O Brasil já teve várias duplas dinâmicas e vitoriosas. Pelé e Garrincha, nas Copas de 1958 e 1962; Pelé e Coutinho, no Santos, nas décadas de 1950 e 60; Rivaldo e Ronaldo, em duas Copas do Mundo, em 1998 e 2002; Romário e Bebeto, na Copa América de 1989. Houve várias outras, mas nada supera a dupla Batoré e Nhonho, no Congresso Nacional. Batoré, também conhecido como Davi Alcolumbre (DEM-AP), é o presidente do Senado e, por decorrência, do Congresso Nacional. Nhonho, ou Rodrigo Maia (DEM-RJ), é o presidente da Câmara dos Deputados.

Ambos vieram do baixo clero do Congresso, eram parlamentares com pouca expressão política. O primeiro assumiu o cargo num movimento para evitar a reeleição de Renan Calheiro, o esperto que foi engolido pela própria esperteza. Davi responde a dois inquéritos no STF. Rodrigo foi investido na atual posição na esteira do escândalo de Eduardo Cunha, que teve o mandato cassado pelo plenário da Casa. E, também, responde a inquéritos na Polícia Federal. Em síntese, nenhum dos dois teve mérito próprio para ocupar o cargo que tem. É esse o Congresso que temos.

Esses senhores presidem instituições com características ímpares. Ali todo mundo ganha muito e trabalha pouco. Nessas duas casas do povo (pois somos nós, “os iguais, menos iguais”, que pagamos as contas de suas senhorias) é praxe que só se trabalha dois dias por semanas; em casos extras podem ser mais que isso. E ninguém tem o ponto cortado; eles são “os iguais, mais iguais”. É por isso e por outras coisas que, de vez em quando, alguém tem o desplante de chamar o nosso parlamento de “casa de mãe Joana”.

A Constituição Federal garante que “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se […] a igualdade…”. Lindo de se dizer e ouvir. Entretanto, igual à história contada em A Revolução dos Bichos, de George Orwell (1980), há aqueles iguais que são mais iguais que outros. Vereadores, deputados e senadores têm as verbas de gabinete durante todo o seu mandato, têm uma penca de assessores parlamentares que nada mais são (há exceções) que cabos eleitorais trabalhando o tempo todo para sua excelência, têm as verbas dos fundos partidário e eleitoral, bem como suas verbas orçamentárias. Tudo para se fazer presente à memória e aos bolsos dos eleitores que se vendem por qualquer ilusão ou qualquer “tostão furado”. Agora eu pergunto: como podem os outros cidadãos competir com essa máquina de triturar novas lideranças?

Em nossa Câmara Municipal e em nossa Assembleia Legislativa tivemos casos escabrosos que resultaram em condenações de “representantes do povo” e prisões de funcionários de “altos escalões”. Vez ou outra deputados e senadores são condenados e até perdem seus mandatos. No entanto, tudo permanece como dantes no quartel de Abrantes.

Agora a pergunta que está contida em nossa garganta: E o que fazer? Parafraseando Max Weber (1997), “todo conflito no parlamento implica não somente numa luta por questões importantes, mas também numa luta pelo poder pessoal”, mas “quer amando, quer odiando a política parlamentar – não podemos afastá-la”. Em outras palavras: ruim com as casas parlamentares, pior sem elas.

Então, a tarefa é reformular nossos legislativos. Não é tarefa fácil, pois essa transformação depende dos mesmos vereadores, deputados e senadores que transformaram nossas casas congressuais em quase casas de tavolagem. Há que montarmos uma estratégia. Primeiro não reeleger os fichas-sujas, os meio-sujos e até os quase-sujos. Segundo, para receber o nosso voto, não basta que o candidato tenha o viés ideológico igual ao nosso; ele tem que ser explicitamente honesto (não devemos ter bandidos de estimação). Terceiro, e o mais difícil, devemos também ser honestos e não vendermos nossos votos por quaisquer duas colheres de mel coado ou dez mil reais autênticos.

Alguém há de dizer que sou apenas mais um sonhador, um pobre inocente. A minha avó, lá na quentura de nossa terra natal, já dizia: o idealista é uma besta quadrada, o pessimista um chato de galocha e o realista é aquele que luta pelo que quer, embora o que queira seja uma miragem refletida lá longe, no horizonte.

 

Tribuna do Norte. Natal, 19 dez. 2019

O parlamento e seus desvios

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Tomislav R. Femenick – Jornalista – Do IHGRN

 

Eu sempre tive muito respeito pelo parlamento. Isso por duas vertentes. Primeiro por herança familiar. O meu primo Vicente da Mota Neto foi deputado federal em duas legislaturas (1946 e 1950) e deputado estadual também por dois mandatos, além de prefeito em Mossoró. Seu irmão, Francisco Mota, foi vereador por várias legislaturas consecutivas e também prefeito. Isso para não falar do meu bisavô, o Cel. Vicente da Mota, que foi intendente do Município, e de seus filhos Francisco Vicente Cunha da Mota e Luiz Ferreira Cunha da Mota, o Padre Mota, o primeiro, intendente e prefeito e o segundo, também prefeito da cidade.

Depois há a minha formação humanística, iniciada em casa e aprendida com os ensinamentos do meu padrasto Xavier Vieira, ex-seminarista jesuíta (quase padre), advogado, poliglota e funcionário do Banco do Brasil, numa época em que isso diferenciava quem ostentava essa condição. Foi ele que me levou a conhecer os filósofos gregos, os pensadores do iluminismo, principalmente Descartes, Francis Bacon, John Locke, Rousseau e Spinoza. As ideias eram amplas e as apreendi esparsamente. No entanto, delas retive o conceito básico do sentido da democracia: a organização política da sociedade que reconhece o direito de cada cidadão de participar da gestão dos assuntos públicos. Aprendi, ainda, que a prática desse entendimento se dá através dos parlamentos municipais, estaduais e federal.

