Sobre a Filosofia da Ciência

Tomislav R. Femenick
 São Paulo: PUC, 1982.

Trechos de monografia elaborada sobre o texto de ALVES, Rubem Filosofia da ciência. São Paulo: Brasiliense, 1981. A monografia, na integra, foi adotado em aulas da disciplina Metodologia Científica em Economia, da PUC-São Paulo.

CAPÍTULOS de 1 a 4

A idéia do autor de que a Ciência é um simples aperfeiçoamento do “senso comum” ou uma “hipertrofia da capacidade que todos têm”, é muito simplista, se tomada ao pé da letra, mesmo seja observada a sua insinuação de que a primeira caminha pela lógica e a segunda anda mais pela intuição.

Talvez se tomada em casos de pessoas e ciências individuais, isolada, singulares, a afirmação (o modelo) fosse ser considerada verdadeira. No entanto, ela não poderia ser “universalmente válida, válida para todos os casos”. Se não, vejamos: seria a moderna física atômica um desenvolvimento das teorias gregas sobre a composição das matérias e sua ínfima divisão? Seria cada um de nós capaz de ser fonoaudiólogo?

Há, ainda, de se colocar a pouca distância dada entre o “senso comum” e a Ciência. A colocação do autor não seria muito simplista? Não seria pouco cientifica a atitude de quase se colocar em pé de igualdade “mecânica de estrada” e a teoria da relatividade?

Não é que se deve mitificar o cientista. E que não se deve “cientificar” o senso comum, sem correr o risco de se institucionalizar o “jeitinho brasileiro”, que não é brasileiro; é universal.

Existe outro aspecto da ciência que o autor abordou sem intitular a abordagem: o seu aspecto formal, quanto a montagem do modelo. Aqui ele não foi muito feliz, penso, quando desprezou o método
de pensamento linear e binário. No primeiro caso temos alguns exemplos de sinuosidade: as tentativas de explicar o Senso Comum estão nos itens I-C-2, I-C-4 , I-O, I-I, III-A.3, III-O etc.; os conceitos e fórmulas sobre os modelos estão nos itens III-E.1 a 7, III-F.4 e IV-E e F; ,as comparações entre a senso comum e ciência estão nos itens I-P.1 e III-A.3 etc.

Ora, tem-se que convir que há quebra de raciocínio nos longos intervalos. Por que não se explicar senso comum em uma parte, “modelo” em outra e comparar “senso comum” e “ciência” em outra parte?

Quanto ao raciocínio binário, será que este não seria o melhor instrumento a ser usado para não se fugir a explicações das diferenças básicas entre “senso comum” e “ciência”?

Já que o autor trata de “modelo cientifico”, acho que deveria ter citado e seguido o modelo “descarteano” – válido quando manda “dividir cada uma das dificuldades (…) em tantas parcelas quanto fossem. possível e requerido para melhor as resolver” e “conduzir por uma ordem os (…) pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco (…) até ao conhecimento dos mais complexos, e supondo (incutindo) a existência da ordem, entre aqueles que não se sucedem naturalmente uns aos outros” (…).

CAPÍTULOS de 6 a 8

Aqui, uma outra vez, foi mais difícil seguir a linha expositiva do autor do que propriamente a sua lógica. Não vai nessa afirmação uma crítica somente ao seu estilo estritamente literário, mas sim ao seu estilo “científico”de expor ideias, sem a clareza e as “ligações”que devem nortear um trabalho dessa espécie.

Mas isso já foi comentado na análise sobre os Capítulos iniciais. Falemos sobre os Capítulos em estudo. No Capítulo 6º o autor aborda o problema da elasticidade ou contração do campo de estudo, de acordo com os objetivos que se deseja alcançar, no entanto silencia sobre como se estabelecer o ponto ideal de tensão, para se obter um resultado ótimo. Essa, acho eu, é uma das maiores d
ificuldades da ciência e não se deve “passar ao largo”, de costa ou simplesmente contemplando o panorama. Se não, vejamos: a teoria científica é uma projeção sobre o desconhecido, tendo como parâmetros idéias (a lógica) e/ou fatos (o real). Abrir ou fechar um pouco, pode significar abrir ou fechar um pouco de mais ou de menos do que se deve abrir, além ou aquém do necessário para se ficar no ponto bom.

