VLADO, O HORRÍVEL

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 28 out. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 01 nov. 2007.

 

Valdomiro, ninguém conhecia. Vlado, o Horrível, todo mundo sabia quem era. Era o dono da indústria da cidade, uma fábrica que reciclava papéis velhos e os transformava no famoso papel higiênico “Grã-Fino”, cuja propaganda usava o slogan: “Suave e resistente. O único que garante mãos limpas”. Feio, baixinho, atarracado e careca, Vlado apertava sua barriga com uma cinta, usava peruca e suas roupas eram confeccionadas por um famoso alfaiate da capital. Tudo isso para melhorar a imagem.

Nasceu pobre. Seu pai era um servente de pedreiro, que um dia saiu de casa para comprar um Melhoral e nunca mais voltou. Dizem que fugiu da mulher, tida e havida como uma verdadeira jararaca. Dona Marinalva recebeu o golpe, mas nunca comentou com ninguém a fuga do marido. Criou o filho com o seu trabalho de costureira – alias, não era das melhores. Com muito custo, Vlado terminou o primeiro grau e foi para a Capital trabalhar como “selecionador de material reciclável”, em uma cooperativa de catadores de lixo. De lá, foi para o sul maravilha e arranjou serviço em uma fabrica de papéis, onde, por esforço próprio, foi subindo de cargos, até chegar ao de gerente de produção. Tendo aprendido o ofício nas duas pontas e juntado dinheiro, voltou para sua cidade e montou uma fabriqueta, quase que artesanal.

A fabrica cresceu, a ponto de ter que comprar os papéis velhos de todas as cidades da região. O passo seguinte foi adquiri máquinas novas, para o que conseguiu financiamento em um banco do governo. O desenvolvimento do seu negócio o levou a uma posição social de destaque. Primeiro ficou como encarregado da quermesse anual, realizada para comemorar a semana do Santo Padroeiro local. Depois, foi convidado para diretor do Clube social da cidade, foi eleito presidente da Associação Industrial e representante da cidade no Conselho Estadual para Assuntos Beneméritos.

Mas havia um problema: Vlado, com quase 40 anos, ainda era solteiro. Em uma conversa reservada, o prefeito, que era seu amigo, o aconselhou a procurar uma moça de família, recatada e com prendas domésticas, para fazer o que, um dia, seria inevitável para um cidadão de destaque como ele: casar e produzir filhos. E Valdomiro foi à luta. Na capital, quando jantava na casa de um dos seus clientes, conheceu a filha dele. Moça retraída, estudiosa, bonita, muito bonita, com olhos da cor de âmbar, entrando na casa dos trinta anos. Falou com o pai sobre sua pretensão de se casar, foi convidado outras vezes e… casou com Amelinha, que sabia cozinhar, costurar e tinha prendas para fazer agrados ao marido. Descobriu que a sua era mulher boa de mesa e de cama.

Na sua volta, a cidade fez uma festa no Clube local em homenagem aos recém-casados. Todos estavam lá. Os importantes, para ir à festa; o povo, separado por uma corda de isolamento (tomada de empréstimo à única agencia bancária da cidade), na fila do gargarejo, assistindo a entrada dos convidados. Nisso, chegam Vlado e Amelinha. Todo mundo se agitou, pois todos queriam ver a noiva. Quando estavam subindo a escada da entrada do Clube, uma voz masculina se destacou dentre o murmurinho foi geral: “Esse é muito pouco cavalheiro para tamanha égua”.

A festa foi o que se espera. As pessoas estavam apropriadamente vestidas, a banda tocava bem e o repertório agradou a todos. O bufê estava impecável. Todos se divertiam. Mas a grande surpresa foi a noiva: afável, gentil, sem pouse de besta e muito carinhosa com o marido. Entretanto, se prestassem bem atenção, teriam visto, entre os risos e sorrisos do noivo, uma nota de preocupação. Porém, na alegria geral, ninguém notou.

Vlado continuou com o mesmo dinamismo de antes. O que mudou na sua vida foi a parte social. Pediu demissão do cargo de diretor do Clube, o casal fazia poucas visitas e recebia muito menos. O fato, sem que ninguém soubesse, era que o poderoso industrial de papel higiênico, ficou encucado com aquela frase que saiu do meio do povo. Será que ele não teria como satisfazer à sua doce esposa? Passou a se cuidar melhor e para isso montou uma academia em casa, onde fazia exercícios; nadava diariamente na piscina, antes apenas um adorno arquitetônico; e, como não poderia deixar de ser, passou a fazer check-up médico a cada seis meses. Além do mais, toda vez que sua mulher queria visitar os pais, lá Vlado ia junto. Para cúmulo do cúmulo, levou sua mãe, que sempre morara em sua própria casa, para morar com eles. Todavia, não houve transtorno, pois sogra e nora se deram muito bem.

A única hora em que Amelinha ficava só era quando saia de carro pela zona rural, para comprar ovos, frutas e verduras frescas para sua casa. Era a falha que existia na vigilância que Vlado montara. Para fechar essa lacuna, contratou um chofer-segurança para vigiar sua mulher. Um dia eles saíram para comprar ovos e pepino e nunca mais voltaram.