Teoricamente, no Brasil também é assim. Está lá na Constituição Federal: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos”. O problema é a prática. Um povo que elege seus representantes Tiririca, Agnaldo Timóteo, Romário e outros que tais, que ameaça eleger Luciano Huck, Datena e outros quejandos e já elegeu o rinoceronte Cacareco, espera o que do seu parlamento?

Todavia o problema é bem maior. Os nossos vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores são “experts” em criar vantagens para si mesmos. Regalias impensáveis em quaisquer órgãos que se respeitem. São verbas de gabinetes, auxilio disso e daquilo, tratamento médico-odontológico para suas senhorias e familiares, sem teto de gasto. Recentemente o deputado Marco Feliciano gastou R$ 157 mil com dentista e nós é que pagamos a conta. Quando presidente do senado, Renan Calheiros fez um implante capilar e tentou espetar em nosso bolso as despesas com o serviço de estéticas e de transporte em avião da FAB.

Mas são as verbas de gabinete que correm soltas e sem fiscalização. Faz tempo que eu e muita gente só recebemos aqueles cartões de Natal e de parabéns pelo aniversário de antigamente, pelo correio enviados por deputado e senador. Sabem porquê? Eles têm verba para gastar com os serviços dos Correios. Nada sai de suas contas. As verbas de ressarcimento com o uso de gasolina não são conferidas por ninguém; basta apresentar as Notas Fiscais. Dizem que há Excelências cujos gastos anuais com combustível davam para ir à lua e voltar, mais de uma vez.

 Acha pouco? Então vamos falar das viagens ao exterior, ditas a serviço. Elas acontecem o ano tudo. Levam nossos representantes a todos os cantos do planeta. Do topo do mundo a lugares exóticos. No entanto as viagens preferidas são aquelas que incluem cidades do chamado circuito Elizabeth Arden: Roma, Paris, Londres e New York. Dizendo que vão a congressos, seminários e comissão de estudos, deputados e senadores mal aparecem nesses certames. Preferem passear, conhecer ou rever lugares famosos, frequentar os melhores restaurantes, assistir o cancan do Moulin Rouge, os musicais da Broadway, visitar o Museu do Louvre, ir ver o Papa na praça do Vaticano, andar nos ônibus de dois andares e fazer compra na Harrods de Londres. Isso tudo fazendo selfies que depois serão entregues às respectivas assessorias, para as divulgar no Face, no Twitter e no Instagram.

Tudo às custas de nós, os trouxas, os otários que os elegemos.

 

Tribuna do Norte, 14 dez. 2019

Os onze supremos

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Tomislav R. Femenick – Jornalista, historiador. Do IHGRN

 

Quando eu era jovem (faz tempo…), não havia televisão aqui no Rio Grande do Norte. Tudo que acontecia no Brasil afora, e mesmo no mundo, era-nos trazido pelas ondas do rádio. Ficávamos de ouvidos antenados naqueles grandes aparelhos modelo capelinha ou nos rádios portáteis japoneses, os rádios-transistores, a grande novidade.

Os sons dos programas de auditório, humorísticos, os grandes cantores e cantoras e os jogos de futebol nos encantavam. Porém o futebol era a grande atração. Estou falando da segunda metade dos anos 50 do século passado – Meu Deus, para que fui mexer com reminiscências? Como estou tão velho e não tinha notado? C’est la vie.

Em Mossoró não era diferente, mas com uma peculiaridade: de cada 100 pessoas, 101 torciam pelo Flamengo. Isso tudo graças a Dequinha, o craque mossoroense que jogava de center-half – hoje centro avante – no time carioca. Criou-se uma legião de fanáticos. Lembro-me de que quase lotaram um avião, para ir assistir à partida final do campeonato carioca de 1955, lá no Rio de Janeiro.

Se Mossoró tinha uma feição intuitiva pelo Flamengo, o Brasil tinha uma paixão incontida pela nossa seleção. Quando a seleção canarinha jogava, nós nos esquecíamos da inflação (na época chamada de carestia), instabilidade política, governo militar, o bota-fora de Collor, as vaciladas tucanas. Ah, como era bom ser campeão do mundo. Isso na época de Pelé, Garrincha, Rivellino, Rivaldo, Tostão, Zico, Carlos Alberto, Zagallo, Roberto Carlos, Didi, Bellini, Romário, Ronaldinho Gaúcho e tantos, tantos outros. Vencemos cinco copas: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Mas… tivemos uma derrota acachapante: 7 a 1 para a Alemanha. O pior é que foi em casa, no Mineirão, em uma Copa organizada pelo Brasil, em 2014.

De lá para cá os jogadores já não mais são craques, são estrelas; não se preocupam com o “prumo do pé”, mas com a marca da chuteira; não querem ter uma visão geral do jogo, querem que vejam os novos cortes e as novas pinturas dos seus cabelos; não querem contato com a torcida, baixam as abas dos bonés e botam fones de ouvidos, na certa para não ver nem ouvir os torcedores. Talvez por essa desfaçatez é que, hoje, quase ninguém sabe dizer de cor e salteado (olhe eu aqui mostrando outra vez que estou ficando velho) os nomes dos onze titulares da seleção.

