QUE SEJAM BONS VENTOS

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 30 mar. 2008.
O Jornal de Hoje. Natal, 24 mar. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 27 mar. 2008.

Talvez se possa dizer que o processo do desenvolvimento material da humanidade tenha, realmente, se iniciado quando o homem aprendeu a utilizar outras fontes de energia que não àquela produzida pela sua própria força, a força braçal. As pirâmides do Egito, da meso-América e do planalto andino; o Partenon, em Atenas; o Coliseu romano e a muralha da China, por exemplo, foram construídos usando exclusivamente a força do corpo humano. Foi um longo caminho que começou na queima de madeira, passou pela doma do vento e das águas até chegar à queima dos combustíveis fósseis e na produção de energia nuclear. A revolução industrial iniciada no século XVIII somente aconteceu graças ao uso intensivo dos fusos e polias acionados pelas quedas d’água, pelos moinhos de vento e pelas caldeiras alimentadas pelo calor das brasas de madeira ou carvão.

Hoje em dia a humanidade é escrava da energia produzida pela queima de combustíveis não renováveis, que tem como fontes os minerais fósseis – o petróleo, o carvão mineral (hulha) e o xisto betuminoso -, principalmente o petróleo. As indústrias e os veículos são movidos pelas chamadas fontes clássicas de energia, de origem térmica, química ou elétrica, que são intercambiáveis e podem ser transformadas em energia mecânica. Esse fato é tão verdadeiro quanto verdade é que, quanto mais desenvolvido o país, quando maior seu PIB, mais combustíveis derivados do petróleo ele queima. Aqui é que está o problema: no outro lado do progresso estão a poluição, a degradação do meio ambiente, a reduções da camada de ozônio, o aquecimentos do planeta e as suas trágicas consequências.

Daí a busca pelas fontes alternativas, naturais e renováveis de produção de energia, que não sejam poluentes ou que sejam menos poluidoras. O Brasil tem experiência no assunto, pois partiu na frente ao se engajar na construção de hidroelétricas e na produção de álcool combustível – anteriormente conhecido como álcool anidro e agora chamado de etanol, para se adaptar aos padrões internacionais. Entretanto ainda estamos engatinhando no aproveitamento da energia eólica, cuja utilização é bem antiga. Os moinhos, barcos a vela e moinhos de vento dela tiraram amplo proveito para, respectivamente, moer grãos, impulsionar embarcações e fazer captação d’água para consumo humano ou industrial e fazer irrigação agrícola.

Somente neste século o Brasil despertou para a energia eólica. O primeiro projeto foi desenvolvido na ilha de Fernando de Noronha, para substituir um gerador movido a diesel que fornecia a energia consumida na ilha. Até 2006 tínhamos instalados equipamentos capazes de produzir somente 29 MW (Megawatts). Naquele ano foram instalados outros, para produzir mais 208 MW, totalizando 237 MW. Desde 2000 foram instaladas as usinas de Mucuripe e Prainha, no Ceará, Osório, no Rio Grande do Sul, e em Rio do Fogo, no Rio Grande do Norte. Todavia, se comparados com a usina da Termoaçu (uma usina de porte médio), que terá uma capacidade nominal de 340 MW, ver-se quão tímido tem sido até agora o programa eólico brasileiro.

Essa falta de iniciativa, não condiz com o nosso potencial para exploração desse tipo de fonte energética. Quase todo o território nacional, principalmente a nossa costa marítima, possui boas condições de vento para instalação de aerogeradores, principalmente no litoral nordestino e, também, no litoral sul. Os últimos estudos indicam que o território nacional tem um potencial de 143.000 MW, dos quais 75.000 MW se localizam no Nordeste. Explorado no limite máximo, nossa região teria capacidade de produzir energia eólica em volume que se igualaria a mais de cinco hidroelétricas do tamanho de Itaipu, cuja capacidade é de 14.000 MW. No Nordeste, o Rio Grande do Norte e o Ceará têm os melhores corredores de vento.

Essas boas características destes dois Estados estão atraindo investimentos estimados em algo que se situa entre R$ 4 bilhões e R$ 10 bilhões. O nosso Estado produz 49,3 MW no Parque Eólico Rio do Fogo, do grupo espanhol Iberdrola, com a utilização de 62 turbinas aerogeradoras de 800 kW de potência unitária, com interligação à rede da Cosern-Companhia Energética do Rio Grande do Norte, também integrante do grupo Iberdrola. Um novo parque está sendo implantado em Guamaré, pelo grupo mineiro NEO, com capacidade de 151 MW, que deverá ser concluído no próximo ano. No final do ano passado, a Pacific Hydro, empresa australiana, anunciou projetos de energia eólica a serem instalados no Rio Grande do Norte, com investimentos da ordem de R$ 1,2 bilhão. O primeiro deles seria no litoral norte, no município de Touros, com capacidade de 102 MW, que deveria entrar em operação ainda em 2008. Somados todos os projetos, esses e outros, eles totalizariam 800 MW.

Plano há muitos; de concreto há pouco. Ultimamente esse tem sido o comportamento recorrente da economia do Rio Grande do Norte: muito ensaio e poucos passos. Em um cenário escorregadio, a indústria têxtil está em crise e a carcinicultura também; a indústria salineira briga com a concorrência estrangeira e a construção civil enfrenta barreiras de quem deveria colaborar. Tomara que bons ventos tragam a energia eólica.