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ECONOMIA

Tomislav R. Femenick
O QUE É VALOR
Capítulo 2, do livro Para aprender economia. 2a. ed., 6a. reimpressão. São Paulo, 2000.

1. O conceito de valor

O caminho para se aprender Economia começa em estradas bastante acidentadas, mas esse percurso pode ser facilitado, se se escolhe a trilha com menos obstáculos. Existe um problema, porém, para o qual não há contorno: as várias teorias de valor. Deve-se estudá-las para que se possa compreender a própria economia, pois, sem valor não existe nenhum modelo econômico, nenhuma teoria, lei ou qualquer outra coisa relacionada com as Ciências Econômicas. Deve-se, portanto, começar aprendendo o que é valor, um conceito que é expresso de formas diferentes, conforme as diferentes escolas de pensamento.

É bom destacar que uma das maiores e mais controvertidas formulações das Ciências Econômicas é, sem dúvida, aquela que explica a idéia do valor dos objetos. A discussão sobre essa matéria é tema de vários livros. É claro que aqui não se vai esgotar o assunto, mas apenas abordá-lo usando uma linguagem menos tecnicista possível.

2. Conceitos sobre valor

Conceitualmente valor é a relação comparativa que se faz de um objeto com outro. Nas teorias de valor esses objetos devem atender a algumas ou pelo menos a uma necessidade humana e não serem abundantes e ilimitadamente disponíveis. Somente assim eles adquirem a qualidade de objetos econômicos que se dividem em bens (estes os de natureza material) e serviços, muitas vezes simplesmente denominados bens.

Alguns pré-requisitos são aceitos, em nível maior ou menor, quando se discutem as várias correntes de pensamento econômico. Esses pontos, que se apresentam a seguir, necessariamente devem ser entendidos para que se possa compreender o mecanismo da formulação de construção das teorias de valor. O primeiro deles diz que as mercadorias para terem valor necessitam ter valor de uso e valor de troca – um deles ou ambos. E qual a diferença entre esses valores, aparentemente tão similares? O segundo estabelece que valor não é preço. Por último, deve-se entender o que é valor absoluto. A seguir são apresentados todos esses conceitos:

a) Valor de uso – É a característica qualitativa das mercadorias, pela qual elas devem atender a algum desejo ou necessidade humana, quer seja material quer seja social. Todas as coisas úteis, portanto, tais como roupa, alimento, carro, ensino, circo e tudo o mais que é objeto de desejo do ser humano têm valor de uso, pois as pessoas têm interesses em possuí-las ou usá-las. Se uma dada mercadoria não atender a esse requisito, conseqüentemente, não tem valor de uso. É o interesse que as pessoas têm por uma mercadoria que lhe atribui valor de uso.
b) Valor de troca – O valor de troca de uma determinada mercadoria é a relação quantitativa que um bem tem, quando comparado com outros bens. Se o valor de um determinado livro for igual a uma sessão de cinema, ou a dois lanches, ou a uma corrida de táxi ou a uma dúzia de lenços em uma promoção de loja, concluí-se que todos têm o mesmo valor de troca. No exemplo citado, pode-se dizer que o valor relativo do livro é igual a uma sessão de cinema, a dois lanches, a uma corrida de táxi e a 12 lenços.
c) Valor Absoluto – Outro pressuposto é o conceito sobre o valor absoluto, isto é, um atributo que bens e serviços adquirem nas sociedades que possuem um meio de troca padrão. Esse padrão pode ser uma mercadoria (sal ou ouro, por exemplo) ou mesmo a moeda circulante no país (o real, no Brasil), no bloco econômico a que o país pertença (o euro, nos países do União Européia) ou até a moeda de outro país (o dólar norte-americano, no caso da Argentina). O meio de troca padrão transforma-se no paradigma, o referencial de valor de troca de todas as outras mercadorias. Se o livro do exemplo anterior custar R$ 10,00, um lanche não custará meio livro, mais R$ 5,00; um lenço custará R$ 0,83 e não  do livro.
d) Valor não é preço – O valor de uma determinada mercadoria é proporcional à sua importância para a sociedade enquanto que o seu preço é o quanto ela vale em relação à mercadoria padrão (sal ou ouro) ou à moeda circulante na sociedade. Enquanto os preços são apenas a expressão monetária (numérica) dos bens e serviços, em determinado instante, o valor é uma medida de prazo mais longo.

3. As teorias sobre o valor

O problema fundamental nas questões que tratam do valor dos objetos é encontrar a sua essência. Aqui está o ponto central do combate teórico sobre o que seja valor, conflito este que acontece entre os teóricos do pensamento econômico desde o final do século XVIII ou quando a noção do valor começou a ser discutida cientificamente. Essa controvérsia parte do princípio axiológico da identidade implícita (próprio de) ou explícita (externa) do valor dos objetos e serviços; em outras palavras, se os bens e serviços têm ou não valor por si mesmos ou se esse valor lhes é atribuído.