Porém nem tudo está perdido. Em compensação hoje todo mundo (dizia um professor meu: em sociologia “tudo mundo” quer dizer “quase todo mundo”) sabe os nomes e reconhece as imagens dos onze integrantes da colenda corte que é o STF-Supremo Tribunal Federal. Não sei se os conhecemos pelos seus méritos ou desacertos; por suas ilibadas sentenças, ou por suas licenças jurídicas baseadas em entrelinhas que somente os iluminados veem; pela conduta pessoal de alguns dos ilustres, ou pelos deslizes que eles cometem.

Por outro lado, suas excelências criaram um mundo próprio para viver: quando vão sentar, há que haver um valet de chambre para empurrar a cadeira; as suas refeições hão de ter o melhor do melhor, inclusive vinhos estrelados, premiados pelos menos três vezes. E aí daqueles que os considerem serem humanos normais e os tratem como tal; serão reprimidos ou simplesmente ignorados, mas sempre denunciados como transgressores.

Enquanto isso, suas senhorias não aparentam ser tão límpidos assim. Deus e todo mundo já sabe que o deus José Antônio Dias Toffoli não possui saber jurídico algum, haja vista as duas últimas enrascadas em que se meter: proibiu o Coaf (atual UIF) e a Receita Federal de fornecer dados de fraudadores aos órgãos de investigação (MP e PF) e teve que recuar; leu um voto que tomou uma sessão inteira do STF e ninguém entendeu nadica de nada – por isso ganhou o epíteto de “o homem que fala javanês”. Nem ele entendeu, por isso voltou atrás.

No final do governo Dilma, uma filha do ministro Marco Aurélio Mello e outra de Luiz Fux, ambas sem pós-graduação, foram nomeadas desembargadoras. Uma no Tribunal Regional Federal, na capital fluminense, e outra no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Dizem que nessa história há DNA dos país.

 

Tribuna do Norte. Natal, 05 dez. 2019

Los hermanos negros

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Tomislav R, Femenick – Jornalista e historiador – Do IHGRN

 

Ao se andar pelas ruas de Buenos Aires, é difícil encontrar algum afrodescendente. Parece que ali só há descendentes de europeus. Não é bem assim. Houve épocas em que a população da capital argentina era composta com cerca de 30% de negros e mulatos. Bernadino Rivadavia, o primeiro presidente argentino, apelidado de “doutor chocolate”, seria um mestiço com ancestrais africanos.

A análise de dez censos demográficos realizados na cidade de Buenos Aires, de 1778 a 1887, mostra que, em oito deles, a população de origem africana oscila entre 24,7% e 30,1%. Apenas os censos de 1827 e 1887 apresentam número fora dessa característica; o primeiro por trazer números incompletos e o último por indicar 1,8% – note-se que, no censo anterior, o de 1838, a população negra e mulata representava 26,1%. Afora os números frios das estatísticas, têm-se evidências outras para comprovar o grande contingente de negros na população da capital. Uma dessas comprovações está no número de bairros cuja população negra era, se não majoritária, bem representativa: San Telmo, Monsarrat, Concepción, La Piedad e Balvanera.

Algumas explicações são dadas para o declínio da população negra da capital portenha: a grande imigração de europeus; a extinção da importação de escravos; a grande mortandade de soldados negros nas guerra de 1810 a 1870; as péssimas condições de vida que os sobreviventes das guerras tiveram que enfrentar no regresso, na qualidade de libertos porém sem trabalho, sem ter onde morar e sem ter o que comer; o baixo índice do crescimento vegetativo dos negros e, não menos importante, a mescla racial que teria embranquecido os argentinos de origem africana.  De todas as causas apontadas para o desaparecimento dos negros, a mais importante talvez tenha sido o embranquecimento censuário da população. Como diz George Andrews (1989): “a transferência estatística de um grande segmento da população afroargentina da categoria parda-morena para a branca”.

A maior contribuição da raça negra – dos escravos e dos libertos – na Argentina, provavelmente não esteve na força de seu trabalho físico, mas sim na sua expressão artística, resultando naquela que é hoje considerada como a expressão mais legítima da própria alma portenha. Primeiro era uma música profana, com um ritmo bárbaro, executada por tambores, atabaques e outros instrumentos membranófonos, acompanhada por um bater constante com as palmas das mãos e por um canto sincopado. A dança era sincrônica, frenética, quase ato sexual. Eram os candombes dos negros de Buenos Aires, entre o meado e o fim do século XVIII, e também de Montevidéu, quando eram eleitos os reis e rainhas das várias “nações” (etnias) negras. Depois, como resultado do sincretismo de culturas africanas e europeias, houve uma espécie de abrandamento da música, do ritmo e da dança, o que resultou em uma ladainha, um embalo, quase música cristã: era a forma dos negros, escravos e libertos, participarem da procissão de Corpus Christi. Outra transformação, de volta às origens africanas, agora uma procissão dançante, não religiosa, os tambores, que eram realizados todos os domingos e feriados. Era a festa dos negros de Buenos Aires, que durava de meio dia até altas horas da noite, na Praça da Vitória, à qual compareciam o Ditador Rosas, sua família e altos funcionários do governo.

Com a grande emigração de europeus, essa música e dança foi como que “contaminada” por outros gêneros musicais, tais como a habanera e a milonga. O primeiro é um ritmo de origem afro-cubana que foi levado para a Espanha e que, modificado, retornou à América. É uma música de compasso binário, com o primeiro tempo fortemente acentuado, com uma curta introdução seguida de duas partes de oito compassos cada uma, com modulação do tom crescente. O segundo é um canto e dança da Andaluzia que, nos fins do século XIX, popularizou-se nos subúrbios de Montevidéu e Buenos Aires.

