UMA NOVA ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 15 out. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 18 out. 2007.

As duas últimas décadas do século passado, e o início deste século, foram palcos de um fenômeno que alterou radicalmente a história da América Latina: a queda das ditaduras militares de direita e a ascensão de movimentos e partidos de esquerda ao poder. Não houve uma mudança brusca e nenhuma vitória obtida via luta armada. Em alguns países, o fim dos regimes militares deu lugar a uma abertura democrática, com governos ligados a social democracia, como foi o caso do Brasil. Em outros, como na Argentina, houve um vácuo institucional que depois foi normalizado. Foi essa abertura de espaço para os movimentos sociais reivindicatórios e, consequentemente, para as mobilizações populares, que ensejou o reaparecimento de correntes esquerdistas e, em seguida, a sua subida aos palácios governamentais. Esse raciocínio tem por base o pensamento de que a social democracia é um posicionamento de centro-esquerda, embora que distinto dos segmentos sectários da esquerda dita tradicional.

Outros elementos que facilitaram esse processo de ascensão foram a abertura comercial, provocada pela globalização, e os reflexos das crises do capital financeiro internacional, acontecidas nos últimos anos da década de noventa, que aqui deixaram seqüelas profundas. Em quase todo o Continente o efeito impactante foi extremamente negativo. Houve desemprego, aumento da pobreza, enfraquecimento do cambio, as dívidas públicas se avolumaram e a economia ficou acentuadamente dependente do padrão dólar e de investimentos externos. Essa “contradição capitalista” alavancou a atuação de movimentos sociais com conteúdos de épocas passadas, embora que com roupagens novas. No México, deu alento ao Exército Zapatista de Libertação Nacional; no Equador, consolidou o Conselho Nacional Indígena; na Argentina, deu vida ao Movimento de Trabalhadores Desempregados; no Brasil, deu mais força ao Movimento dos Sem Terra. O tema tem divido os pensadores latino-americanos e europeus, especialmente porque a ascensão da esquerda em parte das Américas tem sido uma bandeira de oposição aos Estados Unidos e ao mundo capitalista.

Todos esses acontecimentos alimentaram os movimentos de natureza antiimperialista e deram base a um outro argumento: o processo de redemocratização permitia voto livre e liberdade de imprensa, mas não impediria a desigualdade e a concentração de renda, riqueza e poder. Para alguns cientistas políticos, foi a combinação desses fatores – mais as condições históricas e a cultura política da América Ibérica – que possibilitaram aos movimentos de esquerda chegar o poder pela via eleitoral. O modelo da “esquerda democrática”, desenvolvido na região neste começo do século, é apresentado como um substituto ao domínio político e social, longamente exercido pelas elites locais e internacionais. Foi nesse contexto que certos fenômenos econômicos negativos do capitalismo, tais como a hiperinflação e o desemprego, se mesclaram com algumas bandeiras populistas, como as políticas assistencialistas de emprego e renda, e serviram de degraus para a subida da esquerda ao poder. Os grupos e partidos de esquerda captaram e exploraram as crescentes desilusões populares e se posicionaram como uma alternativa reformista, uma opção à hegemonia até então existente e, ainda, um contraponto às políticas neoliberais, muito embora que, para governar, tivessem que agregar à sua agenda grande parte das idéias e programa que eles antes combatiam.

Entretanto, é preciso entender a ascensão da esquerda no Continente como um movimento pendular; uma reação às ditaduras de direita e como conseqüência da emergência de uma nova concepção do capitalismo e de democracia. A peculiaridade foi que a esquerda latino-americana abdicou da luta armada de cunho leninista-maoista-che-fidelista, optando pela efetiva participação nos processos eleitorais.

Destaque-se que há duas esquerdas exercendo o poder. Uma propõe reformas modernas e práticas políticas de ajuste socioeconômicas, voltadas à melhoria na educação, saúde, segurança, moradia e emprego. Esta está antenada com a globalização, tem perfil desenvolvimentista e técnico; é a esquerda de resultados, da diplomacia e da boa vizinhança. A outra é eminentemente populista, nacionalizante, com projetos políticos restritos e fundamentados no assistencialismo e que defende o fim da exclusão social via Estado; é a esquerda barulhenta, que nega o mercado e o capital como meio de integração social, que prega o não pagamento da dívida externa e que explora ao máximo a exposição midiática, marcando presença constante na imprensa.

O debate sobre esse assunto cresceu na medida em que a “boa e a má esquerda” aceitaram se expor à via eleitoral, aceitando-a como caminho válido para o exercício político. Esse, talvez, tenha sido o resultado de um aprendizado político que exorcizou os erros históricos e indicou um novo caminho: a exploração dos erros das elites até então governantes. No poder, uma parte da esquerda aprendeu a dialogar e a formar “governos de coalizão”. Outra, não. Continua raivosa e estridente.