SOBRE GATOS E LAMBÕES

Tomislav R. Femenick (www.tomislav.com.br)

 vinheta161

            Há palavras que nos dizem tudo, embora os dicionários nos atrapalhem o entendimento sobre elas. Lambão é uma dessas palavras. Os dicionários dizem que é aquele que é lambareiro, lambuzão, lambarão, tolo, palerma, parvo, ávido por lambarices, que executa grosseiramente as suas tarefas, que é bruto, grosseiro, estúpido. Na vida real lambão é aquele que lambuza, que lambe, que passa a língua em alguma coisa e assim vive a fazer. O maior exemplo de lambão são os gatos. São lambões por natureza. A imagem exemplar dos gatos que se tem é um animal deitado a se espreguiçar e se lamber. Aliás, os gatos têm outra qualidade bem própria deles: são uns tremendos oportunistas. Só querem levar vantagens em tudo. Beneficiam-se de tudo, de tudo tiram proveito e para nada contribuem. Não defendem as casas dos seus donos, não latem quando os ladrões entram em suas casas e não balançam o rabo para os seus donos. Somente miam quando estão com fome.

            Espelhados nos gatos, também há muitos humanos que se comportam como eles. Têm ótimas apareças, ficam quietos, somente esperando a oportunidade para obter proveito, tirar ganho e lucro de qualquer oportunidade. São manhosos como os gatos de verdade, oportunistas como eles e como eles uns tremendos lambões. São os homens e as mulheres gatos.

            Essa alomorfia (passagem de uma forma para outra, metamorfose), essa transformação do estado de ser humano para gato e vice-versa parece ser mais acentuada naqueles homens e gatos que têm o nome de Bill. Apesar de ser viciado em trabalho, o ex-presidente norte-americano Bill Clinton era um desses homens gato. Foi um dos melhores dirigentes da história recente dos Estados Unidos, mas era um tremendo lambão. Gostava de lamber charutos umedecidos com fluidos vagínico de uma estagiaria, uma tal de Monica Lewinsky – uma tremenda baranga, diga-se de passagem. Por causa disso, se tornou o segundo presidente estadunidense a sofrer um processo de impeachment, mas acabou sendo absolvido e teve as mais altas taxas de aprovação pelo povo do seu país; 58% de imagem positiva. A lição que se tira desse episódio é que se é lambão, mas não tira vantagem, o povo aprova.

            Agora, imagine você se a historia for outra. Se o personagem fosse um gato de verdade, lambão como todos os gatos e, ainda por cima, quiser se dar bem com o dinheiro do governo, do povo. Parece impossível, parece até conto do Trancoso [1]. Mas não é. De vez em quando, em nosso país as historia da carochinha viram verdade. O gato Byll tinha nome e sobrenome (da Silva Rosa) e recebia os benefícios da Bolsa Família juntamente com dois irmãos fantasmas, desde o inicio de 2008. Tudo isso foi lambança e obra do seu dono, o funcionário público Eurico Siqueira da Rosa, coordenador da Bolsa Família no Município de Antonio João, em Mato Grosso do Sul. O desvio ético foi descoberto somente porque o gato Byll não compareceu ao posto de saúde local, como manda o programa.

            Quantos outros Byll existem no Bolsa Família? Certamente ele não era o único caso de esperteza, de maracutaia existente nesse programa que envolve milhões de brasileiros e que não tem quase nenhuma fiscalização. Nem em todo lugar há a atuação de agentes de saúde, como aquele que foi atrás do gato fujão do posto de saúde. O que existe são postos de saúde que não têm médicos, enfermeiros ou simples atendentes.

            O Rio Grande do Norte é um exemplo da calamidade na saúde pública e de outras mais: de escolas desaparelhadas e sem professores, de falta de segurança pública e falta de água e esgotamento sanitário. Por outro lado eu, você e todos nós temos certeza que por aqui há muitos desses gatos. Como os que há roubando nas redes de água e luz e nos gabinetes de vereadores e deputados e em repartições e empresas governamentais dos três poderes. Tudo isso pago com o dinheiro dos impostos que eu, você e todos nós pagamos.

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 [1] Em 1575, Gonçalo Fernandes Trancoso publicou em Portugal o livro “Contos e histórias de exemplo”, que passou a ser uma referência de contos populares. Daí a expressão “conto do Trancoso”, que para cá veio com os nossos colonizadores.