UMA CANTILENA GERMÂNICA

Tomislav R. Femenick
Jornal de Hoje. Natal, 15 dez. 2003.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 01 abr. 2004.

 

Era um dia de janeiro de 1991, com temperatura que beirava zero grau. Quatro pessoas estávamos em um carro alugado: eu, minha mulher, um tagarela chofer alemão que só falava a sua língua e uma grega, interprete e também tradutora de textos antigos escritos em língua alemã e que pensava que falava espanhol fluentemente. A conversa, gutural e interminável, era somente entre eles, o motorista e a tradutora. Por volta das sete horas da manhã chegamos na cidade de Heidelberg, localizada no sudoeste da Alemanha, no Estado de Baden-Württemberg, banhada pelo rio Neckar, um afluente do Reno, e perto das fronteiras com a França e Suíça. O povo da cidade dormia e o seu comércio ainda estava fechado. O único prenúncio de vida era o badalar do sino de sua famosa igreja protestante, a igreja do Espírito Santo (Heiliggeistkirche), que data do século XV.

Cansaço, frio e fome são coisas que não combinam muito bem, principalmente com a minha mulher. Mesmo nessas condições resolvemos andar pela pequena cidade, que é uma das mais simpáticas da Europa, com um população inferior a 140.000 habitantes e que é tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade. As ruas centrais são de uso exclusivo dos pedestre e seus prédios medievais são bem conservados e mais parecem bibelôs que moradias ou estabelecimentos comerciais. Essa volta no tempo e o fato de não mais estarmos ouvindo a cantilena germânica já melhorou o nosso ânimo. Ao encontrarmos um bar-café aberto, melhorou muito mais. Comida boa e relativamente barata. Fomos para o hotel que tínhamos reservado e aconteceu a primeira surpresa desagradável: a reserva fora cancelada unilateralmente pela administração do hotel. Fomos procurar outro; encontramos, mas era mais caro.

Malas desfeitas, banho quente tomado, roupa trocada, partimos em busca do objetivo de minha ida àquela cidade alemã: a Universidade de Heidelberg, a mais antiga de seu país, fundada em 1386 e celebre pelas suas faculdades de filosofia, medicina e matemática entre outras e, ainda, pela Biblioteca Palatina, criada no século XV, fonte obrigatória para o estudo das culturas grega e romana e repositório de documentos das mais várias áreas, em cujos originais e inéditos eu pretendia fazer pesquisas sobre a escravidão no período colonial da América e, lógico, sobre as civilizações grega e romana. Eu fora recomendado por um amigo, professor Martin Friedrich Manheim, que conheci na Universidade de Colônia, quando lá estive também fazendo pesquisas. Eis que surge a segunda surpresa: eu somente teria acesso a um número limitado de obras impressas e a poucos originais, pois uns estudantes brasileiros haviam danificado algumas preciosidades do acervo da Biblioteca. Depois de muita conversa e de deixar o meu passaporte como garantia, foi-me concedida a ampliação do campo de investigação. Vista a lista de obras veio a terceira surpresa: grande parte das obras sobre a colonização da América eu possui na minha casa, em edições modernas. O banho que eu recebi foi dado pelas obras sobre a cultura greco-romana. Fundamentos, formulações e elaborações de pensamento e das leis, quase tudo estava lá. Os dois ou três dias inicialmente previstos se ampliaram para quase dez.

Deu para sentir o pulsar da cidade, que tem grande população universitária ? inclusive encontramos alguns brasileiros. Seus cafés, bares, restaurantes e festas promovidas pelos estudantes a qualquer dia, sem programação. Estávamos todos nós felizes da vida, fazendo o que gastavamos de fazer, comendo e bebendo bem e, mais importante, livres do chofer tagarela que tinha voltado para Frankfurt. Porém tudo que é bom dura pouco. Chegou o dia, o melhor, a noite de voltarmos para Frankfurt, quando tivemos a quarta surpresa: o motorista do carro era o mesmo tagarela gutural.