SOBRE VERDADE E VIRGINDADE

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 16 jul. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 19 jul. 2007.

 

Já tinha lido e ouvido falar muitas coisas sobre a revista Papangu, sempre com comentários bem favoráveis. Entretanto, nunca a tinha lido, até que tive acesso ao número de maio passado. Trata-se de um trabalho de mossoroenses, com amplitude de temas que ultrapassa a cidade, o oeste, o Estado e o país. A publicação me surpreendeu pela qualidade de suas matérias, quase todas elas perpassadas com um fino traço de humor e irreverência, porém também enfocando assuntos sérios. Muito boa mesmo.

Aqui quero comentar somente uma matéria dessa edição. Trata-se do artigo do meu amigo Antonio Capistrano, ex-vice-prefeito de Mossoró e que orgulhosamente sempre se apresenta como “filiado ao PCdoB”. Titulo: “O Exército Vermelho, herói da democracia”. Somente em uma publicação com forte carga de humor se pode levar a sério tal tema. A matéria se caracteriza por uma enxurrada de verdades ocultas. Sempre que há meias-verdades a verdade absoluta está ausente, pois a verdade é igual a virgindade; assim como não há meia-virgindade, não há meia-verdade. Para os desavisados, afirmo: Capistrano e eu temos um tipo de amizade que aceita pontos de vistas contrários e, também, a manifestação das discordâncias desses pontos de vistas.

Capistrano diz que “o exército vermelho enfrentou e derrotou as tropas alemãs”, mas não diz que isso só foi possível porque os russos foram armados pelos outros aliados (Estados Unidos, principalmente) e porque a Alemanha estava com suas atenções voltadas para o front ocidental, de onde partiam os aviões e as tropas (brasileiras, entre outras) que a estavam atacando pesadamente. Estrategicamente, o autor não fala que a “salvação” realizada pelo Exército Vermelho se transformou em “ocupação” dos paises do Leste Europeu, inclusive com alguns deles sendo incorporado ao estado soviético, como foi o caso da Lituânia, Letônia e Estônia, além de territórios poloneses e da Alemanha. A imposição de governos comunistas transformou a Alemanha Oriental, Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Romênia e Bulgária em governos submissos a Moscou. Letônia, Lituânia, e Estônia recuperaram sua independência só 1991, com a derrocada da União Soviética; o território da Polônia ainda hoje está reduzido e a antiga Prússia Oriental alemã (terra natal de Immanuel Kant) hoje é um enclave russo, entre a Polônia e a Lituânia.

E qual o papel do Exército Vermelho no pós-guerra? Simplesmente esmagou as tentativas de democracia nesses países. Os episódios mais conhecidos foram a revolução dos operários e estudantes húngaros, em 1956, e a Primavera de Praga, de 1968. A revolta húngara foi reprimida pelos tanques soviéticos que dispararam contra os manifestantes na Praça do Parlamento e derrotaram de vez as forças húngaras. Calcula-se que 20 000 pessoas foram mortas. No segundo caso (cuja luta serviu de fundo para o romance “A insustentável leveza do ser”, de Milan Kundera), os comunistas tchecos ousaram sonhar com um socialismo democrático. O Exército Vermelho, à frente das tropas do Pacto de Varsóvia, invadiu a cidade de Praga e prendeu o líder do partido comunista, Alexander Dubcek, e o presidente do país, Ludvik Svoboda. Nas ruas, as pessoas tentaram conversar com os militares, mas os soviéticos revidaram disparando suas armas contra o povo. O último soldado russo deixou o país apenas em 23 de maio de 1991.

Então como esse Exército pode ser herói da democracia? Só se for no terreno da “história virtual”, onde pode acontecer tanto meias-verdades como meia-virgindade. Nem se formos para o terreno da teleologia – doutrina que estuda as relações entre meios e fins – se pode dizer que reprimir a democracia (meio) gera democracia (fim). Essa democracia vermelha também não está no campo da moral, pois a moral deve ser embasada no que se sabe sobre determinado fenômeno, em determinado instante. E hoje sabemos que o Exercito Vermelho, além de ter sido, incontestavelmente, um elemento positivo na luta contra o Nazismo, foi, também, um instrumento de opressão usado pela União Soviética, contra os povos do Leste Europeu.

Para completar. Primeiro: o Exercito Vermelho foi organizado por Leon Trotski, que mais tarde foi expulso do partido e da União Soviética. Posteriormente, foi assassinado a mando de Stalin, quando estava asilado no México. Segundo: não podemos nos esquecer que as forças armadas soviéticas foram parceiras do exército de Hitler, na divisão da Polônia, quando os nazistas invadiram o país, em 1939. Um ano depois, o Exército Vermelho massacrou 22.436 militares e civis polacos e os sepultou em valas comuns, nos bosques próximos da cidade de Katyn.

Verdade e virgindade têm que ser completas… e puras.