Só se o DNA foi trocado…

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 22 out. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 25 out. 2007.

Em 1951, quando eu tinha doze anos, meu padrasto, que era funcionário do Banco do Brasil, foi transferido para Maceió. Então, lá fomos nós todos – ele, minha mãe, eu e meu irmão recém-nascido – morar na Terra dos Marechais. A capital das Alagoas era uma cidade pequena, com cem mil habitantes ou pouco mais que isso, tradicional, muito bela e com um povo muito afável e acolhedor. Suas ruas tinham pouco movimento, pois eram poucos os veículos. De quando em quando passava um bonde da Força e Luz. Eu estudava no Colégio Guido de Fontgalan, tomava banho de mar em Pajuçara e na Praia da Avenida e ia às vesperais dançantes do Clube Fenix.

No ano seguinte, com treze anos de idade, comecei a trabalhar como repórter no Jornal de Alagoas, órgão dos Diários Associados, então a maior cadeia jornalística do país. Fiquei conhecido como o benjamim da imprensa alagoana, isso é, o mais jovem dos jornalistas (Benjamim foi o filho mais novo de Jacó, líder de uma das tribos de Israel). Entre outras ousadias, entrevistei Juscelino Kubitschek, quando ainda candidato a presidente; Gilberto Freyre; o governador Arnon de Melo, o pai do ex-presidente Collor; o general Janari Nunes, presidente da Petrobrás; João Agripino Filho, então secretário geral da UDN e futuro governador da Paraíba; o almirante Álvares Câmara, Ministro da Marinha; os escritores Jorge Amado e Eneida e os pintores José Pancetti, Pierre Chalita e Maria Tereza. Dois anos mais tarde, fui nomeado para o cargo de subsecretário da redação e admitido como o mais novo sócio na história da Associação Alagoana de Imprensa. No jornal fiz amizade com Otacílio Colares, Carivaldo Brandão, Aldo Ivo, os irmãos Arnoldo e Aroldo Jambo, Dóris Cristiano, Josué Jr., o Zuza da clicheria, o Arnaldo linotipista e muitos outros, inclusive com um cirurgião-dentista que, nas horas vagas, era repórter-fotográfico do jornal. Até então, para mim, Alagoas era uma terra risonha e franca.

No dia 11 de novembro de 1955 – dia do chamado “golpe de Lott”, quando o então Ministro da Guerra impediu que Café Filho continuasse presidente da República – o Secretário de Segurança do governo estadual, ligou para a redação convidando-me para acompanhar uma importante ação policial. Era o empastelamento do jornal comunista “A Voz do Povo”, que tinha transcrito algumas matérias minhas; inclusive a entrevista que fiz com Juscelino. Fui, vi e fiquei preso por algumas horas. Depois, quando acumulei as funções de subsecretário com a de cronista parlamentar na Assembléia Legislativa, me deparei com a barricada de sacos de areia que havia por trás das mesas da presidência e da secretaria da casa e da “bancada” de imprensa. É que os senhores deputados eram muito afobados e costumavam andar armados, até no Plenário. Quando fui morar na Avenida Comendador Leão, conheci Donizete Calheiros, um dos ícones do jornalismo da terra e pai de minha amiga Leige. Donizete usava muletas, pois tinha perdido uma perna, “lembrança” de quando os Góis Monteiros dominavam Alagoas e o tinham prendido e torturado. Fui percebendo, então, que a terra do Gogó da Ema (Um coqueiro torto que havia na praia de Ponta Verde e que parecia o gogó de uma ema. Naquela época era o cartão postal de Maceió, assim como o morro do Careca o é hoje de Natal) tinha um lado que não era assim tão risonho; um lado obscuro e não totalmente franco.

Mas eu era jovem e, portanto, dava pouca importância aos detalhes. Assim foi até o dia em que resolvi fazer uma reportagem sobre o jogo do bicho e me vi ameaçado pelos donos da jogatina. Nem o governador do Estado, agora já Muniz Falcão, tinha condições de garantir minha segurança. Seu conselho foi que eu saísse de Alagoas por uns tempos. Entretanto, por vias não convencionais, consegui revolver o imbróglio em que tinha me metido e voltei a enxergar somente as belezas da natureza e das mulheres alagoanas e a amizade de meus amigos.

Voltei para o meu Rio Grande, o do Norte, fui para o sul que eu pensava ser maravilha, andei por esse mundão de Deus e mais uma vez voltei para o meu Estado. Entretanto, sempre que possível, passo por Maceió ou telefono para um dos meus amigos alagoanos, pois lá passei alguns dos melhores anos da minha adolescência. Recentemente redescobri Carivaldo Brandão e é com ele que ultimamente tenho falado mais, por telefone. Agora sei que daqueles jornalistas todos só há três: o próprio Carivaldo, eu e Aldo Ivo, irmão do grande poeta Ledo Ivo, também jornalista, romancista, contista, cronista e ensaísta. Juste-se a isso a morte do próprio Jornal de Alagoas.

Entretanto uma figura é recorrente em minhas conversas com Carivaldo: Donizete Calheiros, um exemplo para todos nós daquela época, em que o jornalismo era uma profissão de idealistas e o exercício da honra uma constante. Na última conversa lhe perguntei: “O Renan Calheiros é parente do Donizete Calheiros?”. A resposta foi lacônica: “Acho que não. Só se o DNA foi trocado”.