Uma Prosa Para Rosecleide

Tomislav R. Femenick
Jundiai-SP: Paco Editorial, 2011

Estas Histórias tão Humanas

Vicente Serejo

Ernesto Sábado, numa das suas anotações de leitura, conta uma história que encontrou nas páginas de um jornal. Uma pobre louca foge do manicômio e corre na direção da estação de trens para encontrar seu marido que ela lembrava ser maquinista. Entra numa locomotiva, e parte. Quando já estava em movimento, alguns guardas entram nos últimos vagões, imobilizam a mulher e retornam com o trem à estação, onde resolvem levá-la à presença da autoridade policial.

Sem sequer ter o cuidado de saber quem era e como havia chegado ali, o homem passou a ameaçá-la de prisão com a gravíssima acusação de que tentara roubar uma propriedade pública. Depois de ouvir tudo, e de ser obrigada a reconhecer o crime, saiu da sua timidez que nem ao menos vencia seus próprios olhos, e perguntou ao chefe de polícia com um olhar profundamente humano:

– O senhor nunca fez uma loucura por amor?

Relembro a notícia anotada por Ernesto Sábado não para justificar um crime, mas para mostrar que a vida e a literatura não são territórios distintos. Ou distantes.

Como disse outro dia o poeta Ferreira Gullar, ao completar oitenta anos, a literatura precisa ter a força de inventar e mudar a vida porque cria vidas. E olhe que ele não parecia naquele instante de sua maturidade intelectual que estava a anunciar algo de novo. Apenas confessava a constatação de que a criação literária nasce das inquietações humanas. Porque contar histórias é um dos mais antigos e belos sonhos do homem, chame como quiser – conto, novela ou romance.

Os contos aqui reunidos são pequenas histórias que Tomislav Femenick soube contar aos seus leitores. Nascidas daqueles temas da vida besta de que falava Mário de Andrade, porque arrancados do dia a dia. Nada há aqui que não seja profundamente humano, porque humanas são as criaturas dessas histórias. E tão verdadeiras que se entregam ao leitor com suas virtudes e vícios, afinal ninguém sopra vida em criaturas sem antes tê-las conhecido em algum lugar.

É como se o ficcionista tivesse a capacidade de operar o milagre da transcendência. Afinal, é um criador e, por ser assim, pode também dispor do mundo e das criaturas que ele criou. Nada é mais humano e humanamente compreensível do que o nome de Rosecleide Maria, uma moça que nasceu no subúrbio e desejava se chamar Mary, mas acaba morrendo de aborto depois de sonhar com um príncipe encantado e sua motocicleta chispando na rua como um cavalo de aço.

Personagens feitas de carne e osso com suas simpatias e antipatias, como a Sogra Insólita e insuportável; o Relojoeiro do Tempo no sonho de vida num céu sem horas e sem minutos; ou a tristíssima e sorumbática figura do homem de olhos mergulhados no mar e sua noite que ameaça. Aqui tudo tem vida porque nada subverte a realidade. O sublime e o grotesco saídos do apenas real se nutrem do sagrado e do profano, da condição humana e sua consciência trágica do fim.

Nada escapa, nem o detalhe mais comum, ao olho perscrutador de Tomislav Femenick, esse contador de histórias. Nem a calcinha de Thalita ferindo as virilhas dessa moça de 27 anos que deixa um bilhete para se livrar do calor e do marasmo.

Seu estilo de narrativa beira a displicência de tão aparentemente banal no jeito de dizer, e onde nem sempre é fácil perceber que tudo faz parte de uma arquitetura consciente que embrulha de simplicidade a riqueza comum das contradições humanas.

Tomislav sabe levar seu leitor a desconfiar que existe algo de comum entre o dia do funcionário público e a renúncia do Deus brasileiro que inventamos como se fosse um amuleto. E faz as lembranças tomarem corpo nas arandelas da fumaça de um cigarro de Gilda. Porque neste mundo daqui a vida nada tem de proibido, desde o mais normal ao mais bizarro.

E um traço parece marcar mais profundamente o mundo que Tomislav criou: seu gosto apurado pelas histórias policiais, ricas de personagens rabugentos, com nomes que estranhamente falsificam a vida ou são feitos de surpreendente oralidade. Como no caso de Carlinhos 33, que tem nome de bandido, mas é a vítima de cartas anônimas. Tomislav sabe que a transgressão é um dos traços mais humanos no crime, onde tudo se eterniza no criminoso para não morrer com a vítima.

Por isso o autor nos leva a não esquecer a vida. Cada história é um aviso. Ora, que se deve desconfiar da virtude; ora, do amor ou da fé, da verdade e do pecado. Aqui, as histórias são como se fossem cacos de um vitral poliédrico que embora multifacetado nos reflexos, acaba formando a imagem do ser humano. Com as suas contradições. Na inteireza da riqueza das suas angústias e da miséria dos seus remorsos. Estas histórias tão humanas…

Outubro de 2010 do Tempo Comum,
vésperas do Advento.