PRESTES, LAMPIÃO E PADRE CICERO – CE e RN

Tomislav R. Femenick – Historiador

 vinheta175

Ao ser narrado, um fato só tem sentido histórico se forem expostos alguns elementos a ele pertinente, tais como: as causas, circunstâncias e repercussão, por exemplo. Portanto há que se analisar os antecedentes, as personagens e as consequências. A simples narração dos fatos não é historiografia, pode até assumir as feições de folhetim, quando impregnada de tendências e bravatas melosas.

Assim se dá quando se aborda a passagem da Coluna Prestes pelo Rio Grande do Norte, em 1926. Tem que se dizer das causas e o que foi a própria coluna, a inquietação causada nas localidades envolvidas direta ou indiretamente no evento, o contexto dessas localidades na época do evento, a comoção provocada entre as pessoas e, por ultimo, os ataques, a defesa das cidades e seus reflexos. Isso porque sem repercussão na sociedade um fato não é histórico. É, quando muito, apenas um fato perdido entre tantos outros.

Fatos antecedentes

Tendo percorrendo parte do Estado de Pernambuco, em janeiro de 1925, tudo apontava para uma breve entrada da Coluna Prestes no território cearense. A estratégia de defesa armada pelo governo federal foi usar, ao mesmo tempo, os recursos dos governos estadual e federal, a estrutura de mando dos coronéis que dominavam a política nos centros maiores e nos mais longínquos rincões do sertão, bem como o poder de luta dos jagunços. Nessas circunstâncias, a defesa do Ceará foi posta sob o comando do deputado federal Floro Bartolomeu, nome talhado para a situação, pois era homem ligado aos coronéis, aos jagunços do interior do Estado e ao Padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro do Norte. O professor Neill Macaulay (1977), citando dados do historiador Otacílio Anselmo, diz que “no dia 31 de janeiro de 1925 um trem especial partiu de Fortaleza para a cidade de Juazeiro, no Cariri, carregado de material bélico e transportando Floro Bartolomeu e mil contos de reis em fundos federais. Juazeiro era a Meca do sertão nordestino, a sede de Padre Cícero Romão Batista, chefe espiritual e temporal de milhares de sertanejos, jagunços e partidários políticos”.

As providências tomadas pelo deputado não foram nada ortodoxias ao convocar um “batalhão patriótico”, integrado por jagunços vinculados aos coronéis. Todavia, sua atitude mais controversa foi incorporar a esse grupo o bando do mais famigerado e tímido cangaceiro que atuava nos sertões nordestinos. Escreveu uma carta a Lampião convidando-o a fazer parte da empreitada, carta essa que foi submetida à avaliação e que foi aprovada pelo Padre Cícero, figura respeitada e admirada por Virgulino Ferreira.

Tão logo recebeu a carta, Lampião partiu para Juazeiro com 49 homens. No dia 5 de março foi recebido pelo sacerdote e obteve a patente de capitão do “batalhão patriótico”, outorgada por um amedrontado funcionário do Ministério da Agricultura. Como parte das negociações, recebeu ainda fardas e armamento para a sua “tropa”. Três dias depois desses acontecimentos o deputado Floro Bartolomeu, que já se encontrava enfermo no Rio de Janeiro, veio a falecer.

Entretanto a carreira legalista de Lampião foi curta, embora aparentemente estivesse decidido a cumprir sua parte no acordo. Seu bando deixou e Ceará e voltou para Pernambuco, onde continuou a praticar crimes e, consequentemente, foi perseguido pela polícia. Como pensava que o seu posto de capitão do “batalhão patriótico” lhe conferia imunidade ilimitada, voltou a Juazeiro para novamente falar com o Padre Cícero, mas não foi por ele recebido. Certamente queria reclamar da ação da polícia de Pernambuco. Decepcionado, Lampião abandonou o posto, voltou a sua carreira de cangaceiro, mas não abdicou o titulo de capitão, que adotou daí para sempre.

Indiferente às tratativas dos legalistas, a Coluna Prestes entrou no Ceará atravessando a Serra do Ibiapaba, vinda do Piauí. No dia 15 de janeiro atacou a cidade Ipu, depois Crateús e Arneiroz. Visando dividir as tropas legalistas, o tenente João Alberto, que comandava um pelotão avançado dos rebeldes, enviou telegramas para Fortaleza e Sobral dando indícios de que marcharia em direção àquelas cidades, quando sua verdadeira intenção era ir em outro sentido. A trama de João Alberto deu certo. Um significativo contingente da Policia Militar cearense foi deslocado para a capital do Estado, deixando quase livre o caminho que a Coluna seguiria: “para evitar as concentrações de jagunços em redor de Juazeiro, os revoltosos marcharam rapidamente em direção ao Rio Grande do Norte” (MACAULAY, 1977).

