SOBRE CINEMA E MÚSICAS

Tomislav R. Femenick

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            Lá pelos anos sessenta do século passado o ex-deputado Carlos Borges de Medeiros, então já residindo em Natal, foi a Mossoró, oportunidade em que foi visitar o seu vizinho e amigo José Rodrigues, o meu avô. Conversa vai, conversa vem, e o dr. Carlos disse que a cidade estava muito mudada, que até o musica que dava início às sessões do Cine Pax tinha sido alterada; no lugar de O Guarani, de Carlos Gomes, tinham colocado uma das Bachianas, de Vila Lobos. Para mim aquele foi apenas um comentário passageiro. Mas não foi bem assim.

             No dia seguinte, o meu avô mandou me chamar em sua casa e, para minha surpresa, ele pediu que eu fosse com ele até a residência do Padre Mota, seu cunhado e, portanto, meu tio. Surpresa porque ele somente saia de casa para trabalhar, pois não era homem dado a visitas. Quando lá chegamos, o reverendo e ex-prefeito de Mossoró, também demonstrou sua surpresa, pois aquilo era algo realmente inusitado. Mais surpresos ficamos nós, eu e o padre, quando soubemos o motivo da visita: a troca do prefixo musical do Cine Pax.

             Vamos explicar melhor a causa desse quase espanto. José Rodrigues de Lima era comerciante, industrial, agropecuarista e um construtor quase que compulsivo; construiu para ele mesmo mais de 100 imóveis em Mossoró, Natal e Areia Branca. Entretanto, ele era quase que um autodidata, quase sem instrução formal. Lia relativamente muito, sobre quase tudo, mas não que se saiba sobre música ou que gostasse de qualquer gênero, muito menos de música clássica. Somente no decorrer da conversa foi que nos inteiramos do motivo daquela mudança de habito de um quase recluso social. Quando da constituição da empresa para construir um novo e moderno cinema na cidade, o meu avô foi um dos sócios e somente fez uma exigência: que se tocasse O Guarani, anunciando o inicio das sessões, como ele tinha visto em um cinema do Rio de Janeiro, lá pelos anos trinta. Então, ele queria a intervenção do seu cunhado para que Carlos Gomes voltasse a anunciar o começo das sessões do Pax. Só isso.

             Foi deixar o meu avô em casa e voltei para a residência do Padre Mota. Quando eu entrei, ele me disse: “Ligue para Jorge Pinto e peça para ele vir aqui, agora”. Liguei para seu Jorge, então o dono do cinema, transmiti-lhe o recado e ele foi. Ai se deu um dialogo curioso, impregnado daquelas “coisas do Padre Mota”:

 

– Jorge, eu queria um favor seu – disse o padre.

– É só dizer – respondeu seu Jorge

– Dá para repor Carlos Gomes no lugar que ele sempre ocupou no Pax?

– Vilas Lobo é mais moderno. Foi até uma sugestão do prefeito Raimundo Soares.

– O Rei morreu, viva o Rei.

– Não, monsenhor. O senhor sempre será o prefeito de Mossoró, esteja ou não no comando da Prefeitura.

– Então volte O Guarani.

– Mas, por que?

– Porque eu gosto de ouvir O Guarani.

– Mas, como? O senhor não vai ao cinema e não dá para ouvir daqui de sua casa.

– Eu ouço com os ouvidos da alma.

      Na mesma noite o velho prefixo voltou a anuncia o início da apresentação no Pax. Comuniquei o fato ao meu avô. Ele me respondeu solfejando o refrão da musica de Carlos Gomes. Depois disse: “Só não gosto de O Guarani, quando toca na Voz do Brasil; isso porque não gosto de nada que é obrigado”.