A fusão dos tambores com a habanera, com a milonga e com ritmos de origem europeia, resultou em um som mestiço, em um ritmo menos sexual, mas ainda sensual. Hoje o tango talvez seja o maior símbolo da Argentina (Femenick, 2003).

 

Tribuna do Norte. Natal, 29 nov. 2019

Mais respeito com a historia

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Tomislav R. Femenick – Mestre em economia, com extensão em sociologia e historia – Do IHGRN

 

Sempre me senti incomodado com o sensacionalismo provocado por certas “descobertas” ou novas interpretações históricas, que são apresentadas como façanhas fantásticas, mas que, na verdade, são danças de picadeiro. Na minha opinião, ciência é coisa séria e assim deve ser tratada. Não custa destacar que, somente no século XX foi que a história, como relato e interpretação de fatos, deixou de ser “expressão literária” para ser uma “ciência”. Nesse percurso, o “campo de palpiteiros” perdeu lugar para outros elementos: a importância e confiabilidade das fontes que dão sustentação e exatidão da narrativa.

No entanto, a historiografia brasileira, de vez em quando, é sacudida por uma espécie de tremores de parque de diversão. O exemplo mais recente e esdrúxulo foi o pronunciamento do ministro da educação, Abraham Weintraub, em plena comemoração da Proclamação da República, chamando o movimento que depôs monarquia de golpe infame e traiçoeiro, perpetrado por militares; isso tudo se sabendo que o governo ao qual o senhor Ministro serve tem uma forte estrutura militar.

Na segunda metade do século passado, quando contestar era um modo novo de ver a vida, mandaram que todos esquecessem os longos cabelos e barbas de Tiradentes, pois ele os usaria curtos. “Joaquim José da Silva Xavier era militar e, como se sabe, cabelos compridos nunca foram tolerados nas Forças Armadas” – afirmou um desses arautos da nova história, esquecendo-se que o Tiradentes cultuado como herói é o revoltoso preso, enforcado e esquartejado; e esse tem barba e cabelos compridos. Por outro lado, cumprimento capilar não é história; no máximo é uma questão de estética.

Esses dois casos são excentricidades que até podem ser chamados de insignificâncias. Porém há outros. Em 1979 foi lançado um livro que “causou”, como se dizia então, entre os estudiosos de cabelos longos e barbichas (olhe aí, novamente a força capilar), bolsa à tiracolo e sandálias franciscanas. Trata-se de “Genocídio americano: a Guerra do Paraguai”, de Júlio José Chiavenatto. O livreto se sustenta na afirmação de que a guerra foi um conluio do Brasil com a Inglaterra, pois esta não via com bons olhos um suposto desenvolvimento industrial do Paraguai. O autor só se esqueceu de um detalhe: naquele momento Brasil e Inglaterra estavam com relações diplomáticas rompidas.

No bojo da Guerra do Paraguai, veio-me a lembrança outra desconstrução historiográfica. Trata-se da origem do nome do Município de Baraúna, de nosso Estado, cujo topônimo é bastante comum no Nordeste. Há cidades com esse nome no Rio Grande do Norte e na Paraíba, um bairro em Feira de Santana e um povoado em Barreiras, ambos na Bahia. A maioria deles deriva de uma arvore, a baraúna, ibaraúna ou braúna.

Alguns estudiosos criaram uma confusão desnecessária, ao porem em dúvida a origem do nome do Município potiguar. Afirmam que há três hipóteses: a) homenagem ao herói Alexandre Baraúna; b) uma planta por nome de ibiraúna, ou c) a existência de um Preto Velho conhecido pela alcunha de Baraúna. Não há hipóteses, há simplesmente especulação “em busca de ribalta”, como diria Nelson Rodrigues.

Vejamos os fatos. Em um artigo publicado na Revista do IHGRN (vols. XLI a XLIV, de 1944 a 1947), Vingt-un Rosado fez a biografia de Alexandre Baraúna, dizendo que o “Cel. Vicente da Motta [por acaso meu bisavô] conheceu pessoalmente Alexandre Baraúna” e ele “era filho de Luiz Francisco Paredão, ex-escravo do português Alexandre Soares do Couto” […]. Esse cidadão “seguiu para o Ceará, em cuja capital no ano de 1851 ingressou nas fileiras do Exército Imperial. Em 1865, encontrava-se o bravo filho de Mossoró a escrever, na tomada de Paysandu, com o seu sangue, uma das páginas mais belas da história militar do Brasil”.

Nove anos depois, quando Vingt Rosado era prefeito de Mossoró, foi criado o Distrito de Baraúna. Na época, Vingt-un fazia parte do governo do seu irmão e foi o redator do decreto. Pergunta com resposta óbvia: qual teria sido a inspiração do nome do novo distrito (hoje Município de Baraúna), o herói, a planta ou o preto velho?

 

Tribuna do Norte. Natal, 24 nov. 2019.

Antonio Florêncio, o empreendedor

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Tomislav R. FemenickJornalista e Historiador; do IHGRN

 

No final dos anos 1950, quando eu era funcionário do Banco do Nordeste em Mossoró, a S/A Mercantil Tertuliano Fernandes apresentou um pedido de financiamento para um projeto de extração de óleo de algodão, com a utilização de solvente químico. Fausto Pontes, o gerente da agência e figura de inteligência ímpar, tinha em mãos dois problemas: o valor excedia em muito seu limite de decisão (na época foi o segundo maior já pleiteado junto ao banco) e exigia um projeto técnico e outro econômico. Antonio Florêncio de Queiroz, já na época o principal dirigente da empresa, tinha o projeto técnico pronto, porém o projeto econômico teria que ser elaborado; para o que fui convocado a trabalhar junto com Fausto.

