REMÉDIO PARA CRISES

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 12 out. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 11 out. 2008.

Em nosso país há um cacoete que acontece nos governos, quer eles sejam de direita, centro ou esquerda. Sempre que se tenta apontar alguma coisa que não agrade aos senhores do poder da vez, eles acusam esses destemidos de serem derrotistas e de torcerem para que as coisas não dêem certo. Aqui, o governo não aceita que haja discordantes de sua opinião. Lembram-se do lema do governo militar: “Brasil, ame-o ou deixo-o”? No tempo de Sarney eram taxados de saudosistas. “Arautos da sinistrose” foi uma frase cunhada no período de FHC que – como muitas outras coisas – tem sido copiada no reinado de Dom Lula.

No começo da presente crise financeira (que começou nos Estados Unidos e, ligeirinho, se globalizou), alguém que falasse que seus reflexos atingiriam a economia nacional era tratado como criminoso de lesa pátria, iconoclasta varrido. Agora já não há mais como fugir da realidade; fomos atingidos pelo furacão financeiro, causado pela desenfreada especulação dos homens da Wall Street e seus agregados. E por que a crise não pára, mesmo com os planos de mais de um trilhão de dólares anunciados pelo governo americano, da Europa, da Ásia, do Brasil e da Austrália? Simplesmente porque no mundo todo – não somente nos Estados Unidos – as operações de alavancagem financeiras de muitas empresas estavam alicerçadas em garantias voláteis e inconsistentes.

Além do mais, lá na origem do imbróglio, o leme está nas mãos de um timoneiro fraco, desacreditado e prestes a se aposentar. Ora, essa falta de liderança na economia mais poderosa do planeta deixa a todos nós ao sabor das correntezas, no mar das incertezas. E ainda há muito a ser descoberto sobre as causas da crise atual, enquanto o mundo está fazendo uma faxina necessária e urgente, expurgando do mercado a criatividade exagerada de produtos financeiros não sólidos, como aconteceu em 2002, quando se viveu um processo de limpeza, deflagrado pela crise da Enron.

Todavia, de imediato o que nos interessa é acompanhar como a economia brasileira está sendo atingida. Afora a já tão divulgada falta de financiamento às exportações e, também, às atividades internas de produção e comercialização da produção, outros sintomas indicam que os estragos já começaram a se fazer presentes por aqui. Tomemos a Bovespa como exemplo. De janeiro a setembro ela apresenta rentabilidade negativa acumulada de 22,45%. Além do mais, se no mês passado saíram da bolsa paulista R$ 1,814 bilhão de capital estrangeiro, no acumulado do ano esse saldo negativo chegou a R$ 18,349 bilhões. Eram recursos que estavam financiando o nosso mercado de capitais e impulsionado as empresas brasileiras. Esse refluxo de capitais foi uma das causas da desvalorização da Petrobrás, cuja perda de valor de mercado supera a espantosa casa de US$ 115 bilhões. De maio passado para outubro presente, o Ibovespa contraiu-se em mais de R$ 1 trilhão; quase a metade do nosso PIB em 2007.

Por sua vez, a indústria automobilística (que tem peso decisivo na taxa de crescimento da indústria brasileira como um todo, pelo seu efeito multiplicador em outras áreas), além de sentir queda no ritmo de crescimento do mercado interno, registrou em setembro um declínio nas exportações em mais de 7,0%, em relação a agosto. Como resultado, a Fiat e a General Motors anunciaram férias nas suas fábricas, tentando reduzir estoques não desovados. Visando ajudar as empresas a fazer a travessia da crise, o governo federal já injetou mais de R$ 75,28 bilhões na economia, quantia que certamente será acrescida por outras medidas com o mesmo fim.

Muito embora as empresas do sistema bancário brasileiro estejam se mostrando firmes e não sinistramente atingidas pela crise, os bancos menores poderiam ser vítimas da ganância dos bancos maiores, nas negociações de redesconto interbancário. Para contornar essa situação, o Banco Central foi autorizado a realizar operações especiais de redesconto ou de operações de empréstimos em moeda estrangeira. Esse é um forte socorro, pois se houver prejuízo ele será totalmente repassado ao Tesouro Nacional.

Na verdade o que estamos vivendo nos Estados Unidos e no Brasil são edições modificadas do Proer, o “Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional”, lançado em 1995, no primeiro mandato de Fernando Henrique. A diferença do plano norte-americano para o plano de FHC é que, enquanto aquele é um socorro emergencial em uma economia articulada, o nosso projeto era uma ação com vista a estabilizar uma econômica desarticulada e por fim a hiperinflação. O Proer de Lula (quem diria!!!) veio pela Medida Provisória 442, editada no dia 6 passado. E veio muito bem e oportunamente. O que o diferencia do original, de Fernando Henrique, é que o atual é preventivo, ou seja, estabelece regras para evite que alguns pequenos bancos quebrem, enquanto o primeiro foi adotado quando alguns bancos, inclusive grandes bancos (Nacional, Bamerindus, Econômico etc.) já estavam quebrados.

Não importa onde ou quando, parece que para crises financeiras o remédio é Proer.