UMA BÍBLIA E DOIS DINHEIROS

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 01 set 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 04 set. 2008.

O testamento do velho Ethevaldo (excêntrico e “pastor” titulado de uma nova congregação, uma dessas tantas que ultimamente pululam pelo mundo) ainda é o assunto reinante em sua pequena urbe. Ninguém de bom senso, ninguém que tivesse os parafusos no lugar, esperaria que ele tratasse seus sobrinhos como ele tratou… deserdando-os. Ninguém esperaria que ele – logo ele, que sempre fora tão atencioso, que sempre ajudou os filhos de sua única irmã – tomasse semelhante atitude. Mas, tomou.

Dona Ethelvina, sua irmã, teve quatros filhos; três homens e uma mulher, que foram batizados com os nomes de Athos, Porthos, Aramis e Jeanne d’Arc, porque o pai das crianças, seu Cleodon da Prefeitura, era um grande admirador do que ele chamava de “franco heroísmo” – ficou chateado quando o quarto filho nasceu mulher. Se tivesse nascido outro homem, o nome teria sido D’Artagnan.

Quando a irmã morreu, Ethevaldo assumiu a responsabilidade pela manutenção e pelos estudos das crianças, já que o pai delas ganhava pouco e vivia doente de tísica; do que acabou morrendo, um ano depois da mulher. A proporção em que iam crescendo, iam estudar nos melhores colégios da capital. Athos foi reprovado por três anos consecutivos no segundo ano colegial do Marista e Porthos e Aramis foram expulso do Atheneu. Só Jeanne d’Arc era bem-comportada e estudiosa (também… era interna na Escola de Dona Noilde). Os “falsos mosqueteiros”, como os chamava o velho Ethevaldo, sempre lhe deram muito, muito trabalho. Só a menina não dava preocupação. Até se casar com um “sem eira nem beira”.

Athos era um dos poucos dentistas que fracassou na profissão; Porthos dizia que se dedicava ao comércio, mas na realidade era o gerente do jogo do bicho de parte da zona norte da capital, enquanto que Aramis tinha uma lojinha de aviamentos (A Boa Costureira. Tecidos para forro, linhas, agulhas, botões, fecho éclair, colchetes etc., tudo em material para acabamento de costura e bordado). Já Jeanne d’Arc era de prendas domesticas, casada com Diógenes de Sínope, poeta de apresentação e postura, biscateiro de profissão.

Parece até que os meninos tinham uma sina ou praga. Todos se casaram com moças de famílias tradicionais, porém falidas. Isso implica dizer que suas mulheres eram medidas a besta sem ter com que sustentar a besteira. Na frente do velho, eles e elas eram só elogios, titio pra lá e pra cá. Por detrás, eram muitos xingamentos, com um significado só: “sovina, pão-duro, avarento, miserável, mesquinho, ridículo, sórdido”. Quando os casais começaram a ter filhos, todos tiveram um só padrinho: o tio que os sustentava.

Um dia o “pastor” confessou ao padre Aleixo, seu amigo de velhas eras, que não suportava mais “seus sobrinhos bestalhões e sua mulheres bestas, aquela pamonha da sobrinha e seu marido poetastro e toda aquela meninada barulhenta”. Sabia que eles vinham à força, à sua casa. Então bolaram um plano: convenceram o médico do “pastor” a recomendar aos seus sobrinhos que espaçassem as visitas. E assim foi feito, até que elas se transformaram em “a visita anual”, no dia do aniversário do velho, quando as crianças não iam para não incomodar o aniversariante. Mesmo assim, continuaram as visitas ao escritório dos procuradores do seu Ethevaldo, o escritório dos advogados “Cleto, Linhares & Targino”, onde todos eles iam buscar a mesada mensal, igual para todos.

Certo dia, a mulher de Aramis comentou com uma amiga que seu marido tinha um tio rico e que todos os sobrinhos viviam sonhando com a sua morte, quando todos “ficariam numa boa”. Isso aconteceu em um salão de beleza, onde a dita cuja refazia o seu penteado, porque ia a uma festa logo mais a noite. Acontece que a manicure que estava pintando suas unhas era cunhada de Otacílio Mecânico, lá da cidade de seu Ethevaldo. Contou para o marido, que contou para o irmão, que contou para seu Ethevaldo. Por isso é que cada um recebeu uma Bíblia e dois dinheiros; para aprenderem as lições morais do Santo Livro e que nem sempre o que vale mais é o que se apresenta com mais valor.