Só havia um motivo

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 14 maio 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 13 maio 2007.

Domingo passado, dia 06 de maio de 2007, quase que eu entrei em loop, aquela manobra perigosa que a gente ver em shows de acrobacias aéreas, que consiste em fazer o avião realizar no ar vários círculos de cabeça para baixo, até quando o piloto o projeta novamente para cima. É uma coisa de doido. Não sei por que eles fazem isso. Pois bem, domingo passado girei, girei e quase enlouqueci procurando uma resposta para uma indagação que me veio, diante de um fato que mexeu com a vida da nação de forma significativa. Não, não foi o quebra-quebra que houve na Praça da Sé, em São Paulo ou a morte daquele político que nasceu no Acre, vivia no Rio e se elegeu deputado federal por São Paulo; o homem que queria ser presidente da República simplesmente fazendo-se conhecer pelo nome – seu nome era Enéas. Muito menos foram as viravoltas que a política do nosso Estado dá: José Agripino estará com Wilma ou com Garibaldi, nas próximas eleições? – é o grande enigma atualmente do Rio Grande do Norte.

Também não foram as diabruras do moribundo ditador cubano, falando mal do programa brasileiro do bio-combustível; do aprendiz de bruxo Hugo Chavéz, anunciando a estatização de uma empresa venezuelana, controlada pela brasileira CSN; as tentativas de expropriação de bens da Petrobras na Bolívia, feitas pelo presidente Evo Morales, um duble de indigenista e socialista, ou a eleição do novo Presidente francês.

Não foi nada disso, foi muita pior. Um país em que a taxa cambial indica uma perigosa supervalorização da moeda, os juros e os impostos são pornográficos, o analfabetismo persiste em índices altíssimos e só iguais a sonegação de fiscal; um país em que juízes assassinam a justiça, deputados e senadores trocam de partido na mesma rapidez com que se vendem, o presidente não sabe de nada e algumas cavalgaduras são autoridades, enfim, um país que pára para comemorar fatos irrelevantes, menores e até mesquinhos. A minha indagação era: o que há para se comemorar em um simples jogo de futebol? Qual é o valor da vitória do “Santos” sobre o “São Caetano” por 2 a 0, para se sagrar campeão paulista? Muito menos valor tem a vitória de 4 a 0 do “Atlético-MG” sobre o “Cruzeiro”, para se sagrar campeão mineiro, ou o “Grêmio” golear o “Caxias do Sul” por 4 a 1, para assegurar o bicampeonato. Alguém já ouviu falar no “Paranavaí”? Pois bem, esse time conquistou o campeonato paranaense, após um empate sem gols contra o “Paraná”. E daí? Tem mais. Na Bahia, o “Vitória” venceu o “Poções” por 2 a 1, e se sagrou campeão. Que time é esse, que nem é inteiro, é apenas algumas porções? O “Chapecoense” empatou por 2 a 2, com o “Criciúma”, e conquistou o título, em Santa Catarina, enquanto que, em Goiás, o “Atlético” local venceu o “Goiás”, por 2 a 1, e conquistou o Campeonato Goiano. Para terminar, no Ceará, o “Fortaleza” venceu o “Icasa” por 1 a 0 e levou o título Estadual.

Dá para entender? Um bando de pernas-de-pau, mais precisamente, vinte e dois pernas-de-pau de cabeças quadradas correndo atrás de uma bola, coadjuvados por três caras tocando apitos e assistidos por milhares de fanáticos, em espetáculos deprimentes, param o Brasil. Coitado desse nosso Brasil Varonil.

Só havia um motivo de comemoração no domingo passado: a vitória do Flamengo sobre o Botafogo por 4 a 2, e a conseqüente conquista do campeonato Estadual do Rio de Janeiro. Sim, porque o Flamengo é outra coisa. Ao vestir a mágica camisa rubro-negra, todo jogador se torna um craque. O Flamengo não é somente um time de futebol; é uma nação, uma religião, uma filosofia de vida. Um time cujo esquadrão já contou com Dequinha (que nasceu em Mossoró), Zico, Junior, Leandro, Dida, Domingos da Guia, Silvio Perilo, Zizinho, Leônidas da Silva, Andrade, Adílio, Fio Maravilha e até o ex-craque Romário, é campeão até quando perde e mesmo tendo uma diretoria sem a qualificação para dirigir coisa nenhuma.

Só foi 4 a 2 para não desqualificar o adversário, que merece respeito. Afinal de conta jogar contra o Flamengo já é construir um pedestal; perder é só uma conseqüência. O Flamengo não simplesmente joga; dá baile no Maracanã ou em qualquer lugar. As vitórias do Flamengo, essas sim, merecem ser comemoradas. Cada vez que o Flamengo ganhasse, deveria ser feriado nacional.

Se alguém não se conforma, “sorry periferia, stop e ademã, que eu vou em frente”. Uma vez Flamengo, sempre Flamengo…