Não foi fácil. Passamos cerca de três meses envolvidos quase que exclusivamente na sua formatação, mas constantemente precisávamos de informações da S/A Mercantil. O estudo envolvia operações de compra, descaroçamento e beneficiamento de algodão e seus produtos e subprodutos: algodão em pluma, linter, borra de linter (hull fiber), torta magra, casca e borra de óleo; extração de óleo vegetal bruto, semi-refinado e refinado, destacando-se o óleo comestível, (que mais tarde adotou a marca Pleno), bem como o mercado comprador. Para todas as indagações Florêncio tinha dados coletados e elementos que os comprovavam. Desse convívio, nasceu a minha aproximação com ele. Posteriormente, o projeto foi aprovado pela diretoria do BNB, resultando na criação de duas subsidiárias: a Usina São Vicente S/A e a Fábrica Raimundo Fernandes S/A.

Com a visão de Florêncio e de Valdemar Fernandes Maia (presidente) o Grupo SAMTEF se tornou o maior conglomerado empresarial do Rio Grande do Norte de então, atuando principalmente nos setores algodoeiro e salineiro. Nesse último, através de sociedades controladas ou associadas: SOSAL-S/A Salineira do Nordeste, Salinas Guanabara S/A e SALMAC-Salicultores de Mossoró Macau Ltda. A unidade produtora da SOSAL ocupava uma área de 26 milhões de metros quadrados, com uma zona de cristalização de 200 mil metros quadrados, onde, no final dos anos 1960, eram produzidas 400 mil toneladas de sal. A Guanabara foi a primeira salina brasileira integralmente planificada e totalmente mecanizada. Ocupava uma área de 10.000.560 metros quadrados. A SALMAC, embora produtora, centrava suas atividades no refino e distribuição do sal do grupo nos mercados consumidores. No porto de Santos-SP, possuía instalações de desembarque, com capacidade de 300 toneladas por hora e, ainda, um depósito com capacidade de armazenamento para 25 mil toneladas de sal.

A atuação de Antonio Florêncio de Queiroz foi além da área empresarial. Foi verdadeiramente o pai do Porto-Ilha de Areia Branca, batalha ganha depois de vencer muitas lutas. Quando tentou o apoio dos políticos para a causa, segundo suas palavras, “nenhum quis, naquela fase da luta, participar do nosso esforço, pois todos temiam desagradar uma área ou outra”. Tomou a iniciativa de ingressar na política. Foi eleito deputado federal quatro vezes, exercendo mandatos de 1971 a 1987. Em 1986 foi candidato a vice-governador, compondo capa com João Faustino. Durante o governo de Cortez Pereira foi e levou técnicos ao Japão e às Filipinas, em busca do know-how que fez o RN se transformar em importante produtor de camarão.

Era bacharel em Ciências Contábeis, pela Academia de Comércio do Rio de Janeiro (1952) e em Ciências Econômicas, pela Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas do Rio de Janeiro (1956), foi diretor-presidente da Indústria Química Alcanorte e integrante do corpo dirigente da Confederação Nacional da Indústria.

Sua primeira profissão foi auxiliar de pedreiro, ainda quando criança, em Pau dos Ferros. Depois foi office boy nos escritórios da SAMTEF de Mossoró e do Rio de Janeiro, depois diretor do grupo empresarial. Hoje é nome de rua em Natal (Rota do Sol), Mossoró, Pau dos Ferros, Areia Branca-RN e Teresópolis-RJ; de escolas nas cidades de Espírito Santo e Macau (Sesi)-RN, e das bandas de música de Pau dos Ferros e Rafael Fernandes-RN.

 

Tribuna do Norte. Natal, 21 nov. 2019.

Para não esquecer Raimundo Soares

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Tomislav R. Femenick – Jornalista e historiador – Do IHGRN

 

O Rio Grande do Norte é pródigo em esquecer os grandes nomes de sua história. Em Mossoró, menos. No entanto, até lá há uma seletividade no que deve ser cultuado. Há quase 20 anos, coloquei à disposição das autoridades locais os originais de 5 (cinco) livros, nos quais descrevo a história da cidade entre 1963 e 1972 (período que cobre todo o mandato de Raimundo Soares de Souza como prefeito, de 1963 a 1968). Na ocasião ouvi de um prócer local: “Vamos estudar”. Até hoje não recebi resposta.

Mossoró teve dois grandes prefeitos. Padre Mota em cujo mandato, segundo Câmara Cascudo, “tudo se agita e se modifica”, em um “ambiente de vibração, de tarefa contínua, de labor sem pausa”. Em seu governo de quase dez anos, transformou a quase vila em uma cidade pujante; industrial, centro comercial e irradiadora do progresso. O desafio de Raimundo Soares foi atualizar e dinamizar essa lógica, para o que era necessário uma nova infraestrutura.

A primeira luta foi a busca pela água, um problema secular na cidade, que se agravava com o seu crescimento. O problema foi resolvido com o descobrimento de um lençol aquífero, com profundidade em torno de 700/800 metros. Alguns “poços resolveriam o abastecimento de uma população de 400 mil pessoas”. Naquele momento, a população era de 80 mil habitantes.  A segunda foi a busca pela energia elétrica. Na ocasião, o então prefeito disse: “A luta pela energia foi um dos esforços mais dramáticos da minha administração” (Diário de Natal, 19.03.1967). Para tanto contou com a ajuda da SUDENE, dos Senadores Dix-huit Rosado e Dinarte Mariz e do Deputado Vingt Rosado, que empenharam verbas no orçamento da União para a construção do linhão e da modernização da rede local de distribuição.

