QUEM TEM MEDO DO PEQUENO-BURGUÊS?

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 22 jul. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 22 jul. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 27 jul. 2007.

A base do sucesso do capitalismo moderno é o consumo em larga escala. Para que isso aconteça é necessário que exista um grande número de pessoas com poder aquisitivo para comprar os produtos que jorram das fábricas, das fazendas e das empresas prestadoras de serviços. Esse segredo de polichinelo é verdade até para os países em desenvolvimento, como o nosso. Quanto mais desenvolvido é um país, maior é o padrão de consumo da classe média, dos operários e dos trabalhadores do campo. Ora, se por aqui os milionários são escassos e os operários e trabalhadores dos estabelecimentos rurais ganham pouco, a grande massa de consumidores é formada pela classe média.

O que chama a atenção – quando prestamos atenção – é o imenso grau de desprezo que a intelectualidade e os quadros dos partidos de esquerda devotam à classe média, muito embora ela seja a fonte de onde eles, em sua grande maioria, são oriundos. Chamam-na somente de “pequena-burguesia”, dando à expressão um sentido pejorativo. Nem Marx e Engels escaparam desse trejeito. No “Manifesto Comunista”, quando eles comentavam o capitalismo ainda na sua fase inicial, diziam que “forma-se uma nova classe de pequeno-burgueses, que oscila entre o proletariado e a burguesia […]. Mas os indivíduos que a compõem […] sentem aproximar-se o momento em que desaparecerão completamente como fração independente da sociedade moderna”. Lênin foi impiedoso com a classe média. Em “Que fazer?”, dizia ele que “o pequeno burguês vê e constata que sucumbe; que a vida se torna cada vez mais difícil; que a luta pela existência […] de sua família se torna mais desesperante a cada dia que passa. Porém, como protesta? Protesta como representante de uma classe […] submissa e covarde”.

Já os intelectuais afinados com o ideário esquerdista veem a classe média de forma estereotipada, com desprezo e até com zombaria. O grande Máximo Gorki, escritor russo, em sua peça “Os pequenos burgueses”, criou um ambiente mesquinho, onde seus personagens se revelam impotentes para vencer as barreiras desse meio. A peça retrata o conflito de uma família de comerciantes, onde o único a se destacar é um filho adotivo, operário, que é uma espécie de herói da peça. Por sua vez o dramaturgo alemão Bertolt Brecht, em seu “O casamento do pequeno burguês”, retrata uma festa de casamento de uma noiva que já está no quinto mês de gravidez. Sem dinheiro, o noivo construiu os móveis em seus períodos de folga. Feitos com material barato, eles vão se quebrando no decorrer da peça, simbolizando o desmoronando da aparência de um casamento feliz. Todo ambiente da peça é sórdido, representando o que seria o ambiente natural do pequeno-burguês, da classe média.

E por que hoje estamos falando tanto em pequeno-burguês e classe média? Simplesmente para dizer que, nos últimos dez anos, a classe média brasileira não está se beneficiando do desenvolvimento nacional. Enquanto entre 1996 e 2006 o nosso PIB cresceu 30%, a fatia da classe media na população total do país subiu somente 5%. O quadro fica mais complicado quando se compara o nosso crescimento econômico e o crescimento da classe média do Brasil com outras economias emergentes do mundo: o México cresceu 50%, mas a sua classe média cresceu 126%; na Índia o PIB cresceu 100%, enquanto a classe média cresceu 225; na Rússia o PIB subiu 55%, porém a classe média aumentou em 278%, e, finalmente, a China teve o seu PIB aumentado em 160%, enquanto a classe média aumentou em 1.100%.

Estima-se que o Brasil tenha pouco mais ou menos que 10,4 milhões de famílias de classe média, que representaria cerca de 37,8 milhões de pessoas. A renda familiar per capita desse segmento social oscila entre 1,7 (R$ 646,00) e 19,4 salários mínimos (R$ 7.372,00), porém o pequeno-burguês verde-amarelo paga 70% de toda a soma de IPTU e IPVA do país e, ainda, 60% de todo o Imposto de Renda de Pessoa Física.

Ora, se a renda dos mais ricos não diminuiu e se a renda dos mais pobres aumentou através dos programas sociais do governo, tipo Bolsa Família etc., então o que houve foi a transferência da renda da classe média para às classe menos privilegiadas. Quer dizer: quem está pagando a conta da gentileza feita pelo governo é a classe média. Do ponto de vista de estratégia de longo prazo, de economia política, isso é tiro no pé. Emagrecer a classe média é reduzia a demanda. Sem demanda não há produção, sem produção não há emprego nem crescimento econômico. O espetáculo do crescimento só acontece quando os operários se transformam em pequeno-burguês. Assim aconteceu nos Estados Unidos, na Europa e no Japão e eles representam as economias que deram certo. Os países que estão crescendo estão procurando fazer o mesmo; somente nós estamos na contramão. Temos que redistribuir a renda? Sim, mas repartindo o ganho dos mais ricos, acabando com a corrupção e reduzindo os impostos e não quebrando a estrutura da sociedade. É raro, mas vez ou outra a classe média reage.

E quem tem medo do pequeno-burguês? Só quem tem medo de vaias no Maracanã.

O faz de conta DA POLÍTICA

Como não poderia deixar de ser, o clima de disputa política já se delineai nos três maiores Municípios do Estado, tendo em vista às eleições municipais do próximo ano. Em Natal a disputa está ficando no terreno da fogueira das vaidades, com várias auto-inoculações do vírus da mosca azul, principalmente entre componentes da Câmara Municipal. Entretanto a ação da Policia e do Ministério Publico matou no nascedouro muitas delas. A novidade foi a lançamento de do nome de Rosalba Ciarlini (ela diz que não aceita). Em Parnamirim, dizem, tem mais candidatos que eleitores. Em Mossoró há a prefeita Fafá Rosado, que certamente ira para a reeleição. Concorrendo com ela tem o nome de Antonio Capistrano, lançado pelo PCdoB. Betinho Rosado corre por fora. São bons candidatos, porém ainda com forças desproporcionais, no que pese o pronunciamento de Paulo Linhares, presidente do PSDB local, aceitação da candidatura de Capistrano – veja bem aceitando, porém não fechando o apoio do seu partido ao comunista.

TIBAU

Conversando com alguns amigos de Mossoró, “veranistas juramentados” de Tibau, todos eles reclamavam do barulho que impera naquela ainda maravilhosa praia dos mossoroenses. Antigamente Tibau se destacava por sua natureza – suas dunas de areias coloridas e seus pingas; as fontes naturais de água doce – e pelo ambiente tranquilo e sossegado. As dunas já desapareceram, invadidas que foram. Os pinga ou secaram ou foram contaminados pelo grande número fossas sanitárias. Só restava o ambiente tranquilo, que agora também está sendo perdido.