Tudo é dinâmico e nada é estático

vinheta175

Afora os problemas de ordem moral e política, o Brasil enfrenta atualmente um grande obstáculo a transpor, à volta ao crescimento econômico. Não resta dúvida que esses três fatores estão imbricados entre si. A carência de moral resulta na crise política e ambas levam o país à desorganização econômica. A Lava Jato está ai para provar que a amoralidade campeia em grande parte de nossa elite política e empresarial; mas também disseminada entre a população. O impeachment e o novo governo são exemplos irrefutáveis da crise política. E os entreves na economia impedem a produção de bens e serviços e a geração de renda, provocando a estagnação e o desemprego. Triste triunvirato do mal.

Nós contadores pecamos o bom pecado da consistência, para analisar e compreender os fatos. Apegamos-nos ao “patrimônio” e ao “resultado” e deles não abrimos mão. No Balanço (que é Patrimonial) evidenciamos se os recursos, direitos contra terceiros e bens são suficientes para cobrir as responsabilidades (dívidas), estas também contraídas com terceiros. No Demonstrativo do Resultado mostramos se as “receitas” são maiores ou menores do que as “despesas”. Em suma somos pragmáticos, porém também analíticos. E essa maneira de ser nos impregna de tal forma que assim agimos em outros campos.

Assim entendido, voltemos à realidade atual do Brasil, porém deixando de lado os aspectos morais e políticos; não porque eles não sejam relevantes (eles são), mas para nos centramos no âmbito da economia. A grande pergunta do momento é: por que a economia não deslancha, não se reativa? As ciências econômicas atuam em campos complexos e às vezes obscuros até para os economistas. Não é atua que existentes tantas correntes de pensamento entre eles, em muitos casos até conflitantes entre si. Todavia, aqui há uma quase unanimidade.

Na economia tudo é dinâmico e nada é estático. O busílis, o cerne da questão, está na matriz econômica: controle da inflação, câmbio e juros flutuantes, mas com superávit. Essa matriz foi estabelecida no governo FHC e mantida quase que intocável no primeiro mandato de Lula. De lá para cá degringolou. Juros baixos (em 2013 a taxa Selic chegou a 7,25 a.a. e o IPC ficou em 5,911%; no ano seguinte pulou para 6,409%) resultam em maior consumo e, consequentemente, em inflação maior. As intervenções do governo na taxa de cambio (via atuação constante do Banco Central no mercado de compra e venda de moedas fortes) resultaram no barateamento das importações e perda de competitividade dos produtos nacionais nos mercados interno e externo. Não por outra coisa foi que as mercadorias importadas ficaram mais baratas. O resultado foi a ameaça de sucateamento da indústria nacional.

Hoje o governo se vê às voltas com o problema de fazer o país crescer, voltar a produzir e recriar os empregos perdidos. Com as taxas de juros altas, os gastos públicos aumentam, pois o governo é o maior tomador de recursos no mercado de dinheiro. Por outro lado, nos últimos anos os gastos correntes estão em um patamar nunca visto, isso pela criação de novos cargos na administração pública e pelo aumento dos vencimentos do funcionalismo. Com a retração da produção e do consumo – provocada pela falta de confiança dos empresários e pelo desemprego dos empregados – houve queda na arrecadação de tributos. O “resultado” é que o governo federal ficou deficitário.

Na economia tudo é dinâmico e nada é estático. A indústria reduziu a produção porque o comércio compra menos. O comércio compra menos da indústria porque suas vendas foram reduzidas. Os consumidores reduziram suas compras porque têm menos dinheiro ou receio do futuro; ou estão desempregados ou têm medo de serem.

E qual seria a solução para esse conjunto de problemas. Primeiro a volta da estabilidade política, o expurgo do concubinato espúrio entre político e empresários de mau caráter e, por último, a garantia da ordem legal, tendo a Constituição como escudo. O mais é preservar o Patrimônio e obter Resultado superavitário, no governo e nas empresas.

 Tribuna do Norte. Natal, 22 fev. 2017