Sobre A PSICOLOGIA APLICADA AO TURISMO E HOTELARIA (Livro do Prof. Fernando Brasil da Silva)

Tomislav R. Femenick 
Boletim Unibero. São Paulo, nº 51, nov-dez. 1999 

Há certos assuntos que são entendidos de formas bastante diferentes, quando tomados de pontos de vista se não contrários, porém não iguais. Esse é o caso da psicologia. Visto pelo senso comum, campo em que todos somos doutores, a “psicologia é para louco”; pelo senso científico, campo dos especialistas, a matéria entra em setores de saberes especializados, que exigem muito estudo e muita prática. Até aqui a psicologia segue os passos das outras ciências, porém se diferencia das demais por um simples aspecto: ela analisa a alma humana, o comportamento do ser em função do meio em que se manifesta.

Os estudos da matéria que hoje conhecemos como psicologia são tão antigos como as primeiras aglomeração, nos primórdios da evolução do próprio ser humano. Entretanto, há que se fazer algumas segmentações que indicam as etapas evolutivas, quanto a qualificação da própria forma de abordar matéria tão complexa.

Na Mesopotânea (onde se calcula que tenta havido o início da ascensão civilizadora do homem), no Egito, na China, na Índia e em todas as civilizações pré-helênicas não se analisava o comportamento das pessoas como sendo uma decorrência de sua vontade (de sua determinação), ou mesmo dos elementos do seu redor (do meio). O destino e comportamento dos serem eram tidos como predeterminados pelos deuses e demônios. As pessoas e a natureza em ger
al eram campos das “explicações” mitológicas, que se estendiam por todo o mundo objetivo. O diferencial dessas civilizações com os Hebreus, é que estes apresentavam o homem como possuidor do livre arbítrio de ação. Esse foi um passo simples, porém importante, quanto ao entendimento individual e coletivo do comportamento das pessoas. Entretanto essa também tinham uma postura religiosa: o livre arbítrio era uma atitude do indivíduo perante Deus, as pessoas podiam ou não respeitar as Suas leis, sendo responsáveis pelos atos que praticavam. Dessa forma os hebreus desenvolveram uma espécie de auto consciência, uma percepção do Eu.

Porém foram os gregos os primeiros que se encaminharam para a formulação científica do entendimento do comportamento humano, ao se associarem dos mitos e da religião e voltarem-se para a razão (logos). Ao afirmarem que os homens eram suficientemente capazes de usar o pensamento para delinear seu comportamento, os gregos não só reconheceram no ser humano o livre arbítrio perante Deus, mais perante a própria sociedade humana. O Indivíduo não só é parte da sociedade, faz a sociedade, mas também é responsável perante essa mesma sociedade. À medida que a sociedade grega foi se desenvolvendo, esse racionalismo foi se sedimentando no entendimento de seus pensadores, como base para a lógica aristotélica e dando conformidade a todo o arcabouço dos seus filósofos. A própria palavra psicologia é uma criação grega (psykhe, alma; logos, estudo).

A psicologia esteve como um segmento da filosofia durante muito tempo. Somente na metade do século XIX é que ela adquiriu “status” de ciência autônoma. De lá para cá tem crescido e atuado em várias especializações, porém sempre com um certo grau de desconhecimento para a grande massa, para a grande maioria das pessoas. Para uns, os psicólogos são tidos como gurus, com atribuições, se não de todo, porém quase esotéricas, não condizentes com o caráter científico de sua profissão. A eles são atribuídas funções de líderes, conselheiros, orientadores ou
guias espirituais, principalmente em países com fortes conotações místicas em sua cultura popular, como no caso do Brasil. Há os que procuram fazer da psicologia um campo fechado de pesquisas, envolto em um manto de saberes eminentemente científicos, ocultos para os não iniciados. A psicologia seria uma doutrina para os mais cultos no entendimento da lógica do comportamento, considerando o “aspecto psicológico como o fundamento e o centro de todo o saber, de toda investigação filosófica, particularmente da lógica e da teoria do conhecimento”.

Aqui é que entra a importância do livro do professor Fernando Brasil da Silva: a desmistificação do psicologia como entendida pelo senso comum e como pregada pelos seguidores do psicologismo. Neste livro a psicologia está em seu devido lugar: não é uma panacéia esotérica, nem uma ciência de luminares; é apenas uma ciência que oferece elementos para entender o comportamento dos seres humanos, com instrumentos para melhorar o relacionamento entre as pessoas.

Com o crescente desenvolvimento dos setores de turismo e hotelaria no Brasil, houve, paralelamente, um acentuado aumento de problemas de comportamento entre os profissionais desses setores, entre si e deles com seus clientes, os turistas e os hospedes. Estes extravasam no que entendem ser seus direitos ou os profissionais não entendem o que realmente é direito dos turistas e hospedes. Há desencontro no que seria atribuições dos agentes e funcionários das agências de turismo com os que trabalham nas empresas de transportes e nos hotéis. Em síntese, há problemas de entendimento entre as pessoas, que precisam ser resolvidos, com reconhecimento dos direitos legítimos de todos.

Com linguagem de fácil entendimento, fugindo quando possível dos termos que fazem o jargão específico da matéria, Psicologia aplicada ao turismo e hotelaria, do professor Fernando Brasil da Silva, é tão compreensível para profissionais como para professores e estudantes de psicologia, do turismo e da hotelaria, oferecendo meios de aplicação prática dessa ciência nos problemas diários dessas duas profissões. Como o próprio autor diz, não é um manual de comportamento, nem é uma obra que esgota o assunto, porém é um ótimo livro para quem esta envolvido como profissional ou com o ensino de Turismo e Hotelaria, em nosso país.



Alguém nos encontrou com os seguintes termos de pesquisa:

  • psicologia aplicada ao turismo