?TEMOS QUE SER RESPONSÁVEIS?

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste.Mossoró, fev. 2000

 

O cenário não poderia ser mais convidativo para se relaxar e esquecer as canseiras do corpo e da alma. O marulhar das ondas, o riso de crianças brincando, algumas pessoas jogavam frescobol, outras caminhavam preguiçosamente ou estavam sentadas na areia jogando conversa fora, uma singela placa onde se anunciava que ?aluga-se cavalos? (sic) e, como pano de fundo, a grande praia e o grande mar de Tibau. Isto tudo em uma segunda-feira de janeiro. Era um convite explicito para se ser sobriamente irresponsável, nem que fosse por uns fugidios instantes, naqueles em que a poesia toma posse da gente e faz com que nos esquecemos das coisas práticas da vida.

Para completar o quadro o sol estava ótimo, a brisa fazia o ser trabalho regulamentar e havia uma rede no alpendre nos esperando. Havia uma cumplicidade no ar, que nos fazia ativa e assumidamente languidos: os compromissos, por mais inadiáveis, que esperem um pouco mais de tempo; os contratos urgentes serão cumpridos mais tarde; as contas dar-se um jeito de se pagar, se possível depois de amanhã. No meu caso particular havia algo mais, uma imensa saudade para matar, nascida de uma ausência de trinta anos, e a tarefa de mostrar Tibau à minha mulher, que a conhecia somente pelos recortes das reportagens escritas nos anos sessenta. Mas tarefa não combina com Tibau e eu a estava cumprindo de vagar, bem devagarinho, como manda o regulamento do lugar, mesmo assim devidamente assessorado pelo casal Auxiliadora e Emerson.

Como que para provar que a magia existe, um menino de uns oito ou nove anos, chupando um picolé, veio correndo em nossa direção ou, melhor dizendo, na direção de Auxiliadora e, sem inibição, disse:
? Diretora preciso ter uma conversa com a senhora. É um assunto de muita importância.

A partir daí nós, os outros, fomos alijados daquela bizarra e interessante ?reunião? realizada na praia. Afastados, os dois conversaram, com a criança fazendo questão de falar ao pé do ouvido. Ao final o menino disse uma frase inesperada para ser dita naquele local por um adulto, muito menos por alguém de sua idade:
? Temos que ser responsáveis.

Estanho papo entre um adulto e uma criança em plena praia de Tibau, em um dia como aquele em que o sol, o mar, o vento, as pessoas e tudo o mais em volta nos convidava para uma completa e irrestrita irresponsabilidade, momentânea que fosse. Não entendi, nada. Até quando fui visitar o verdadeiro complexo educacional que é Mater Christi. Sim porque aquela era um conversa entre a diretora e um aluno (Abraão, da 1ª série).

Há vários aspectos que impressionam no Mater Christi. O conjunto de prédios (construídos, incorporados e em construção), a quadra de esportes e o teatro ? que meu fraterno amigo Emerson teima em chamar de auditório, e os laboratórios de química, física, biologia e informática. Porém uma escola não se faz somente com bens materiais, por melhores que sejam eles. Uma escola se faz com bons, vocacionados e, principalmente, competentes professores. Isto esta escola tem. Porém há algo mais importante ainda quando se fala de ensino: o método. Não se pode ensinar bem sem se seguir um bom método, de maneira uniforme e persistente. Não que o método deva ser uma camisa de força que imobilize professores, alunos, coordenadores e direção. Deve ser um norte, um rumo, uma direção, uma meta, porém com possibilidade de contornos, adaptações e ajustamentos, sem perda do objetivo final, que sempre deve ser o aluno.

No caso específico do Mater Christi, o método de ensino faz a escola. É o método que faz com que todos se sintam responsáveis pelo que ensinam, aprende e se faz. Aqui se vai além do simples transferir conhecimentos sobre matemática, física, química, biologia, psicologia, sociologia, economia, geografia, história, informática, línguas etc. Ao aluno se ensina também e primordialmente lógica e cidadania. Os dois componentes basilares da formação dos líderes e dos dirigentes. Em outras palavras, a escola participa da construção do futuro de sus alunos, num processo interativo que coopta dirigentes, mestres, alunos, os país dos alunos e a vida.

P.S. ? Abraão a sua conversa com a Diretora se manteve reservada. Até hoje estou curioso para saber qual era o seu assunto tão importante e que requeria tanta responsabilidade, a ponto de quebrar o bendito clima de indolência da praia de Tibau.