Viver em Natal

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 05 abr. 2010.

Escolhi morar na cidade de Natal por uma serie de razões: aqui moram minha filha, meus netos e um longo rol de parentes. Aqui tenho muitos amigos e a cidade era uma antítese da capital paulista, onde tinha morado por mais de trinta anos. Se lá as ruas eram esburacadas, havia inundações constantes até das ruas centrais, o trânsito era uma loucura e a “segurança pública” era apenas uma expressão idiomática estereotipada, por aqui as coisas pareciam ser diferentes. Para cá vim de “mala e cuia”, trazendo a mulher, meus livros, meus discos e tudo o mais.

O asfalto das vias públicas era liso, as águas das chuvas corriam livremente pelas ruas sem maiores causar problemas, o trânsito fluía satisfatoriamente e, aparentemente, a segurança não era problema dos mais graves. De um momento para outro tudo começou a se alterar. Hoje dirigir automóvel pelas ruas de Natal é um exercício constante de pericia em se desviar de buracos e lombadas e, em determinados horários, é um teste de paciência para se enfrentar engarrafamentos. Caminhões, ônibus e motorista lerdos trafegando pela esquerda, numa violação ao Código de Trânsito; que ninguém respeita ou parece conhecer.

Há quatro anos fui assaltado numa “saidinha de banco”. Depois de muita burocracia, consegui fazer um Boletim de Ocorrência em uma delegacia que, de tão chinfrim, mais parecia uma bodega do interior de antigamente – instalações precárias, sem computados, escrivão despreparado, formulários preenchido à mão e tudo nesse nível. Nunca tive retorno de nada e continua no prejuízo. Logo em seguida meu carro caiu em uma lagoa, formada por uma chuva em uma das principais ruas do bairro em que moro, o Morro Branco (onde morava a então governadora do Estado).

Entra governo e sai governo e as coisas ruins continuam na mesma e até pioram. Em algumas ruas, a numeração das casas é uma coisa de doido. Na Jundiaí e na Xavier da Silveira, por exemplo, a numeração é descontinuada, desrespeitando a matemática e a lógica cartesiana. O cidadão que vai procurar um número se depara com caso explícito de “nonsense”, de disparate. Por sua vez, as calçadas mais parecem uma pista de obstáculos, em vez de serem vias de livre trânsito para pedestres. De repente, aparecem rampas de acesso às garagens, batentes subindo ou descendo, veículos estacionados e, às vezes, até um “puxadinho” feito pelos moradores, todo isso num entendimento travesso de que as calçadas são propriedades deles e não integrantes das vias públicas.

Antes do término do seu mandato, o ex-prefeito embargou a construção de um hotel na Via Costeira, porque o prédio impedia a visão de mar a quem passasse por aquele logradouro. Foi uma atitude contestável, porém o que vale aqui é a causa: o mar de Natal (e sua vista) seria uma propriedade de todos os natalenses – por isso é que algumas zonas são “non edificantes”, aqui na capital do Estado. Pois muito que bem. Na recente reforma da Via Costeira o direito de vista ao mar foi levado a sério, ao pé da letra, como se diz. Todavia parece que nós somente temos direito à vista, pois ao longo da via não lugar para se estacionar veículos e, consequentemente, não há como se ter acesso às praias, ao mar. Há outras inconsequências nessa reforma. Para quem sai de alguns hotéis e queira retorna à Avenida Roberto Freire é exigido o percurso de mais de um quilômetro em sentido contrário, até se encontrar um ponto de retorno. Ou é incompetência técnica ou desleixo mesmo.

Ora, não venham dizer que eu sou de fora e que não tenho direito de criticar a cidade que me acolheu. Não, isso não. Sou mossoroense de nascimento, porém natalense por adoção e papel passado, pois – por bondade de meu amigo vereador Aquino Neto – sou cidadão natalense honorário. Se reclamo é porque quero muito bem a esta urbe fundada sob a égide e as bênçãos dos Santos Reis.



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