Outra frente que a administração Raimundo Soares abriu foi pela modernização e ampliação do ensino. A rede municipal de ensino básico foi ampliada, as escolas antigas foram remodeladas, os professores receberam cursos de aperfeiçoamento e atualização, foi construído o prédio e inaugurado o primeiro Ginásio Municipal, que atendia a quase 500 alunos. Mas o grande passo foi a criação das primeiras faculdades (Economia, Filosofia e Serviço Social) e, depois, duas instituições que deram origem às duas universidades públicas que ainda hoje têm sede em Mossoró: a Universidade Regional do Rio Grande do Norte (hoje Universidade do Estado do Rio Grande do Norte) e a Escola Superior de Agricultura de Mossoró (a atual Universidade Federal Rural do Semi-Árido). Nos trabalhos que resultaram na estruturação do segmento de ensino superior, houve participação significativa de João Batista Cascudo Rodrigues, Vingt-un Rosado e Dix-huit Rosado; foi uma tocata a oito mãos.

No final do seu governo, Raimundo Soares enfrentou um sério desequilíbrio financeiro, reflexo da crise que atingia alguns dos mais expressivos setores da economia mossoroense – sal, algodão e cera de carnaúba – e das alterações da política econômica e fiscal da União. Falando sobre o assunto, afirmou:   Determinei rígido regime de economia, não preenchi cargos vagos e extingui outros. Acresce que a Prefeitura tem pesados ônus. Inclusive de 70 poços tubulares perfurados pelo meu governo. Além de despesas com ensino, cultura, saúde, eletrificação […]. Deixei o governo em ótima situação econômico-financeira e com o funcionalismo pago em dia […]. Mas ainda: deixei condições para que o meu sucessor realize uma grande administração. Imprimi à administração de Mossoró um tal ritmo (inclusive através de uma reforma administrativa) que dificilmente, alguém poderá mudá-lo”.

Apesar de todo o seu trabalho por Mossoró, o prefeito Raimundo Soares de Souza somente é homenageado dando nome a uma escola, uma rua (que nem é encontrada no Google Maps), um prédio de uma central de abastecimento e um ala da Universidade Estadual. Era nome da Estação Rodoviária. Quando inauguraram um prédio novo tiraram o seu nome.

 

Tribuna do Norte. Natal, 14 nov. 2019

O ciclo do algodão no Seridó

vinheta172Tomislav R. Femenick – Economista, jornalista e historiador – Do IHGRN

O Seridó é uma região que abrange parte dos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. A sua porção potiguar ocupa 12.824,8 Km² e tem uma população em 322.453 pessoas, segundo estimativa do IBGE para 2008. É formada pelos municípios de Acari, Augusto Severo, Bodó, Caicó, Carnaúba dos Dantas, Cerro Cora, Cruzeta, Currais Novos, Equador, Florânia, Ipueira, Jardim de Piranhas, Jardim do Seridó, Jucurutu, Lagoa Nova, Ouro Branco, Parelhas, Santana do Matos, Santana do Seridó, São Fernando, São João do Sabugi, São Jose do Seridó, São Tome, São Vicente, Serra Negra do Norte, Tenente Laurentino Cruz, Timbaúba dos Batistas e Triunfo Potiguar. Sua característica climática é a escassez e instabilidade das chuvas, altas temperaturas e baixa umidade. Seu solo pedregoso é de baixa fertilidade (salvo alguns poucos aluviões) e a vegetação natural é preponderantemente de caatinga.

A efetiva colonização da região se deu no final do século XVII, após a expulsão dos holandeses e a chamada Guerra dos Bárbaros, guerra essa desencadeada pelos europeus contra a resistência dos índios Cariris à ocupação de suas terras; primeiro pelos portugueses, depois pelos holandeses e, novamente, pelos portugueses. Vencidos os nativos, ocuparam o Seridó povoadores de origem lusitana, vindos de Pernambuco (Goiana e Iguarassu) e da Paraíba. As primeiras concessões de terras na região datam de 1676 e 1679. Entretanto a emancipação administrativa do Seridó só ocorreu mais de um século após, em 1788, quando foi criado o Município de Vila Nova do Príncipe, hoje Caicó.

Segundo José Augustos Bezerra de Medeiros (Revista do IHGRN, 1948), “na zona do Seridó, certo e seguro é afirmar-se que todo o movimento povoador decorreu da necessidade econômica de encontrar lugar adequado à localização de fazendas de criação de gados. […] O gado foi, desse modo, ao começar o povoamento da terra seridoense, o elemento econômico fundamental, a fonte de riqueza natural de exploração comercial, o princípio de todo o processo da história do Seridó. […] Mas, estava escrito que o algodão seria, com o decorrer dos tempos, a dominante econômica do Seridó. Para isso concorreu decisivamente a qualidade da fibra do algodão preferentemente ali cultivado, melhor do que a de qualquer outro tipo brasileiro, e rival das melhores do mundo, prestando-se admiravelmente à confecção dos tecidos finos”.

