Preparar o Acontecer

Tomislav R. Femenick
 Boletim Unibero. São Paulo, Ano XXI, nº 19, set. 1995

Quando eu era garoto, a casa do meu tio – Monsenhor, vigário geral e líder político – era o ponto de encontro dos senhores doutos da cidade. Sempre a tardinha, no fim do dia e no começo da noite, reuniam-se na calçada do Padre Motta, para tomar a brisa fresca do vento nordeste, as mais ilustres figurar de todos as correntes políticas, inclusive alguns comunistas teóricos; todos amigos. Ali se discutia de tudo: a política, as religiões, o positivismo, o ateísmo, a economia, o ensino e, principalmente, a vida. Certa vez ouvi um senhor de idade, médico famoso do lugar, dizer algo que eu não entendi na ocasião. Disse ele que “o relógio do Século XX anda ligeiro demais”. Como criança eu pensei que aquilo era coisa de gente velha; o Dr. Lavoisier Maia deveria andar pela casa dos cinqüenta anos, ou coisa próxima.

Daquela época para cá coisas impensáveis têm acontecido e se banalizado, com uma freqüência cada vez mais acentuada. Os satélites artificiais, a pílula anticoncepcional, as viagens especiais, a queda do muro de Berlim e do império soviético, a desglamorização das ideologias e o reconhecimento quase universal, infelizmente quase, dos direitos das minorias, afora outras coisas de menor repercussão e só para ficar com esses exemplos. Agora, já na faixa etária que naquela época tinha o Dr Lavô (como era carinhosamente conhecido o médico humanitário, que há alguns anos foi se avistar com o Deus que ele dizia não acreditar que existia), eu sei o que ele queria dizer e me preocupo com esse tal de relógio.

No mundo que ultrapassa as nossas limitações territoriais e mesmo intelectuais, acontecem vivências que devem ser incorporadas às bases de nosso pensamento. Povos surgem no cenário mundial fazendo-se presentes e trazendo filosofias e comportamentos novos e exóticos. Na Ásia, na África, nas ilhas do Pacífico e até na velha Europa, povos acordam, se agitam e pedem lugar entre as nações tradicionais. Governos de países antes inimigos tradicionais juntam-se, contra povos também antes amigos tradicionais. Por toda a parte há uma contínua busca pelas modificações, pelas transformações, pelo moderno, pelo técnico, pela vanguarda, isso nos mais variados campos. Essa reciclagem atinge o governo, as instituições privadas, a cidade, o campo, a população como um todo e as pessoas individualmente e, também, o ensino universitário, porém este último quase sempre com algum atraso.

Nós professores temos uma tendência a esperar acontecer para depois ensinar, quando o lógico e esperado, pela sociedade em geral, seria muito mais o contrário, preparar as pessoas para que estas façam o acontecer da maneira mais certa possível. Foram-se os tempos em que os diplomas eram emoldurados e serviam apenas para ornamentar paredes de esnobes. Atualmente esses documentos devem ser portados por técnicos conhecedores de suas respectivas profissões – técnicos no sentido mais amplo da palavra – como verdadeiros atestados do saber. E aí é que está a nossa responsabilidade, nós atestamos qualidade aos nossos alunos e, se eles não a possuírem, nós devemos ser cobrados por isso. Economistas, administradores, contadores, sociólogos, médicos, antropólogos, dentistas, engenheiros e nenhum outro profissional têm o direito de se acomodar, muito menos nós professores, pois que aqui estão os privilegiados de uma sociedade em que o estudo é luxo e a maioria, a grande maioria, não consegue nem concluir o primeiro grau. Para os mestres o encargo é maior ainda, pois nós é que devemos formar a consciência social em todas as profissões, em todas as pessoas. Qualquer que seja a ciência, ela não teria sentido se usasse seus elementos como meta e não como meio para beneficiar o homem, alvo último do saber.

Infelizmente ainda ocorre, com freqüência indesejada, descasos com a capacidade e com a qualidade profissional de formandos. Não devemos esperar que o governo (no Brasil sempre se espera que o governo faça a sua e a nossa parte) mude o panorama, que os outros mudem a sua maneira de expedir títulos acadêmicos, nós todos, o governo e todos os professores universitários é que devemos mudar, mudar para melhor, para transformar, para que o nosso país fique na vanguarda e saia, de uma vez por todas, do limbo (ou seria o inferno mesmo?) do terceiro mundo. Se não agirmos com essa visão, o nosso relógio se atrasará e perderemos o tempo das coisas modernas.