RECUPERAÇÃO DOS TERMOS DE TROCA

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 17 abr. 2011.
Gazeta do Oeste
. Mossoró, 15 abr. 2011.

Durante os anos cinquenta e sessenta do século passado, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) – órgão criado pela ONU em 1948 e com sede em Santiago do Chile – ditou o pensamento econômico da América Latina, tendo como principais formuladores de opinião o argentino Raúl Prebisch, o brasileiro Celso Furtado, o uruguaio Enrique Iglesias, o mexicano Gustavo Martínez Cabañas e outros mais.

Um dos pilares da concepção cepalina era a teoria das relações centro-periferia; o primeiro compreendido o conjunto dos países desenvolvidos, chamados países centrais, e o segundo os países subdesenvolvidos, chamados de países periféricos. A outra base teórica era o conceito da deterioração dos termos de troca. A junção dessas duas linhas de representação teórica tentava explicar o atraso de certas regiões como resultado do rápido aumento dos preços dos produtos industriais, que acontecia nos países centrais e desenvolvidos, e a lenta valorização dos produtos primários (entenda-se como matéria-prima) oriundos das nações subdesenvolvidas. Em outras palavras, com o passar do tempo o então chamado terceiro mundo precisava exportar cada vez mais, para poder importar a mesma quantidade de mercadorias originadas do mundo industrializado. Assim, o desenvolvimento capitalista beneficiaria mais os países centrais que os periféricos.

O lapso dessa ideia era evidente, pois enquanto os pensadores da Cepal (pertencentes as mais variadas correntes esquerdistas) se atavam ao principio da dominação dos países centrais e não consideraram um dos fundamentos do capitalismo moderno: a lei da oferta e da procura. Tanto os produtos primários como os bens industrializados são comercializados em dois mercados que são regidos pela lei da procura e da oferta, uma das chamadas leis econômicas (leis positivas e não normativas, como as leis jurídicas e morais), que simplesmente descrevem o comportamento do mercado; que diz o que acontece e não estabelece o que deve acontecer.

Mesmo assim, as leis das ciências econômicas necessitam de alguns elementos para serem consideradas como tal. No caso das relações econômicas internacionais, tem-se que analisar vários elementos que interferem no comportamento da procura e da oferta, principalmente duas variáveis: o volume demandado e a disponibilidade existente dos produtos, naturais ou manufaturados.

Vejamos alguns exemplos. Quando o Brasil dominava absoluto o mercado mundial do café, atraiu o interesse de outras nações que passaram a plantar e vende-lo por preços menores, até se firmarem no espaço internacional. Atualmente o café colombiano é mais disputado e, consequentemente, mais caro que o nosso, porém em um patamar de preço inferior ao que era o nosso antigamente. Com o açúcar há um vai e vem histórico: Brasil e Cuba se alternam em qualidade e preço. Com o suco de laranja aconteceu o inverso do café, hoje o nosso é melhor e mais caro do que o da Florida.

Quanto à relação atual dos preços das matérias-primas comparados aos preços dos produtos industrializados, o cenário global está favorecendo os produtos primários e continua com fortes indicativos de desvalorização dos produtos industriais, principalmente os de alta tecnologia. O resultado é que, ao contrario de depreciação, temos hoje em dia uma escala dos termos de troca, em que os países fornecedores de matérias-primas estão levando vantagem. E não há, em futuro próximo, nenhuma tendência de alteração nesse comportamento do mercado, pois o mundo está ávido por mais minérios, soja, carnes, trigo, algodão, celulose e outros itens que se convencionou chamar de commodities. Essas mercadorias alimentam as fornalhas e as linhas de produção das empresas manufatureiras localizadas nos Estados Unidos e Europa, porém muito mais no resto do mundo – China, Índia, Japão, Singapura, Rússia, México, Argentina, Coreia, África do Sul e outros países que apresentam taxas de crescimento maiores que as economias desenvolvidas, até porque estas estão atreladas à crise econômica americana. Aqui temos um outro componente a ser considerado: espera-se que a recuperação das economias norte americana e europeia (que já desponta no horizonte) venha aumentar ainda mais a procura por produtos primários, elevando seus preços e favorecendo os países fornecedores.

Embora haja uma parcela significativa de brasileiros que ainda pensa à moda antiga, tenha saudade da guerra fria e se preocupe com o imperialismo, a realidade se apresenta totalmente inversa àquelas ideias da Cepal. Por outro lado, o Brasil se desenvolveu, cresceu e está entre as dez, doze ou quinze maiores economias do mundo, dependendo das bases com que sejam elaboradas as análises. E, se não somos “centro”, também já não somos tão “periferia” assim.