Usado em vão o nome de Cristo

vinheta172

Tomislav R. FemenickMestre em economia, com extensão em sociologia e história

 

Um caso que chegou ao TSE, pedindo a cassação do mandato de uma vereadora goiana, por ter praticado abuso de poder religioso durante a campanha, trouxe à discussão a não tão estranha relação das religiões com o poder. Basta lembrar que, desde as mais antigas civilizações, há uma simbiose entre as partes, da qual ambas tiram proveito. Foi assim na Mesopotâmia, no Egito, na China, na Índia, na América pré-colombiana e nas tribos da Terra Brasilis.

Entretanto, foi na Idade Média e nos anos que lhe seguiram que essa situação aflorou, dando lugar a inúmeras crises religiosas. Considere-se que o homem europeu típico dessa época era um místico por excelência, que “reduzia à religião tudo quanto concernia às condições de vida, quer fossem políticas e materiais, quer morais” (CORVISIER, s.d.).

Nesse período histórico, a Igreja Católica tinha enorme poder temporal. Se uma parte considerável do clero se preocupava com a vida espiritual e declarava votos de pobreza, uma outra se dedicava inteiramente às lides mundanas. A igreja era uma grande proprietária de bens materiais, o Papa era um príncipe que tinha exércitos e dirigia pessoalmente suas guerras; e reinava sobre os reis.

O ponto inicial do movimento contra a presença da Igreja na vida temporal foram as obras de Erasmo de Rotterdam, principalmente seu livro “Elogio da Loucura”, editado em 1511, onde dizia: “Sua Santidade glorificada possui terras, cidades, domínios e recebe impostos e taxas. E é sobretudo para defender e conservar essa rica aquisição que os pontífices romanos costumam condenar as almas (…) e, sem piedade, empregam o ferro e o fogo para sustentar as suas razões” (ROTTERDAM, 1971). Todavia, sua obra crítica foi mais além e condenou o comportamento da sociedade como um todo. Erasmo, que era filho de um padre, foi ele mesmo padre, secretário de bispo, professor particular e reitor; rejeitou ser cardeal. Apesar de criticar a Igreja, ele não deu seu apoio aos reformistas; na sua opinião bárbaros e fanáticos.

Os movimentos de confrontação com o poder da igreja viriam principalmente com Lutero, Calvino e a Igreja Anglicana, todos eles desposando ideias coincidentes com o pensamento de Erasmo.

Martinho Lutero, padre e doutor em teologia, iniciou o seu confronto com Roma, em 1517. Suas pregações visavam a criação de uma igreja nacional, autônoma, a supressão do celibato, do luxo e da usura. Advogava a manutenção da hierarquia social e eclesiástica. O movimento progrediu nos Estados alemães, conquistou a Suécia, a Dinamarca e parte da Suíça, e penetrou na Boêmia, na Hungria, na Transilvânia e na Lituânia. Porém o movimento se subdividiu, aparecendo as correntes dos “sacramentários”, “anabatistas” e “menonitas”.

Calvino (Jean Calvin), francês e doutor em Direito, deu início ao seu movimento em Genebra, na Suíça, em 1541. Para ele, o destino de cada pessoa era previamente traçado por Deus. A riqueza seria uma dessas demonstrações. E quanto maior fosse a riqueza maior a graça divina. Suas ideias se propagaram nos Países-Baixos, na Alemanha renana, na Boêmia, na Hungria, na Polônia, na Inglaterra e na Escócia. Entretanto, seu campo mais fértil foi a França.

A reforma inglesa teve várias facetas. A Igreja Católica, além de possuir grandes domínios, impunha à Inglaterra um pesado imposto, o anatas. Apesar disso, a reforma luterana não encontrou ali apoio expressivo. As constantes mudanças de orientação religiosa do reino só se estabilizam em 1563, com a adoção pela Igreja Anglicana de uma hierarquia e culto de aparência católica e um dogma próximo ao calvinismo.

Uma das características da época foi a intolerância religiosa. Todos perseguiam e matavam seus contestadores. E não nos esquecemos da Inquisição. E todos usavam em vão o nome de Cristo. Que isso nos sirva de exemplo a não ser seguido.

 Tribuna do Norte. Natal, 26 ago. 2020