O algodão mocó ou “algodão do Seridó” é uma variedade adaptada ao solo árido, resistente às secas e que produz fibras longas, de grande brancura e poucas sementes. Foi na segunda metade do século XIX que a cotonicultura se expandiu no Seridó; de início como atividade paralela à pecuária e, depois, suplantando-a. A difusão do seu cultivo ocorreu a partir do vale do Rio Seridó, mais particularmente das vizinhanças de Acari. Plantava-se a mesma variedade selvagem cultivada pelos índios Cariris; depois outras já selecionadas. Porém era uma cultura doméstica, de subsistência. Só posteriormente é que foi trabalhado como produto voltado para o mercado. Seu destino primeiro foi à indústria têxtil inglesa, em seguida a nascente indústria de fiação e tecelagem do sul do país. Isso em grande parte foi uma decorrência da sua inquestionável qualidade, qualidade essa que lhe valeu o grande prêmio da Exposição Nacional de 1908, realizado na então capital federal, o Rio de Janeiro, para comemorar o primeiro centenário da abertura dos portos e fazer um inventário da economia do país.

O desenvolvimento da cultura do algodão no Seridó fez com que, em 1910 já existissem na região 171 máquinas beneficiadoras de algodão, sendo 124 bolandeiras (tracionadas por animais) e 47 locomoveis (movidas a vapor). Na década de 1920, a região do Seridó – acentuadamente os municípios Caicó e Jardim do Seridó – produziu mais de 40% de todo algodão exportado pelo Estado para o exterior e para outras regiões do Brasil. Todavia, as deficiências e as contradições internas da cotonicultura seridoense minavam a sua estrutura econômica e apresentava fortes traços de não sustentabilidade. Principalmente dois fatores se enquadram nessa situação: a) em virtude da escassez de solos propícios à agrícola, a cotonicultura desenvolveu-se em pequenas propriedades; b) para aproveitar o solo agrário, o plantio do algodão era consorciado com os de feijão, milho, mandioca ou batata-doce.

Se por outro lado esse tipo de plantio garantia o sustento do produtor e o emprego para o grande contingente de mão de obra disponível na região, ele impedia o desenvolvimento tecnológico, pois não permitia o uso intensivo de máquinas agrícolas nem o emprego adequado de defensivos contra as pragas que atacavam o algodoal. Embora presentes em outras áreas do Rio Grande do Norte e do Nordeste, esse sistema era mais acentuadamente característico do Seridó.

Tribuna do Norte. Natal, jun. 2010

O ciclo do algodão no Seridó II

Iniciado no final do século XIX, o ciclo econômico algodoeiro do Seridó se sobrepôs à pecuária bovina, atividade que praticamente deu origem ao povoamento colonial da região, e se transformou numa das mais fortes fontes formadoras da renda do Estado, muito embora essa fosse uma agricultura de sequeiro, praticada em terreno árido e sem irrigação. Contribui para essa acessão o fato da região ser a origem de um dos mais procurados tipos de fibra de algodão, o algodão mocó ou simplesmente o “algodão do Seridó”.

Já nos anos de 1920, o Seridó passou a produzir mais de 40% de todo algodão exportado pelo Estado. Os altos lucros atraíram quase todo o potencial de trabalho, capital e tecnologia disponíveis na região, que foram empregados na produção, beneficiamento e comercialização daquilo que era um verdadeiro ouro branco. Em função disso, “até a década de 1970, a maior parte da população do Seridó estava concentrada no meio rural”. Essa situação se transplantava para o Estado: “A cultura do algodão no Rio Grande do Norte foi, até o final da década de 70, a principal fonte geradora de emprego e renda, tendo a agricultura participado em percentuais médios, no período 1962-71, com 45% da renda estadual; isoladamente, o algodão contribuiu com 32%” (SPF-RN, 2000).

A partir daí, sucederam-se vários fatores que, juntos, provocaram a debacle das atividades ligadas à economia algodoeira no país e no Estado, porém acentuadamente no Seridó: o aparecimento das fibras sintéticas, a ocorrência de uma sequência de períodos de seca, as altas taxas de juros e a correção monetária incidentes nos contratos de empréstimo rural e, finalmente, o aparecimento a praga do bicudo. O bicudo é frequentemente evocado como o pivô da crise, entretanto ele foi tão somente mais dos problemas que se somaram e ocasionaram essa história.

Nas duas últimas décadas do século passado, o cultivo de “pés de algodão” mocó, típico e natural da região, sofreu um grande declínio e foi quase que totalmente abandonado pelos produtores locais. No ano de 2000, o cultivo de algodão arbóreo no Rio Grande do Norte ocupara apenas 9.642 hectares, dos quais 8.852 na Região do Seridó. Se compararmos com os anos 1960, quando a cotonicultura se espalhava por 500.000 hectares, ver-se o tamanho de seu encolhimento. Isso resultou na transformação das terras, antes ocupadas por algodoais, em pastagem para o gado e, depois, em capoeiras e “mata rala”, num processo que tem facilitado a desertificação da região do Seridó. O efeito social, paralelo, foi a urbanização da população; a migração de grande parcela de população da zona rural para as cidades.

A consequência foi que a agricultura da região, hoje preponderantemente voltada para a produção de milho e feijão, ficou restrita a pequenos sítios em áreas de vazante (terreno temporariamente alagado pelas enchentes dos rios) e tabuleiro (terreno pouco elevado, arenoso e de vegetação rasteira). A cotonicultura do Seridó, outrora exuberante, foi desestruturada, quase que eliminada, provocando à bancarrota de todos os outros setores envolvidos na cadeia produtiva do algodão: os comerciantes intermediários, maquinistas, beneficiadores e indústria de óleo.

