POPULAR NÃO É SER RUIM

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 04 jun. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 07 jun. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 24 jun. 2007.

O Brasil é um país de musicalidade variada e extremamente rica. E de onde vem essa multiplicidade de sons, estilos e bossa de nosso povo? Há alguns fatos que, inegavelmente, deram origem a isso tudo. Em primeiro lugar a própria eugenia do brasileiro, a nossa formação genética, constituída primordialmente pelos portugueses, com suas tradicionais ousadia e tristeza, esta aqui ressaltada pela saudade da terra mãe; pelos negros africanos, com a sua alegria mesclada com a melancolia da escravidão e a esperança revivida na luta pela liberdade, e pelos índios, com as suas indolente bonança e atitude contemplativa. No caso específico dos lusitanos há que se ressaltar que o fado, canção símbolo de Portugal, provavelmente teve origem no Brasil, resultante de uma mutação do antigo lundu do Rio antigo, apelidado de fado batido, levado para Lisboa quando do regresso de D. João VI – exemplo singular de um ritmo exportado e abandonado por nós brasileiros.

Da mesma maneira como foi formada esta nossa grande nação, foi formada a nossa música. A maioria dos ingredientes ritmos e melódicos, assim como o andamento, o compasso e os temas das letras, têm inspiração nos vários povos que foram jogados nesse imenso cadinho chamado Brasil. Portanto, não há como se falar ou se defender um purismo da música brasileira, da mesma forma como alguns fanáticos Africânderes (os racistas Bôeres, da África do Sul) defendiam a pseudapureza da raça branca. Da mesma forma que todos os povos têm mistura e misturas de sangue, todos os ritmos e estilos musicais recebem e provocam influências.

Nos casos de músicas e de nações, o que realmente há é a predominância de certas características, de certas nuanças que dão a forma de ser de um certo tipo de música ou de um determinado povo. É descabida qualquer tentativa de se colocar uma redoma de vidro em torno de uma manifestação musical, na tentativa de preservar sua pureza. Há quem diga que o nosso forró deve seu nome à expressão “for all”, usada pelos soldados norte-americanos acantonados em Natal durante a Segunda Guerra, para identificar as festas cuja entrada era franqueavam a tudo mundo. No entanto, o forró não deixa de ser uma festa musical eminentemente nordestina. Os mariaches, os tradicionais conjuntos de músicos mexicanos, são assim chamados por adotaram uma corruptela da palavra francesa “mariage”, que simplesmente quer dizer casamento. Nem por isso deixaram de ser a expressão mais conhecida internacionalmente do som do México. As artes, como a própria vida, são dinâmicas e não estáticas. Transformam-se incorporando novos elementos, desprezando alguns outros que não sejam essenciais à sua estrutura básica. É a única maneira das artes continuarem a fazer parte da alma do ser humano.

Agora, para tudo há limites. Essa coisa que estão chamando de musica sertaneja é o resultado de um verdadeiro adultério, envolvendo um trio de péssimo antecedente: despudoradamente a guarânia paraguaia traiu um inodoro bolero mexicano com o pior do country norte-americano, parindo essa verdadeira aberração, que nasceu e vive com uma tendência intermitente, uma persistente vocação à “cornice”. Já o pagode, segundo muito bem disse John Alff (pianista e compositor brasileiro com nome de musico amaricano, um dos responsáveis pelo movimento musical que resultou na Bossa Nova), só tem o ritmo monótono de um limpador de pára-brisa de automóvel: vai e vem, vai e vem… Há exceções. Zeca Pagodinho é muito bom. Bom porque não faz pagode de limpador de pára-brisa. Porém em matéria de ruindade nada se assemelha a esse monstrengo, a essa aberração chamada de “forró eletrônico, forró moderno, ou oxente music”. O oxente music não é forró, musica sertaneja não é caipira e pagode não é samba. São somas de zero com coisa nenhuma. As letras são apenas um amontoado de palavras, que formam frases sem nexo; quando os há, não têm ligação umas com as outras, criando um verdadeiro buraco negro, tal é a intensidade com que suga a inteligência das pessoas. O ritmo é uma gororoba onde se misturam tudo o que é insosso, sem sabor e medíocre. Porém o pior de tudo isso é que há quem goste desta porcaria. E não me venham com essa de que se trata de Música Popular Brasileira. Não é bem assim. Popular nunca foi sinônimo de coisa ruim. Popular é popular. Ruim é ruim.

Esses são os únicos tipos de músicas brasileiras divulgadas por um certo tipo de estações de rádios. Isso mesmo à custa de muito “jabaculê”.