Rico não paga, pobre sim

Tomislav R. Femenick
Cazeta do Oeste. Mossoró, 09 dez. 207.
O Jornal de Hoje. Natal, 10 dez. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 14 dez. 2007.

Há uns cinco ou seis anos, eu participava de um seminário sobre educação que se realizava em São Paulo, quando fui indicado para integrar uma mesa redonda cujo tema era “Qualidade de ensino e desenvolvimento no Brasil”. Como lá estavam alguns luminares da matéria, acho que a minha indicação foi só para preencher vaga. Embora com títulos de mestre, com duas extensões, pós-graduado etc. e já tivesse algumas décadas de experiência como professor, não sou especialista no assunto; sou apenas um simples professor universitário. Estava preparado para aprender, pois ali estavam algumas sumidades, inclusive um deles se apresentava como entendido nas técnicas inovadoras de Paulo Freire.

Ledo engano. A mesa redonda foi apenas uma reprodução do que é normal acontecer em alguns certames da espécie: um palco cheio de atores que expressam suas vaidades. Um dos temas que deveria ser estudado foi “A Função Professor”. Para minha surpresa, aquele entendido em Paulo Freire advogou a ideia de que o professor é tão e simplesmente um profissional que vive de ensinar. Para isso era necessário apenas que transmitisse seus conhecimentos aos alunos. A eles (aos alunos) caberia a tarefa de aprender “inseridos em seus respectivos contextos sociais”. Quando alguém levantou a problemática da vocação, quase sacerdotal, de ensinar que seria inerente ao mestre, quase foi linchado. O pragmatismo social teria que ser o norte professoral. Levantei-me e fui embora.

A verdade é que essa esdrúxula teoria tem ditado o comportamento do ensino brasileiro nos último tempo, com resultado pífio. Vou mas longe: trazendo prejuízos incalculáveis para o futuro da nação. Nós que somos professores vemos que, de ano para ano, o nível de conhecimento e de capacidade dos estudantes está caindo assustadoramente. Antigamente era somente os alunos do primeiro grau os que não sabiam ler, agora são concluintes do segundo grau e até universitários que não sabem ler e nem escrever, muito embora o número de escolas, faculdades e até de universidades tenha crescido razoavelmente. Cada nova turma de alunos que entra no ensino superior vem com um grau de instrução cada vez mais interior. Sabem ler palavras mais não sabem escreve-las; leem palavras mas não entendem o significado das frases.

O ensino, principalmente o publico, se tornou uma balela onde os burocratas imperam. Criaram fórmula para quase tudo, padronizaram tudo, mas se esqueceram que a principal função das escolas, de qualquer nível, é ensinar. Já que estamos falando de ensino público vamos evidenciar sua maior distorção: enquanto o governo joga as escolas do primeiro e segundo graus às baratas, aplica seus (nossos) recursos no ensino universitário. Por que isso é uma distorção? Simples. As pessoas que mais precisam das escolas publicas de primeiro e segundo graus são as que ganham menos e a elas é que se deveria voltar a maior soma de recursos. Enquanto isso é nas universidades publicas que estudam (sem nada pagar) os filhos dos ricos e da classe média alta, justamente aqueles que poderiam pagar pelos seus estudos. E onde estudam os que são da classe média média e baixa? Nas faculdades particulares. E por que isso? Porque os que puderam pagar por um bom colégio particular de primeiro e segundo graus são os melhores colocados nos vestibulares das universidades do governo, aquelas que têm o melhor ensino do terceiro grau.

A verdade é que caímos em uma armadilha. Os pobres pagam e os ricos não pagam nada pelo estudo universitário. Como a grande massa dos brasileiros é formada por não ricos (o Brasil é um dos países que têm a maior concentração de rendo do mundo), o grande número de estudantes universitários está nas unidades particulares. Esse mesmo cenário se estende pelos cursos de pós-graduados, MBA, mestrados.

O RESULTADO

O resultado disso não poderia ser pior. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) a cada três anos realiza o Programa de Avaliação Internacional de Estudantes. O último deles, realizado no ano passado, evidenciou que os nossos alunos pioram seu desempenho em leitura, mas melhoraram em matemática. O Brasil ficou apenas na 54ª posição, em uma amostragem que contava com um total de 57 países, isso é, estamos entre os piores do mundo.

POLÍTICA

E o Senado, hem? Perdeu uma ótima oportunidade de se recuperar perante a opinião publica. Absorver Renan, só com muita desfaçatez, com muito desrespeito à ética, à honestidade e ao povo. Diziam antigamente o Senado era o céu para os políticos: muita mordomia, pouco trabalho e muita verba. Agora acho que é um campo minado, com arapucas por todos os lados, com tocaias e trabucos a cata de senadores honestos.

BATISTA

Ainda estou procurando me acostumar com o fato de que o meu amigo Maestro Batista morreu. O homem do sax, do clarinete e do pistom ainda está “vivinho da silva” em minhas recordações da ACDP, do Club Ipiranga e da Snob. Um dia, quando a poeira assentar, escreverei uma crônica sobre meu amigo.

PADRE MOTA

Está praticamente esgotada a primeira edição de Padre Mota, o meu último livro. Os exemplares que restam estão nas livrarias e não há mais para fazer a reposição. Isso se deve a grande importância que o biografado teve para a história de Mossoró e para a história do Rio Grande do Norte. Prova disso é que foram vendidos mais exemplares em Natal que em Mossoró.

OUTRAS FIGURAS

Muitas outras figuras de Mossoró estão a merecer uma biografia seria, não laudatória, sem citar apenas “causos” e fatos pitorescos. Não nos esquecemos que a história se faz com fatos e personagens. Sem que conheçamos esses homens e essas mulheres, não há como sedimentar a figura mitológica do “país de Mossoró”, tão querida por Vingt-un Rosado.

POLÍCIA

O noticiário policial de Mossoró e da zona Oeste mostra como a violência se institucionalizou em nosso Estado, certamente como decorrência do que acontece no país. Mortes e tráfico de droga estão em todas as edições dos jornais da cidade. Os jornais estão fazendo seu papel em noticiá-los. E a policia tem feito o seu em evitá-los?