Nos primeiros anos deste novo século os governos federal e estadual, bem como algumas outras entidades, estão empenhados em recuperar a agricultura algodoeira, fazendo a distribuição de sementes (herbáceas, e não mocó, no caso arbóreo) e incentivando o preparo do solo com o uso de tratores.

Também tem sido política de governo incentivar o cultivo no Seridó do algodão arbóreo orgânico – cultivado sem agrotóxicos ou adubos químicos, prática que mantém e recupera a fertilidade do solo. A boa adaptabilidade e capacidade produtiva dessa variedade algodoeira são garantidas pelas condições naturais da região, que conta com temperatura alta, baixos índices de umidade relativa do ar e, ainda, com alta taxa luminosidade, fatores que reduzem substancialmente os problemas de pragas e doenças desse tipo de plantio algodoeiro.

Nessa mesma linha de atuação, em março passado, o SENAI promoveu o seminário “Cultivos Alternativos do Algodão para Geração de Renda Agrícola”, evento integrante do Arranjo Produtivo Local do Algodão e do projeto Implantação de Tecnologias na Cotonicultura no Semiárido, com o objetivo de reunir pesquisadores e produtores de algodão para trocar experiências e traçar novas estratégias de negócios.

A opção do algodão orgânico é válida para o Seridó, onde se espera plantar 6.000 hectares até este ano, porém não reuni as condições necessárias para recuperar a grandeza que o agronegócio algodoeiro já representou para a região.

Tribuna do Norte. Natal, jun. 2010

 

Disparates não acertaram o alvo

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Tomislav R. FemenickJornalista, historiador – Do IHGRN

 

As notícias recentes que emanam de Brasília têm um cardápio bem variado. Há as boas: a inflação está contida em patamar baixo; os juros básicos (taxa Selic) também; a Bolsa de valores se mante com índices elevados, enquanto o risco país (indicador que mede a estabilidade de um país em termos políticos, econômicos e financeiros) permanece baixo. A previsão do PIB (soma de todos os bens e serviços produzidos em determinado período) para este ano é que continua fraco, mas interrompe o viés de queda registrado nos últimos anos, com pico ocorrido em 2015, quando nosso crescimento foi negativo; menos 3,5%. Analisados em conjunto, estes números mostram uma tendência de crescimento econômico, impulsionado pelas reformas aprovadas no Congresso Nacional.

Mas nem só bons aromas vêm da capital federal e eles nascem no âmago do poder. A mais absurda foi a declaração do deputado Eduardo Bolsonaro, pregando a possibilidade de volta do AI-5, o mesmo que já dissera que, para fechar o STF, bastavam um jipe, um cabo e um soldado. Também de Brasília vêm as ameaças do próprio presidente à liberdade de imprensa. Isso para não falar nas traquinices contra a Suprema Corte, comparando-a a uma alcateia de hienas. Há que se ter cautela nos ataques ao STF, por mais que ele mereça.

Já falei aqui das vantagens de se ficar velho. Além da mais óbvia, se manter vivo, há o repositório de memórias. Muitas foram as diabruras que eu vi na política nacional, que começaram como meras travessuras e que geraram graves crises para o país. Vamos falar naquelas que geraram consequências sérias e que poderiam ter sido evitadas.

O suicídio de Getúlio aconteceu em um contexto de tensão extrema. Seu ápice foi o Atentado da Rua Tonelero. Visavam matar o jornalista Carlos Lacerda (que saiu levemente ferido), mas mataram o major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz. A investigação provou que o autor intelectual do crime foi o chefe da Guarda Pessoal do Presidente, Gregório Fortunato. Pressionado pelo Congresso e pelos militares que pediam sua renúncia, Vargas se suicidou no dia 24.08.1954.

Em 1960, Jânio Quadros se elegeu presidente prometendo varrer a corrupção. Seu símbolo era uma vassoura. Seu mandato durou menos de sete meses. Populista e com tendências autoritárias, governava através de “bilhetinhos” que mandava a seus ministros. Enquanto isso, brigava com o Congresso. Sua carta de renúncia, dizem, não era “para valer”, pois ele queria mesmo era mais poder. Ou foi meramente um momento de porre?

Seu sucessor foi seu vice, Jango Goulart. Logo que foi confirmado no cargo – após idas e vindas – se viu coagido pelas esquerdas a tomar medidas populares, que incluíam reforma urbana, agrária, educacional, eleitoral (esta com a legalização do PCB) etc. As divergências com seu cunhado Leonel Brizola eram exemplos da queda de braço que o presidente mantinha com a ala mais radical da esquerda. Em um comício realizado aqui em Natal em maio de1963, Brizola atacou o General Antonio Carlos Muricy, comandante da 7ª Divisão de Infantaria, acusou-o de gorila e golpista, e fez apelos para que os soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica pegassem em armas, em defesa das reformas de base. Declarou ser necessário “colocar mais fogo na fogueira e aumentar a pressão contra o Congresso”, visando conseguir a aprovação das reformas. Jango foi deposto no dia 31.03.1964, no bojo de um movimento popular que pedia sua deposição, isso mais ainda depois do comício da Central do Brasil. Resultado: 21 anos de governos militares.

Os impeachments de Collor e de Dilma são recentes e todos sabem as causas. É claro que o “caçador de marajás” não foi afastado por causa de um Fiat Elba, e a “gerentona” só por causa das pedaladas fiscais.

Apesar de toda popularidade, está na hora de o presidente Bolsonaro e seu clã estudarem a história recente do Brasil. Estou torcendo para que o clima político fique mais calmo e a economia prospere. Afinal, sou brasileiro, moro aqui e não quero sair daqui.

Tribuna do Norte. Natal, 10 nov. 2019