QUIXOTADAS DO COMANDANTE

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 24 fev. 2008.

Somente para matar a saudade dos nostálgicos do socialismo, vou iniciar essa minha escrita de hoje com uma citação do velho Marx: “Dom Quixote já pagou pelo erro de presumir que a cavalaria andante seria compatível com todas as formas econômicas da sociedade”. Para evitar dúvidas, ver “O Capital”, Livro I, Volume 1, Abril Cultural, 1983, p. 77.

No século XX, ninguém mais lutou contra moinhos de vento que Fidel Castro. Ele surgiu no cenário internacional em 1948, não em Cuba, mas na Colômbia, quando participou dos protestes nas ruas de Bogotá, a capital, pelo assassinato de Jorge Eliécer Gaitan, líder da ala progressista do Partido Liberal e fundador da União de Esquerda Revolucionária, que combatia os interesses dos poderosos e defendia os trabalhadores e a classe média. Cinco anos depois, em 1953, Fidel foi novamente notícia. Foi preso e condenado em Cuba, sua terra natal, como integrante da tentativa de tomada do Quartel Moncada, na sua primeira participação do movimento pela derrubada da ditadura de Fulgencio Batista. A sua defesa, escrita por ele mesmo e sustentada em um documento intitulado “A história me absolverá”, não demonstrava nenhum traço de esquerdismo, socialismo ou marxismo, mas sim de um liberal que lutava pela democracia, com eleições e imprensa livres.

Fidel Castro cativava a todos os que tinham conhecimento de sua luta, a luta pelo estabelecemento de um regime plenamente democrático em Cuba. Todos os que tinham respeito pela liberdade estavam ao seu lado. Além do mais, ele lutava contra a dominação da ilha pela Máfia americana, que fazia dela um grande cassino e bordel, campo de diversão dos endinheirados do mundo. Por outro lado, o agronegócio do país era controlado pelas grandes corporações açucareiras do “irmão do norte”. Nesse cenário, Fulgencio Batista era apenas um títere, que representa os interesses desses capitais escusos. Não havia como não admirar Fidel.

A luta revolucionária começou sua vitória no verão de 1958, quando Fidel se estabeleceu em Sierra Mestra, seu irmão Raul em Sierra Del Cristal e Che Guevara e Camilo Cienfuegos nas montanhas de Escambray. No dia primeiro de janeiro de 1959 Guevara e Cienfuegos ocuparam Havana. Fidel chegou à capital oito dias depois, formou um governo integrado por lideres de todas as correntes que se opunham ao ditador deposto. Assumiu o poder como nacionalista, liberal e social-democrata. O historiador comunista inglês Eric Hobsbawn afirma que “nem Fidel Castro, nem qualquer de seus camaradas eram comunistas […] e o Partido Comunista Cubano era notadamente não simpático a Fidel”. Foi só em dezembro de 1961 que ele se proclamou marxista-leninista e impôs o caráter socialista à revolução que o tinha como comandante.

E como foi tratada a economia cubana? Em 1960, Castro reuniu os seus comandantes e estava distribuindo os cargos de ministros do seu governo. Quem era advogado, era nomeado ministro da justiça; agrônomo, ministro da agricultura; médico, ministro da saúde, e assim por diante. Em determinada altura ele perguntou: quem é economista? Che respondeu: “eu”. Fidel o nomeou presidente do Banco Nacional e do Banco Centro cubanos, cargos que no Brasil equivaleriam ao de Ministro da Fazenda. O detalhe é que Guevara respondeu “eu” porque teria ouvido “comunista” e não “economista”. Como era de se esperar, Guevara rompeu com o FMI e se recusou a pagar a dívida externa cubana, que girava em torno de 50 milhões de dólares. Entretanto esse ato não foi uma bravata pura, pois por trás dele havia 375 milhões de dólares, tomados de empréstimos junto à União Soviética, China e países do leste europeu.

Mas, o mundo real dá muitas voltas. Trinta e três anos depois, em setembro de 1993, o mundo comunista já havia desmoronado, Guevara já havia morrido há quase 26 anos e as exportações cubanas em dez anos despencaram de 5,4 bilhões para apenas 2,1 bilhões de dólares. As novas autoridades monetárias nomeadas por Fidel não tiveram outro caminho: o Banco Central cubano pediu assistência a ninguém menos do que ao FMI. O relatório preparado por Jacques de Goote, economista do Fundo e especialista em países ex-comunistas, foi considerado ideal pelos técnicos cubanos, para o estado de coma econômico em que vivia a ilha. Ainda hoje Cuba aplica o Plano recomendado pela missão do FMI, com receitas clássicas que incluem: a eliminação dos subsídios às empresas estatais (que passaram a funcionar com critérios capitalistas de lucro e prejuízo), abertura para a iniciativa privada (inclusive nos setores industriais e agropecuários), liberalização do emprego e do trabalho individual, flexibilização para os investimentos estrangeiros e restrição de gastos sociais.

Qual a lição que se tira quando Fidel, quixotescamente, anuncia sua renúncia, legando o comendo do país para seu irmão Raul? Marx estava certo. Somente a ideologia não impulsiona a economia e não produz pão. O povo cubano paga caro pela sua experiência socialista. Talvez seja por isso que a maioria dele prefere comer o pão do capitalismo, em Miami.