Por outro lado, no Capítulo seguinte, o 7º, a abordagem das linha indutiva e dedutiva, foi muito feliz, até por sua simplicidade. Pena que se perdeu no contexto geral, misturada que foi com o positivismo, pontos de partida das investigações, a divisão do objeto investigado, causas e efeitos etc.

Mais uma vez o amontoamento de ideias prejudica o entendimento. No Capítulo 8, o behaviorismo, o positivismo, a relação “estímulo x resposta”, a indução, os dados e os fatos, a interpretação, a habilidade etc., se chocam, se entrechocam e se cruzam com nada menos de 15 citações, estas talvez para confirmar a opinião do autor, segundo a qual “a multiplicação de citações nos trabalhos científicos tem como objetivo (…) sustentá-los por meio de recurso a alguém que ninguém ouse contestar…”.

CAPÍTULOS de 9 a 11

Realmente a leitura do livro é uma experiência se não fascinante, pelo menos marcante. A verdade é que não se “passa” despercebido pelas suas duzentas e poucas. paginas. As suas ideias chocam, encantam, irritam. Pena que se necessite de um mapa, uma bússola e um sextante para se caminhar pelas ideias do autor.

A falta de método (e aqui não vai nenhum sarcasmo) e o verdadeiro cipoal de citações resulta em uma sucessão de verdadeiros labirintos difíceis de sair; “complicometros” desnecessários e primários em um livro com propósitos científicos, se bem que com intenções de “descientificar” a ciência.

Mas … vamos aos capítulos em estudo.

Dito em poucas palavras, a síntese do pensamento do autor estaria representada nessas três afirmativas:

a) A imaginação
determina os Métodos Científicos.
b) As afirmações da Ciência não resistiriam a uma prova de consistência.
c) As verdades da Ciência são apenas e tão somente as verdades da comunidade científica.

Como se chegaria a tais conclusões, convenhamos muito simples:

a) O cientista não seria um super homem; portanto teria emoções, emoções essa que determinariam a escolha de seus métodos que, por sua vez, determina riam as teorias.
b) A ciência não afirmaria nenhuma verdade; somente indicaria as possíveis verdades, a ciência indicaria as inverdades, isso mesmo dentro do estreito campo da analogia.
c) A ciência estaria inoculada das visões do “clube” científico; uma entidade conservadora e que tudo faria para que não houvesse mudanças.

Ora, convenhamos que essa não é a visão que os olhos da grande maioria das pessoas (inclusive de muitos cientistas) vêm quanto contempla essa coisa a que nós nos acostumamos a chamar de ciência. O quadro, que nos parecia ser um conjunto arrumado, harmônico, foi totalmente desarrumado, desorganizado, deformado.

Se a intenção era jogar uma pedra no telhado do conceito que se tem sobre “ciência”, se conseguiu acertar no centro do alvo. Resta saber se as telhas são de vidro.

Mas chamamos a atenção para o fato de que as ideias do autor são sempre baseadas em argumentos ampliativos (ver página 116), tomando casos particulares para deles tirar conclusões universais – um falso indutivismo. Segundo o dicionário Aurélio: “Indução científica. Na tradição clássica, indução incompleta cuja conclusão, não obstante, é universal e necessária, pois se estabelece por meio de procedimentos metódicos rigorosos, que levam à descoberta de relações constantes entre objetos de uma mesma classe ou de classes diferentes; indução amplificante, indução baconiana. 2. Na lógica formal contemporânea, indução incompleta caracterizada essencialmente pelo caráter provável da conclusão à qual, não obstante, admite graus rigorosamente determinados de probabilidade mediante os procedimentos metódicos (estatísticos) utilizados”.

Se não vejamos “teorias e métodos só existem efetivamente como sistemas de ideias e instrumentais de comunidades” (página 200), um pressuposto do autor tornou-se universal, como indução. Ora a ciência pode até ser ortodoxa, mas também é revolucionária. Dai, a sua análise ter que ter uma visão de bipolaridade e não unipolar, como a que “programou” o sr. Rubens Alves. A “certeza”, que o autor procurou nos impingir é que “tudo se fará para que nenhuma mudança ocorra” (página 192, item B.5).

Ora, dizer, ou melhor dizendo, escrever isto na oitava década do século XX, até parece piada.