Produtividade não rima com propina

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 20 nov. 2011.

Gazeta do Oeste. Mossoró, 19 nov. 2011.

Há pessoas que têm uma relativa dificuldade de compreender a diferença entre produção e produtividade. Produção é tudo o que é elaborado pelas empresas, é o processo de criar bens e serviços para atender as necessidades econômicas, em última análise para atender as necessidades do ser humano. É simplesmente uma quantidade, um valor. Por outro lado, produtividade é a relação entre a quantidade ou valor produzido e a quantidade ou o valor dos insumos aplicados no processo de produção. É, pois, o rendimento obtido com o uso de trabalho, recursos da natureza, capital e tecnologia.

Vamos exemplificar. Primeiro vejamos o aspecto “produção”. Digamos que uma empresa, uma região ou mesmo um país produza em um ano, um mês ou em outro período determinado, 100 mil unidades de um produto qualquer, cujo valor de mercado seja R$ 150 mil. Para elaborar tal mercadoria, foram usadas cem horas de mão de obra, mil unidades de recursos da natureza, capital no montante de R$ 20 mil e tecnologia que lhe tenha custado R$ 10 mil. A produção terá sido de 100 mil unidades, no valor de R$ 150 mil. A análise da “produtividade”, exige que se recorra a outro conceito. Tem-se que confrontar a produção efetiva (100 mil unidades ou R$ 150 mil) com outros elementos. Para facilitar a compreensão, vamos utilizar os fatores usados para fabricar a mercadoria. Comparando-se a produção da mesma empresa, região ou país, em igual período de tempo, a produtividade seria maior se se obtiver mais de 100 mil unidades ou se os recursos utilizados no processo (trabalho, recursos da natureza, capital e tecnologia) fossem em menor quantidade e valor. Em outras palavras: a melhor produtividade é obtida se gastando menos recursos para produzir a mesma quantidade ou se produzindo mais unidades com os mesmos recursos.

Esses esclarecimentos são necessários para se entender a gravidade do resultado de um trabalho desenvolvido pala Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, sobre a produtividade em 151 países. O estudo chegou a uma conclusão que deve ser bastante preocupante para nós brasileiros: em nosso país, a produtividade da mão de obra está estagnada nos últimos 30 anos; esteve em viés de alta até 1980 e de lá para cá entrou em tendência de baixa. Ora, se o fator trabalho é de importância ímpar na medição da produtividade, as “autoridades competentes” devem se preocupar mais com a gravidade deste fato e menos com o marketing eleitoreiro, com a copa, com as olimpíadas, com inaugurações de obras inacabadas et cetera e tal.

Comentando sobre as evidências da pesquisa, José Alexandre Scheinkman, economista brasileiro da Universidade Princeton, atribuiu o baixo rendimento nacional a uma serie de deficiências de nosso sistema educacional, às nossas recorrentes carência de infraestrutura, à baixa integração de nossas empresas com o mercado global, ao baixo índice de uso de novas tecnologias e aos entraves burocráticos que dificultam a vida das empresas. Para ele, esses e outros problemas afetam as empresas (onde a produção acontece), impedindo-as de obter ganho de escala que as torne mais competitivas; impedindo-as de produzir em maior quantidade e vender seus produtos por preços menores.

Todos os problemas têm soluções. Vezes elas são fáceis, outras nem tanto. No caso presente, a urgência está na formação de mão de obra qualificada, tarefa que foi atribuída ao Ministério do Trabalho e Emprego (nome que é uma redundância demagógica, desnecessária e burra). O que seria solução virou agravamento do problema, pois o Ministério terceirizou a tarefa, repassando-a a ONGs amigas e, dizem, mediante “módica” propina de 5% a 15% do valor do contrato. Enquanto isso, por despreparo de mão de obra, a construção civil arcar com desperdício de cerca de 30% de todo material de construção (causado por falta de conhecimento de engenheiros, mestre de obra, pedreiros e outros profissionais); a agricultura, se bem que com percentual ligeiramente menos, perde inclusive com infraestrutura de transporte inadequada; a indústria registra um alto índice de produtos refugados nas próprias fábricas. A lista é longa.

O problema há e não há uma prateleira onde se possa buscar milagres capazes de solucioná-lo facilmente. A origem do mau funcionamento crônico do trabalhador braçal ou intelectual brasileiro está na falta de instrução – quer por pouco tempo de estudo, quer pelo irrisório grau de instrução dada em sala de aula. Sim, tudo termina – ou se inicia – em nossas escolas, onde os salários dos professores são insuficientes para que eles possam ter uma vida decente; onde há professores que não ensinam e alunos que não querem estudar.

Nesse caso não há “jeitinho brasileiro” que dê jeito. Ou se estuda ou se estuda. Quanto às propinas, este é um assunto para as páginas de assuntos policiais.