Realismo Fantástico

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 10 set. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 13 set. 2006.
Metropolitano. Parnamirim, 14 set, 2007.

Há quarenta anos foi lançado o livro “Cem anos de solidão”, um marco na literatura latino-americana e do estilo conhecido como realismo fantástico, realismo da maravilha ou realismo mágico, que deu ao seu autor, Gabriel Garcia Marques, o Prêmio Nobel de literatura de 1982. Os precursores de tal estilo foram o venezuelano Arturo Uslar Pietri, que em 1931 lançou “As lanças coloradas”; o cubano Alejo Carpentier, que em 1948 publicou “O reino deste mundo”, que tem como cenário a corte de Jaen-Jacques Dessalines, o primeiro imperador negro do Haiti; Julio Cortázar, escritor argentino nascido na Bélgica, que publicou o “Bestiário”, em 1951, e “O jogo da amarelinha” (Rayuela, no original), em 1963; o mexicano Juan Rulfo, autor de “A planície em chamas”, de 1953, e “Pedro Páramo”, de 1955, além do argentino Jorge Luiz Borges, nesse campo um “hour concur”.

Entre os brasileiros temos Mário de Andrade, com Macunaíma, editado em 1928; Murilo Rubião, que publicou “O ex-mágico”, em 1947, e, em 1953, “A estrela vermelha”; Jorge Amado, principalmente por “Dona Flor e seus dois maridos”; Ariano Suassuna, com “A pedra do reino”, publicado em 1971; Dalton Trevisan, com toda sua obra, e, em certo sentido, Guimarães Rosa. Não podemos nos esquecer do nosso Nei Leandro de Castro, com o seu “As pelejas de Ojuara”, e outros. Entretanto, Dias Gomes – tanto em sua obra literária como nos textos produzidos para a televisão, como “O bem amado”, “Roque Santeiro”, “O pagador de promessas” e “Saramandaia” – talvez seja o brasileiro mais representativo do realismo fantástico.

Esse é um estilo que funde a realidade com a fantasia. O termo foi citado pela primeira vez em 1920, pelo critico alemão Franz Roh, para identificar uma corrente do pós-modernismo, um movimento artístico que, em sua origem, se caracterizava pelo afastamento do concreto, pela narrativa singela, aproximação da cultura elitista com a cultura popular e, ainda, por adotar a complexidade, a contradição, a ironia, a mistura de estilos e de gêneros. Além de tudo isso, o realismo fantástico adota uma grande riqueza sensorial, toma o absurdo como linha de ação, despreza a lógica, destorce o tempo, faz a inversão de causa e efeito, incorpora lendas aos eventos presentes e, finalmente, deixa o leitor livre para interpretar a narrativa.

Se analisarmos o dia-a-dia dos brasileiros, chegamos à conclusão que a realidade nacional é tão simulada como qualquer obra ficcional do realismo fantástico. Dias Gomes dizia que este é um país que desmoraliza qualquer absurdo. Eu acho que é verdade. Aqui há mais morte por assassinatos que no Iraque, onde há uma guerra civil declarada; há mais acidentes e mortes de trânsito que nos Estados Unidos, país que possui a maior frota do mundo; o presidente do Senado é acusado de fraudes, peculato e outras falcatruas e insiste em permanecer no cargo (se no Japão fossem, as acusações que existem contra Renan seriam suficiente para que ele cometesse haraquiri); o STF acusa 40 membros da alta cúpula do governo federal – seus colaboradores diretos e pessoas ligadas à alta direção do seu partido – por formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro e outros crimes de somenos importância e o chefe de tudo continua com altas taxas de popularidade.

No mundo da política, cuecas e malas são tidas como meios normais de transporte de dólares e reais; fazer acordo com inimigos de ontem e romper com aliados antigos não é mais desfaçatez e impudor… é apenas “habilidade” e “estratégia” para se manter ou chegar ao poder. Alias, no realismo brasileiro nada é mais importante que o poder. Para lá chegar ou ficar se faz de tudo: acho até que alguns são capazes de vender a mãe e usar capacete de viquingues. E o povo continua votando neles. Em um governo de trabalhadores, os bancos têm os maiores lucros da história.

Mas não só os políticos fazem o nosso realismo ser fantástico. Nenhum povo faz questão de, despudoradamente, expor a nudez de suas mulheres. Aqui o fazemos aberta e escandalosamente. E não é só no carnaval. Não. É o ano todo. Por mas que se diga que estamos combatendo o turismo sexual, os prospectos que são distribuídos no exterior ainda são ilustrados com bunda e peitos de mulatas. Todos nós ficamos orgulhosos quando fraudamos o fisco, quando burlamos uma lei de trânsito, quando colamos na escola, quando levamos a melhor em uma discussão, banal que seja, mesmo que para isso tenhamos que usar de argumentos duvidosos. O realismo da maravilha atinge até o reino dos esportes. Depois do Pan, houve gente que ficou acreditando que o Brasil era uma grande potência esportiva, assim como acreditaram que Rubens Barriquelo seria o herdeiro de Senna.

No reino do fantástico, todo torcedor acha que os jogadores do seu time são gentleman e não cometem falta alguma, que seu time só perde quando o juiz rouba. Alguns acreditam até nos cartolas – do seu time, é claro. Tudo isso é falso, menos no Flamengo. Lá, ruim só os cartolas.