Em economia, existem duas correntes principais de pensamento sobre o que seria valor: as teorias objetivas, iniciadas por Adam Smith e David Ricardo e, depois, cooptadas e desenvolvidas pelos pensadores socialistas, e as teorias subjetivas, originadas nas escolas marginalistas. A simbiose (associação) dessas duas concepções acabou por criar uma terceira compreensão sobre o assunto, as teorias “mistas”. Todas essas correntes estão melhor detalhadas a seguir:

a) Teorias objetivas – Partem da idéia de que a atividade econômica seria um resultado da divisão do trabalho, só acontecendo no âmbito da sociedade como um todo e não atribuindo importância às atitudes isoladas das pessoas, isto é, cada grupo de pessoas se dedicaria a realizar determinado tipo de atividade econômica, uns como agricultores, outros como comerciantes, outros como operários e assim por diante.
Essa teoria sofreu um processo evolutivo que se iniciou com a concepção de valor de Adam Smith, para quem o valor de um bem é decorrente do custo de remuneração do uso dos Fatores de Produção (Recursos da Natureza, do Trabalho e Capital). David Ricardo reduziu este custo ao pagamento dos Fatores Trabalho e Capital e Marx, para o Trabalho Socialmente Necessário. Essa abordagem socialista estabelece o princípio segundo o qual o valor das mercadorias e serviços é o “valor-trabalho” necessário para a sua obtenção, ou seja, o tempo e o trabalho que forem gastos por todos os indivíduos envolvidos no processo de elaborar esses bens. Exemplificando: o valor de uma roupa confeccionada com tecido de algodão seria o tempo do trabalho do agricultor que plantou e colheu o algodão, do transportador que o levou até à fábrica onde o algodão foi beneficiado, dos trabalhadores dessa fábrica (operários, técnicos, funcionários de escritório etc., mão de obra especializada ou não), do transportador que levou o algodão até à fábrica de fios e tecidos, dos trabalhadores dessa fábrica, do transportador que levou o tecido até à fábrica de roupa, dos seus trabalhadores etc., até dos empregados da loja que venderam a roupa. Não se deve esquecer dos envolvidos indiretamente em todas essas operações: os trabalhadores das fábricas de equipamentos agrícolas, de adubos e inseticidas; os publicitários; os funcionários públicos e outros mais. Assim, o valor surge no processo de produção. Todo valor advém do fato de se produzir e nenhum valor existiria fora do trabalho social. Além do mais, o valor de cada item seria algo fixo, intrínseco e imutável. Essas teorias tomam por base a oferta.
b) Teorias subjetivas – Essa corrente de pensadores parte de uma outra premissa: todo objeto ou serviço deve possuir uma utilidade, visando satisfazer um desejo ou uma necessidade humana, chegando-se a um princípio de “valor-utilidade”. Isto estabelecido, o valor é o resultado da escassez ou abundância dos bens e serviços e da soma das preferências que as pessoas têm por eles. Explicando melhor: o valor de uma roupa confeccionada com tecido de algodão está na sua utilidade, na quantidade disponível no mercado para venda e no número de pessoas que estão interessadas em comprá-la (pela sua qualidade, modelo etc.).
Alguns pensadores do século XVII já externavam o conceito de que o valor dos bens está na sua característica de atender às necessidades do homem. Dois séculos depois, o economista inglês Williams Jevons desenvolveu o modelo de uma das teorias subjetivas do valor que interliga o interesse que a sociedade tem pelo bem, a quantidade disponível no mercado e o seu valor. Por esse raciocínio, fatores externos são os atribuidores de valor aos objetos, podendo esse valor ser alterado para mais ou para menos, em decorrência da mudança do comportamento da oferta e da procura, ou seja, do comportamento do mercado. A ênfase dessas teorias está na procura.
c) Teorias “mistas” ou terceira abordagem – Muitos pensadores socialistas (dos vários matizes ideológicos) e marginalistas (liberais de vários graus) adotaram uma linha de pensamento que inclui tanto os conceitos das teorias objetivas como das teorias subjetivas do valor. Por essa linha de raciocínio, o valor de um bem ou serviço estaria na sua utilidade, na necessidade que as pessoas tivessem deles, no interesse que essas mesmas pessoas expressassem por eles e no custo social exigido para a sua produção.

4. Valor e realidade

A análise das três teorias evidencia um fato relevante. Partindo-se do custo social de produção ou do interesse da sociedade por uma determinada mercadoria (não importa qual a base) ela tem valores diferentes para cada grupo de pessoa, entretanto o preço desse bem é igual para todas as pessoas. Para os economistas que privilegiam o mercado como regulador dos preços, a explicação seria que o preço é o resultado do nivelamento entre o custo social de produção (oferta) e a satisfação que esse produto proporciona à sociedade (procura). Para àqueles que vêem no preço a expressão do valor-trabalho, a explicação seria que os produtores somente produzem se o preço cobrir a remuneração do esforço exigido para elaborar a mercadoria.

A questão fundamental seria, então, qual das correntes é a mais verdadeira e mais indicada para ser adotada? Aqui se depara uma condição da Ciência: As ciências, quaisquer que sejam elas, não devem comportar dogmas ou pontos indiscutíveis, senão deixam de ser ciências para se transformarem em ideologias. Não há um caminho, há vários. O melhor é aquele que melhor evidencia a realidade encontrada na sociedade, que melhor reflete essa realidade e que, ao mesmo tempo, é objeto e comprovação da teoria. Isso estabelecido, pode-se dizer que a terceira abordagem, por ser mais ampla e mais abrangente e, conseqüentemente, comportar mais elementos possíveis e, ainda, por ser mais flexível, tem sido a mais comprovada na realidade e em maior número de sociedades.



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