O norte-americano Neill Macaulay lutou na guerra da Coreia, foi professor da Universidade da Florida e historiador. É autor de dois livros sobre o Brasil (A Coluna Prestes e D. Pedro I), um sobre a luta dos guerrilheiros nicaraguenses contra a invasão de seu país por tropas ianques em 1912/1933 (The Sandino Affair) e outro (Um rebelde em Cuba), baseado em sua experiência cubana, quando lutou ao lado dos guerrilheiros de Fidel e chegou ao posto de tenente do exército revolucionário. Uma das suas missões era treinar soldados revolucionários para executar os inimigos capturados; “Eu fiz o que tinha que fazer. Esses sujeitos mereceram o que tiveram”, teria afirmado o professor-guerrilheiro. O autor de A Coluna Prestes entrevistou Luiz Carlos Prestes, quando este estava exilado em Moscou, que leu os originais antes da publicação. No entanto, segundo Elio Gaspari (Folha de S. Paulo, 05 nov. 2007), Neill Macaulay foi um ativo informante da CIA, a central de inteligência dos Estados Unidos.

A expectativa do ataque

As notícias que antecederam os ataques da Coluna Prestes inquietaram a população de vários outros municípios do Rio Grande do Norte. Os escritores Raimundo Nonato (1966) e Itamar de Souza (1989) retrataram esse cenário de medo e as lutas propriamente ditas.

Em 1926 o nosso Estado tinha uma população que se aproximava de 600 mil habitantes e Natal um pouco mais de 30 mil. Era uma cidade bucólica e relativamente tranquila, mas que vivia um momento de transformação. Segundo Gabriela Fernandes de Siqueira (2013), “na década de 1920 a aviação teve maior desenvolvimento em Natal. O número de automóveis aumentou e ocorreram melhorias na área de educação”. O Estado era governado por José Augusto Bezerra de Medeiros, que estava no terceiro ano do seu mandato.

Embora não se sentisse ameaçada de ataque direto pelos revoltosos, a capital do Estado vivia um clima de expectativa pelo que poderia acontecer. O histórico divulgado sobre as investidas dos integrantes da Coluna em outros Estados nordestinos davam contra de um rastro de perdas humanas e danos matérias nas cidades em seu itinerário. O historiador Raimundo Nonato da Silva (1966) assim sintetizou a situação, às vésperas da chegada dos rebelados: “Na Capital irradiava-se essa onda de agitação pelos pontos de concentração popular – O café Cova da Onça, na Ribeira, o Grande Ponto, na Cidade Alta e Alecrim”. Daí saiam as notícias e os boateiros levando as novidades reais ou inventadas.

De verídico mesmo somente as informações transmitidas pelo governo federal ao governo do Estado, dando conta que elementos da Coluna Prestes já tinham saído da cidade de Iguatu, no Ceará, e estavam se deslocando para o Rio Grande do Norte; tudo indicando que o ataque seria na cidade de São Miguel. O contingente de ataque seria integrado por cerca de 70 homens bem armados e a maioria deles com treinamento militar.

Os preparativos para a defesa legalista começaram a serem arquitetados, inclusive com a formação de batalhões compostos por elementos da Polícia Militar do Estado, preponderantemente lotados em Natal (sob o comando do tenente João Machado), e possivelmente do Exército nacional, esses vindos de Fortaleza. O grande problema era o deslocamento dessa tropa para o local presumível do teatro da batalha. Optou-se, então, por se usar o porto de Areia Branca, a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte e vias rodoviárias; estas últimas poucas, de trânsito difícil e de acesso complicado.

O governo do Estado delegou o comando da defesa São Miguel ao líder político local João Pessoa de Albuquerque (também conhecido por João Leite e Coronel do Baixio de Nazaré), coronel da Guarda Nacional, que presidia a Intendência Municipal de São Miguel.

Como não poderia deixar de ser, antes do ataque várias cidades do Estado se viram ameaçadas de invasão pelos tenentes rebeldes.