Ler, para saber escrever

vinheta173

Tomislav R. Femenick – Jornalista

 

Por motivos que agora não vêm ao caso, eu somente comecei a falar aos sete anos de idade. Ao mesmo tempo comecei a ler e iniciei os meus primeiros passos na escrita. Além dos tropeços de gramática, eu tinha outro problema: eu lia as “palavras” e não as “silabas”. Isso é, para mim a escrita era figurativa e não fonética. Quem corrigiu esse meu defeito foram os meus eternos gurus, Vingt-un e América Rosado. Mas essa é outra história, a ser contada em outra oportunidade, se a houver. O que importa agora é o fato de que eu fiquei com sequelas e, consequentemente, falava e escrevia errado. Até desenvolvi um método para que ninguém notasse meus erros: falava baixo e só escrevia com o dicionário à mão.

Quando tinha doze anos, fui morar em Alagoas e para lá levei as minhas deficiências linguísticas. Mas eu não poderia continuar com esse carma. Um dia, um ano depois, entrei na redação do Jornal de Alagoas, órgão dos Diários Associados, e pedi para falar com o Diretor. Fui recebido pelo mestre Otacílio Colares. Aí se deu um diálogo surreal, como dizem meus alunos.

– Trouxe algum recado para mim?

– Não, senhor. Vim lhe pedir para trabalhar no jornal.

– Mas nós não temos vaga de contínuo (na época era assim que se chamavam os office-boys).

– Mas eu não quero trabalhar como contínuo. Quero ser jornalista, repórter.

Otacílio olhou mas atentamente para mim, um menino de treze anos, e fez-me a pergunta que eu temia:

– E você sabe escrever?

– Não, mas quero aprender aqui, onde terei a obrigação de escrever todos os dias.

O jornalista, romancista e poeta não se conteve e deu uma imensa e sonora gargalhada.

– E como é que eu vou lhe pagar, se você não sabe nem escrever.

– Eu não disse que queria ganhar dinheiro. Eu disse que queria trabalhar, escrever.

Em seguida ele me explicou que os jornalistas deveriam saber mais do que simplesmente escrever; deveriam saber “encontrar” as notícias e selecionar aquelas que eram de interesse público. Depois de quase uma hora de conversa (para mim, a minha primeira aula teórica de jornalismo), lançou-me um desafio. “Traga uma notícia, escreva-a em forma de reportagem, sem se importar com os erros de concordância e ortográficos. Se for um furo, eu lhe contrato como repórter, com salário regular”.

Sai da redação do Jornal, que ficava na rua Boa Vista, e fui direto ao Palácio do Governo, ali perto, na Praça dos Martírios, e pedi para falar com o governador Arnon de Melo (o pai de Fernando Collor de Melo), dizendo ser do Jornal de Alagoas. Não demorou muito e fui recebido. Contei-lhe a minha situação e que precisava de uma notícia para ser contratado. Deu-me matérias suficientes para vários “furos” jornalísticos. Foi assim que ganhei o meu primeiro emprego como repórter.

Escrever foi uma doença que peguei ainda menino. O meu primeiro contágio foi através da minha avó, leitora ávida de tudo que era jornal. O que me intrigava era que, quando ela estava lendo, entrava numa espécie de transe, separava-se do mundo, não ouvia e nem falava com ninguém. Aquilo me fascinava; quem escrevia para jornal tinha o poder de encantar as pessoas.

Depois foi um italiano, o doutor Pedro Ciarlini (pai de Augusto, meu colega), que me perguntou o que eu gostaria de fazer. Lembrando-me da minha avó, respondi: escrever. Então leia todos os livros que poder, foi a resposta dele. De lá para cá escrevi bastante; 55 livros e meus artigos já saíram em mais de cem jornais e revistas. Cheguei até a ser sócio-diretor de uma agência de notícias, a Enterprise Press. Mas, renovar é preciso. Para me manter atualizado, também tenho uma página na internet, a www.tomislav.com.br, que nos últimos cinco anos vêm recebendo, em média, mais de um milhão de visitas, oriundas de mais de trinta países.

Tribuna do Norte. Natal, 13 mar. 2020.