Um Mundo Novo – Você Decide

Tomislav R. Femenick 
Boletim Unibero. São Paulo, nº 32, abr. 1997 


Mais uma turma de formandos da Faculdade Ibero-Americana. Mais algumas centenas de alunos são transformados em bacharéis, recebem (por assim dizer) o galardão pelo desempenho acadêmico. E agora? Em que muda suas vidas? O que vão fazer? Essas palavras são para vocês formandos.

Já foi dito que a humanidade fez tudo sozinha. No início, quando Deus deu seu sopro divino na criação do homem, não havia nada; era só a terra, as águas e os céus. Coube ao homem e à mulher criarem as condições de habitabilidade e fazer do planeta a sua casa e o seu campo exploratório. E assim foram inventados a roda, o moinho, o papel, as ciências, as guerras… Antes se ouvia o rugido dos animais selvagem, o canto dos pássaros, o barulho do correr das águas dos rios, os trovões e o marulhar das ondas do mar. Agora se ouve o ruído civilizado das maquinarias industriais, do trânsito indômito, dos foguetes que partem rumo à lua, a outros planetas e ao firmamento desconhecido; da azáfama dos hospitais, do silêncio dos artistas e cientistas, do pipocar das AR-15, das explosões das bombas… Foi do trabalho do ser humano que surgiu tudo isso, o bem e o mal.

Durante quatro anos nós, professores e alunos, trabalhamos juntos na Ibero-Americana. Esse período, com certeza, foi o alicerce de muitos e variados futuros, pois foi durante ele que vocês aprenderam a conviver com os mais diversos tipos de “dificuldades sociais” que circundam o ser humano: a necessidade de se adaptar, de criar empatia com colegas, professores e funcionários, de vencer as dificuldades financeiras (sabemos que hoje em dia o custo da faculdade é de responsabilidade da maioria dos alunos) e muito, muito mais. Entretanto isso é passado; já faz parte da história, da história dos que as viveu.

Agora devemos olhar para a frente, para o futuro, o futuro dos que estão se formando. A pergunta é: e qual será ele? A resposta é fácil: vocês formandos é que são os responsáveis pela sua construção, alicerçados nos conhecimentos técnicos, científicos e humanos que receberam na Faculdade. No entanto há “construções” e “construções”. A diferença entre elas está no empenho, na qualidade e no valor do trabalho. Para fazerem o seu futuro têm não somente de fazer as coisas certas, mas fazerem com que as coisas certas sejam feitas. Isto é eficácia, muito mais importante que a simples eficiência – este é o diferencial resultante dos fatores empenho e qualidade. O valor do trabalho está no fazer o que a sociedade necessita, o que ela espera de vós; privilegiados portadores de um título universitário, numa terra de tantos carentes.

Durante esses quatro anos, aprenderam em livros e com o contato com os outros – professores e colegas. Isso vos possibilitou assimilar conteúdos, os conteúdos paradigmáticos. A escola também vos ensinou que há muito mais a ser aprendido. Quanto mais estudarem, mais abrirão vossos horizontes intelectuais e técnicos, descobrindo que há muito mais a ser assimilado. Aprenderão, também, que o saber não é uma decorrência exclusiva do compromisso das tarefas escolares ou da simples aquisição do conhecimento transmitidos pelos livros. É algo muito além. Para atingi-lo, as vezes correrão o risco de errar. Entretanto, o erro vos dará a oportunidade de repetir as tarefas com mais precisão, ele será uma ferramenta de trabalho que, entretanto, deverá ser usada com cuidado e muito poucas vezes. Mas o pior erro será sempre o erro da omissão. Para este não há desculpa e nunca, nunca deverá ser usado.

O passo que deram, ao encerrar vosso cursos, é de grande importância na vida de cada um de vós, e só o alcançaram com o desempenho dos nossos colegas professores. Graças ao trabalho deles, agora vocês recebem o ingresso para um novo mundo, o mundo das elites profissionais e intelectuais. Porém esses mestres, que tanto colaboraram no vosso processo de formação, não visam gratidão ou mesmo agradecimento, pois o simples fato de ensinar já é gratificante em se mesmo. Seus empenho e determinação foram condicionantes para que vocês hoje sejam bacharéis. É agora que vocês vão dar importância aos professores que se interessavam pelo que vocês aprendiam, que não lhes davam notas ou tiravam as suas faltas e que forçavam a barra, para que vocês se interessassem pelas aulas.

Mais do que nunca, a partir de agora esse interesse precisa ser mantido, agora fora das paredes restritas das salas de aula, pois o seu campo de trabalho é o mundo civilizado, com suas empresas, seus museus, bibliotecas, fábricas, bancos, governos, “internetes”, sirenes de polícias e ambulâncias, tiros de AR-15, etc. Não mais podem perder o interesse pelo tempo em que vivem. Conhecer as idéias que agitam a sociedade moderna, faz parte do bom profissional. A sociedade vos reconhecerá pelas vossas intenções, vossas atitudes, vossa conduta… vossas responsabilidades.

Bem vindos a um mundo novo, nem sempre admirável, mais que poderá ser um pouco melhor, pelo trabalho que vocês fizeram.