QUASE OITENTÃO

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 13 ago. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 16 ago. 2006.Metropolitano. Parnamirim, 17 ago. 2007.

Tudo estava sendo organizado por sua nora Cláudia, que era casada com o seu filho caçula. Ela tinha uma propensão natural para liderança – bem diferente do pamonha do marido. Aliás, a ideia também tinha sido dela: fazer uma festa de arromba, para comemorar os oitenta anos do sogrão. Quando ela falou no assunto pela primeira vez, o Dr. Paulo Ananias relutou em aceitar. Afinal de contas fazia só poucos meses que Clotilde, sua mulher, tinha falecido, depois de longos anos de enferma. Os argumentos da nora foram fortes e não admitiram contestação: a vida continua e é curta. Para ele, mais ainda.

O que ninguém sabia (exceto sua nora e seu médico lá dos States) é que Paulo Veloso Macedo de Ananias, desembargador aposentado e homem de negócios, estava condenado a viver somente mais alguns meses; talvez ano ou pouco mais. A hipertensão arterial pulmonar é uma doença rara, chata e não tem volta. Pegou, morreu. Só um transplante de coração e pulmão resolve. Não no caso dele; um quase oitentão não faz um transplante desse. O jeito é se conformar e viver a vida que lhe resta. Por isso a festa. Foi bom curtir a surpresa que o anuncio da festa causou nas altas rodas. Os cronistas sociais tinham dado o maior destaque, falando do vinho Romanée Conti (francês do bom, aquele de R$ 8.900,00 a garrafa; um verdadeiro mito engarrafado), do patê de “foie gras” que veio de Périgord (uma região do Sudeste da França), do whisky Royal Salute (escocês legitimo de 21 anos, custando R$ 600,00 a garrafa), do caviar Beluga (o caviar negro do Mar Cáspio; mandado buscar na Rússia) etc. e tal.

A festa, daquelas de antigamente, transcorria na mais perfeita harmonia. A orquestra tocava musica suave, os convidados se esparramavam pela casa e pelos jardins, todos servidos por um número apropriado de garçons. Parecia até que “ordem e alegria” era o seu lema. Muitos comes e, mais ainda, muitos bebes. Tudo do bom e do melhor. E não poderia ser diferente. A festa de aniversário foi mesmo o sucesso esperado. Todas as pessoas importantes compareceram. Estava lá a alta cúpula do judiciário, do executivo e do legislativo, bem como do mundo empresarial. A grande surpresa da festa ninguém poderia esperar; somente a nora Cláudia fora sua confidente. No momento certo foi anunciado o noivado e casamento do aniversariante, já na próxima semana, com Aninha, aquela modelo ligeiramente amorenada, de rosto angelical, olhos verdes, corpo torneado, pernas longas e de apenas 25 anos, que estivera o tempo todo ao seu lado. Enquanto os filhos ficaram atônicos e os amigos perderam a voz, os outros começaram a fazer um zun-zun generalizado. Lá para tantas, o seu melhor amigo, o Dr. Walfridindo, seu colega do Tribunal e também aposentado, pegou o noivo pelo braço e praticamente o sequestrou até a biblioteca. Depois de fechar a porta, perguntou: “Paulo Ananias, o que é que deu em você? Ficou louco? Quer ser o motivo das chacotas da cidade?”. O aniversariante sorriu, bateu no ombro do amigo e respondeu-lhe afetuosamente: “Não, meu amigo, quero apenas viver o pouco da vida que me resta”.

De novo tudo tinha sido idéia da nora. Amiga da mãe da noiva, ela organizou tudo: fez a proposta de casamento em nome do sogro, convenceu a pretendida e organizou os primeiros encontros secretos, que aconteceram na casa de praia do Dr. Paulo. Primeiro se conheceram, depois acertaram os termos do acordo e depois se entregaram aos efeitos da pílula azul. Os preparativos legais foram feitos pelo próprio noivo e discutidos com o pai da noiva, que também é advogado. As cláusulas eram simples: no dia das núpcias, Ana Cristina de Vesco Filianotti receberia um generoso dote; teria que ser fiel, tanto em atos como em intenções, enquanto convivesse com desembargador; com a morte deste receberia como herança um apartamento de cobertura e mais uma boa soma de dinheiro, aplicado em títulos públicos, multiplicada pelo número de anos de convívio.

Oito meses depois o Dr. Paulo Veloso Macedo de Ananias, desembargador aposentado e homem de negócios, faleceu em sua casa, assistido por dois médicos (um dos Estados Unidos e outro paulista). Morreu plácido, quase que com um sorriso no rosto. Sua mulher estava ao seu lado. Chorosa e triste, pois no pouco tempo de convívio aprendera, se não a amar, pelo menos a respeitar e gostar da companhia daquele homem que era até mais velho que seu pai. O enterro também foi um acontecimento social. Outra vez lá estavam todas as pessoas importantes do judiciário, do executivo, legislativo e do mundo empresarial.

O Dr. Walfrido Porto, o Walfridindo, colega e melhor amigo do falecido, acompanhou a viúva até a sua residência, onde pediu que fossem até a biblioteca, para terem uma conversa particular.

– “Dona Aninha, sei que é muito cedo para tratarmos desse assunto, mas quero me assegurar que nenhum outro pretendente se antecipe a mim. Eu também sou viúvo e quero pedir a sua mão em casamento. Não precisa me responder agora. Pense no assunto e me responda depois. Amanhã seria um ótimo dia para a resposta”.