SOBRE PAVÕES E PERUAS

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 20 ago. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 23 ago. 2006.

O pavão é uma ave natural da Índia, Sri Lanka (antigo Ceilão), Myanmar (antiga Birmânia), Java e Malásia. Com o seu leque aberto, o pavão dá um espetáculo de beleza. Suas penas coloridas e furta-cores atraem a atenção de quantos a vêem. Existem duas espécies originais: a azul, ou indiana, e a verde. Outras variedades foram obtidas através de anos de cruzamentos: a branca, ombros-negros, arlequim, spalding e o sameo. Desde a Antiguidade que o homem a admira e com ela convive. Foi introduzida na Mesopotâmia há mais de quatro mil anos e é citada no Antigo Testamento. Aos fenícios é creditado o início do comércio internacional do pavão, quando o levaram para o Egito. Alexandre, o Grande, o teria introduzido na Grécia, de onde emigrou para Roma e se espalhou pelo Império Romano. No século XIV, era encontrado na França, Inglaterra e Alemanha. Somente os árabes preferem manter distância do pavão, pois o consideravam azarento, por ter sido a ave que guiou a serpente, quando essa seduziu Eva e que, por isso, viveria sob praga divina.

Do que se sabe a respeito do pavão, pode-se concluir que, desde priscas eras, ele é um símbolo de status para o seu possuidor. Dizem que o rei Salomão equiparava o seu valor ao do ouro e da prata. De objeto de valor, chegou a ser considerado divino; na Índia, antigamente ele era considerado um animal sagrado e o castigo para quem o matasse era a morte. Em outras regiões o seu valor era mais prosaico, era uma fina iguaria culinária. Nas cortes européias e mesmo no oriente, os nobres mandavam servi-lo como “pièce de résistance” de seus banquetes. Era, também, uma ave de adorno; era considerado de “bom tom” que os jardins dos palácios reais exibissem o maior número possível deles. O fato é que o pavão sempre foi admirado por homens e mulheres, pois é uma ave muito linda e cobiçada, daí porque está sempre associada ao poder e à vaidade.

Entretanto o pavão também tem o seu calcanhar-de-aquiles, o seu ponto fraco: seus pés disformes, distorcidos, quase que aleijados, feios mesmos. Destoam da beleza que é formada pelo conjunto do resto dessa ave que parece ter sido projetada e criada pelos deuses. Tanto é que na linguagem popular “pé-de-pavão” que dizer feiúra ou aleijão.

No Brasil há muitos pavões. Quase todos eles descendentes dos que foram trazidos pelos portugueses, no retorno de suas viagens às Índias, como eram conhecidas de forma genéricas as terras do oriente, no tempo das navegações pioneiras dos ibéricos. Em aqui chegando, essa aves sofreram mutações genéticas, naturais ou não, que apressaram a sua evolução, de forma que muitas das suas variações perderam as características que as identificavam como aves. Em alguns casos a evolução foi tão radical que os pavões já agem quase como gente e já pensam que são gente. Esse mesmo fenômeno de evolução genética já havia acontecido com um outro tipo de ave: o peru, ave originária da América do Norte e que foi domesticada pela primeira vez no México, há mais de mil anos.

A evolução do peru deu-se de forma bipolar: os perus masculinos passaram a ser exímios observadores e palpiteiros de jogos de cartas e de sinuca, enquanto que as peruas passaram a pontuar nas altas rodas da sociedade, onde se destacam pelo fato de chamar a atenção para si pelo comportamento extravagante, pelo vestuário, jóias e maquiagem ou, ainda, pelo abuso das operações plásticas. Em tudo elas são histriônicas, ridículas e bobas. São bastante conhecidas e já tivemos sociealites primeiras damas, ministras e outras mais que são exemplos desse tipo.

Todavia são os pavões geneticamente modificados que mais povoam as nossas plagas. Temos um presidente que evoluiu de migrante nordestino pobre para pavão deslumbrado com a sua acessão social e com o poder. Para ele, “nunca na história deste país” houve um governo como o seu; muito embora tudo o que fez de bom foi copiar o que de bom o seu antecessor implantou e já vinha fazendo. Ele e seu partido, que tanto vaiaram e pregavam a deposição do presidente Fernando Henrique, agora não aceitem nem uma singela vaia, como aquela do Maracanã. O exemplo presidencial é seguido por alguns dos seus ministros. Zé Dirceu, quando ministro, cultivava o hábito de dar “chá de cadeiras” em senadores, deputados, governadores e até em outros ministros. O Ministro da Defesa anterior, Waldir Pires, achava que bastava ser ministro. Zelar pelo bom desempenho da aviação civil (uma das suas responsabilidades), era de somenos importância. O novo, Nelson Jobim, logo na posse mostrou a sua pavonisse: falou grosso e tratou mal o antecessor. Agora ele quer esvaziar a Agência Nacional de Aviação Civil, principalmente atacando sua diretoria. Aliás, o presidente e outros diretores da ANAC também dão as suas pavonadas de vaidade e presunção. Três dias depois do acidente da TAM que matou quase 200 pessoas, quatro diretores da ANAC receberam da Aeronáutica a medalha do Mérito de Santo Dummont.

Até as mais ilustres pessoas também têm seus defeitos, porém os pavões não olham para os pés, pois se olhassem encontrariam sua feiúra e seus aleijões.