Real forte, Turismo fraco

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 17 jun. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 10 jun. 2007.

Desde o início do ano o dólar americano sofreu desvalorização perante o real, em algo que já beira 9%. Para os desavisados isso é “prova do vigor da economia brasileira”. Entretanto, para os empresários representa perda de poder de concorrência dos produtos “made in Brazil” e, consequentemente redução de venda de nossos produtos no mercado internacional; para os trabalhadores perda de emprego. Por outro lado, as importações ocorridas em maio desde ano sofreram uma alta de mais de 36%.

Então qual é o motivo dos seguidos recordes das nossas exportações? Duas são as causas. A indústria nacional, não encontrando mercado interno, pelo achatamento do poder de compra as classe média, volta-se para o mercado externo, mesmo que lá fora tenha de vender ganhando menos. Depois, há que se levar em conta que a economia internacional vem registrando uma forte procura por produtos primários, os chamados “commodities”, tais como café, milho, soja, minério de ferro, carnes bovinas, suína e de frango, todos com baixo valor agregado, ou seja, mercadorias cuja composição de valor possui poucos salários e lucro por unidade, além de ser uma cadeia produtiva que quase não cria atividades paralelas. Esse tipo de exportação atualmente é incentivado pela conjuntura internacional – e não pela realidade interna – em decorrência do bom momento econômico vivido pelos países que vêm registrando crescimento acelerado: China, Rússia, Índia, União Europeia, Estados Unidos, México, Argentina e outros. O Brasil está com seu crescimento praticamente imobilizado; por anos seguidos cresce pouco mais de 2% ao ano.

O Rio Grande do Norte, entretanto, é a grande vitima desse sistema. Já contabiliza a extinção de cerca de mil postos de trabalho na indústria têxtil e doze mil na carcinicultura. Para completar, agora o setor de turismo receptivo – o que gera emprego e lucros aqui – já prever uma queda de 30% da taxa de ocupação dos hotéis (antes calculada em 12%), no período da alta estação de julho próximo. Para o Estado virão menos turistas estrangeiros, pois eles teriam que gastar mais dólares e euros vindo para cá do que indo para outros pontos turísticos, tais como o Caribe, o sudeste asiático etc. Haverá, também, menos turistas do sul do país, pois eles gastarão menos reais indo para Buenos Aires, Mar del Plata, Bariloche, Montevidéu, Punta del Leste, região dos lagos andinos etc. Para os brasileiros, fazer turismo na Europa e nos Estados Unidos custa quase a mesma coisa que vir para o Nordeste. Assim, a estrutura da economia nacional está criando desemprego no Brasil e criando emprego na Argentina, no Uruguai, na Europa, em Orlando, Nova Iorque.

E qual a causa de tudo isso? Simplesmente a cilada em que as autoridades monetárias do país caíram, por causas que para elas mesmas criaram. Antes de assumir o poder, o PT propagava que quando lá chegasse iria romper com o FMI, faria uma auditoria nas contas externas e que não pagaria o que achasse de errado. Como para os expoentes petistas tudo estava errado, então seria possível que eles não pagassem nada. Isso foi no fim do governo Fernando Henrique, quando se configurou a possibilidade de Lula vencer as eleições. Resultado: o dólar disparou e chegou em torno R$ 4,00. Depois que assumiu o poder, “o dito ficou pelo não dito” e as autoridades do novo governo tiverem que apagar o incêndio provocado por eles mesmos. Elevaram a taxa de juros às alturas e mantiveram o câmbio flutuante, numa tentativa de parar a saída das reservas de moedas fortes. Isso é, aplicaram a mais conservadora das políticas monetárias, fato de dar inveja até em Milton Friedman, o papa do liberalismo econômico.

Os juros altos inibiram os investimentos dos empresários e o consumo da população, vez que o financiamento de maquinas, equipamentos e imóveis etc. ficou mais caro e a compra de bens de consumo pela população, também. Mas o governo conseguiu estancar a sangria de dólares, euros e ienes e até atraiu novas aplicações financeiras e, depois de visto que o “bicho não era brabo”, novos investimentos em ativo fixo.

O problema é que, em um regime de câmbio flutuante, o Banco Central deve ficar totalmente fora do mercado de moedas estrangeiras, movendo a taxa de juros de acordo com sua política monetária, fazendo o controle da inflação e a preservação do nível da atividade econômica. No Brasil tem ocorrido o que se chama de “flutuação suja”. O Banco Central intervém no mercado comprando ou vendendo dólares, tanto com a utilização de suas reservas internacionais como operando no mercado de futuros. Isso decorre daquela cilada: quanto maior a instabilidade e a possibilidade de substituição de ativos internos por outros externos, menos estável é a política cambial. Isto torna excessiva a valorização da moeda nacional e a taxa básica dos juros. Resultado: estamos num beco aparentemente sem saída.

Fui aluno de Guido Mantega, o Ministro da Fazenda, e sei que ele sabe como resolver o problema. No entanto, é necessário que se façam as tão propagadas reformas, das quais o PT era contra e agora quer fazer, mas os mensaleiro, sanguessugas e navalhados emperrar. Reformas que reduzam os gastos públicos (inclusive os da Previdência Social), desburocratize as relações trabalhistas e faça da política uma coisa séria.

MILHÕES AO RELENTO

No dia 27 de maio de 1967, portanto há 40 anos, publique a seguinte matéria no Diário de Natal: “Cem milhões de cruzeiros velhos dormem ao relento nos pátios da Estrada de Ferro Mossoró-Souza. Cerca de 10 vagões e locomotivas antigos estão “aposentados”, por já não mais oferecem condições de segurança de tráfego. É um verdadeiro cemitério de máquinas. Máquinas que em outras épocas já transportaram o progresso, levando até pontos de embarques a produção agrícola, pastoril e industrial da zona oeste do Estado e que levaram suprimentos para as cidades localizadas ao longo do leito da estrada de ferro, que é um verdadeiro elo de integração regional. Vagões de primeira e segunda classe, sempre cheios de gente, de choro de crianças, de malas e embrulhos de passageiros.

As máquinas também se cansam. Locomotivas que puxavam filas de muitos vagões e possuíam um resfolegar que envaideciam seus maquinistas, estão, hoje, superadas, arruinadas e amontoadas a um canto de muro. São ferros-velhos. Só não foram vendidas ainda porque a burocracia para isso é grande. A decisão depende de autorização da diretoria da Rede Ferroviária do Nordeste, localizada em Recife. Se não, os metais das locomotivas e vagões já teriam sido refundidos e transformados em outros objetos. A maioria dos vagões e máquinas que esperam, nos depósitos da Estrada Ferro, a hora de serem vendidos, são de 1916. No entanto, a máquina pioneira, a “Número Um”, que fez a primeira viagem, a inaugural, da antiga Estrada de Ferro Mossoró-Porto Franco ainda está de pé. Retirada de tráfego há algum tempo, ela ainda tem condições de “andar com suas próprias rodas” e com as parcas forças de suas engrenagens”.

A retirada dos trilhos da Estrada de Ferro Mossoró-Souza (e da Mossoró-Porto Franco, sua incorporada) foi um dos maiores crimes contra a economia do Oeste Potiguar, do Estado e do Nordeste. A matéria foi republicada no jornal O Povo, de Fortaleza,em 03 de novembro do mesmo ano.