Sobre a Internacionalização da Economia Brasileira

Tomislav R. Femenick 
São Paulo: PUC, 1982 


Trechos de monografia elaborada sobre o texto de SILVA, Adroaldo M. da e SCHOR, Silvia Maria. A Internacionalização da economia brasileira, in Brasil 1990: caminhos alternativos do desenvolvimento. Henrique Rattner (Org.). São Paulo: Brasiliense, 1979. A monografia, na integra, foi adotado em aulas das disciplinas Economia Brasileira e Estudos de Problemas Brasileiros, da PUC-São Paulo.

O pensamento dos autores se situa em um seguimento que vai do estudo das causas, evidência os efeitos e prescrição do receituário e medidas cautelatórias. Deve se levar em conta que se trata de simples exercício acadêmico, sem pretensões de elaborar um compêndio de procedimentos, creio eu.

Os pré-supostos básicos são:

I – CAUSAS DA INTERNACIONALIZAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA

A economia brasileira teve aumentada a sua participação nas relações internacionais não por impulso autógeno, mas, sim e principalmente pelo crescimento do capitalismo internacional que, no período pós guerra, cresceu de forma a “multi-inteirar” as várias economias nacionais do mundo ocidental.

Esse crescimento, entretanto não foi multilateral em todos os sentidos. Enquanto as nações industrializadas expandiram suas exportações à taxas medias anuais expressivas, os países subdesenvolvidos cresceram com taxas inferiores. Assim, esses últimos têm recebido um afluxo de capital estrangeiro em sua economia (de risco e de investimento), onde as empresas
multinacionais se têm feito presente com tudo o que elas representam.

Há de se notar a predominância norte-americana nas organizações do sistema internacional (FMI, OTAN, OECD, CEE etc.), até na aceitação do dólar como moeda supra nacional.

A atuação dos multinacionais nos países subdesenvolvidos provocam, ainda:

• A vinculação de interesses entre economias nacionais.
• O aparecimento de questões sociais.
• A transferência de inovações tecnológicas.
• A utilização crescente de estruturas oligopolistas.
• A uniformização dos perfis industriais, criando identidade de interesses.
• A necessidade de coordenação técnica a nível supranacional.
• O surgimento de padrões iguais de comportamento empresarial.
• O controle, pelas multinacionais, do fluxo comercial entre as nações.
• O controle , pelas multinacionais, do fluxo financeiro de curto prazo entre os paises.
• A internacionalização da atividade bancária.
• A interferência na política monetária das nações suas hospedeiras do capital internacional.

Esses fatores, alinhados, demonstram que o desenvolvimento e crescimento desses países deu-se com problemas sérios, o que não deixou de provocar pressão no sentido de se realinhar o quadro montado no após-guerra. Isto em um momento de crise energética, desemprego, crescimento desordenado do volume da moeda nacional e do crédito e, principalmente, da inflação.

II – RESULTADOS DA PRESENÇA DAS MULTINACIONAIS NO BRASIL

A presença do capital externo não é nova na história do Brasil. No entanto, a partir do fim da segunda guerra mundial, ela passou a aqui também ser dirigida para atender aos interesses da “oligopolização” dos mercados industriais, até recebendo ajuda do mercado nacional, que se beneficiou e se dinamizou pela intensificação das suas atividades industriais.

A presença das multinacionais na econômica nacional se evidencia pela:

• Coincidência entre seus períodos de incremento e os períodos de crescimento da economia brasileira.
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• Atuação nas mesmas faixas de mercado de suas matrizes.
• Localização nos setores dinâmicos da indústria de transformação.
• Liderança no desenvolvimento econômico do país.
• Criação de padrões de comportamento administrativo, financeiro, organizacional, de marketing, de competição etc.
• Internacionalização do comportamento das empresas nacionais.
• Pressão altista nos salários de mão-de-obra especializada.
• Observância de controle de qualidade, que se expandiu também pelas empresas nacionais.
• Pela difusão da idéia da expansão da capacidade produtiva.
• Imposição de um perfil industrial internacionalizado, para o nosso comercio exterior.
• Presença de filiais de multinacionais como exportadoras de manufaturados.
• Ameaça de absorção das empresas nacionais privadas.

Ver-se que as multinacionais são, concomitantemente, fatores de “modernização” da sociedade e de ameaça à soberania nacional, dizem os autores.

Esse tipo de modernização da nossa economia, gerou tensões sóciopolíticas, por não ter sido acompanhada por um crescimento harmônico de todas as camadas sociais. Criou, também, a preocupação de não comprometer a soberania nacional, quando se coexiste internamente com poderosas forças externas.

Os autores sugerem:

a) Limitar e controlar a ação das multinacionais no país.
b) Fortalecer a indústria nacional, até a internacionalização de suas atividades.
c) não permitir participação majoritária de capital estrangeiro em setores estratégicos.
d) Promover associação de capitais nacionais, com capitais estrangeiros, em grandes empreendimentos tecnológicos, ficando o poder de decisão no país.
e) Distribuir o fruto do desenvolvimento.

III – CAMINHOS ALTERNATIVOS

Segundo as afirmativas de Adroaldo Silva e Silvia Schor, o futuro do país, como estrutura industrial, está umbilicado, ligado, às multinacionais, desde que o crescimento da economia brasileira não pode desligar-se da economia internacional, que estaria condicionada a red
imensionar a sua ordem monetária, até pela crise que gera inflação, desemprego e outros elementos de degradação econômica e social. Essa crise poderia vir a resultar em uma forte pressão no endividamento do país, ou aumentar o nosso poder de influenciar nos fóruns internacionais.

Entretanto, os nosso problemas no campo econômico não seriam insolúveis porque:

a) O crescimento das multinacionais aqui instaladas se confunde com o crescimento nacional e até porque parte da nossa divida é de responsabilidade das multinacionais.

b) Aqui estaria o nosso poder para administrar a nossa dívida externa e transformar parte dela em “capital de risco”, o que regularia a saída de divisas em função do nível da atividade econômica e impediria a flutuação dos juros financeiros internacionais – tese, aliás, bastante duvidosa.

Mas a solução direta seria a ampliação das exportações, o que, por sua vez, poderia:

a) Ampliar a expansão das multinacionais, quando suas filiais controlar cerca de 50% (sic) de suas respectivas atividades.
b) Aumentar as exportações de produtos agrícolas, fato que, entretanto, poderia comprometer o abastecimento do mercado interno.

Por outro lado, há a necessidade de se internacionalizar as operações das empresas nacionais, como meio de defesa própria.

Por fim, ter-se-á que fazer a economia crescer e fazer com que grade parte da população brasileira, hoje excluída, venha a participar desse crescimento.