PÓLO CIMENTEIRO

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 29 jul. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 29 jul. 2007.

Nos anos vinte do século passado, Miguel Faustino do Monte, na época um dos homens mais ricos do Estado, se não o mais rico de todos, levantou a possibilidade de construção de uma fábrica de cimento no Rio Grande do Norte. Seus sócios seriam, entre outros, Jerônimo Rosado, Tertuliano Fernandes e Vicente Ferreira Cunha da Mota, este último já seu parceiro em uma firma comercial. A base do empreendimento seriam as jazidas de calcário e gesso do então distrito de São Sebastião, pertencente do Município de Mossoró; hoje o Município de Governador Dix-sept Rosado. Os estudos técnicos locais foram feitos pelo engenheiro Pedro Ciarlini e a planta técnica da fábrica por um escritório do Rio de Janeiro, com a assistência de especialistas franceses. Essa fábrica não foi implantada porque o governo do Estado – contrariando todos os estudos técnicos de disponibilidade de matéria-prima e de vias de escoamento da produção – insistia que a indústria fosse montada na região de Angicos ou Lages.

Quarenta anos depois, mais precisamente, em 1963, o governo de Aluízio Alves contratou a Arthur D. Little, Inc., escritório internacional de consultoria, para realizar um estudo de prospecção de potencialidade econômica, intitulado “Programa para a Iniciativa Privada no Desenvolvimento do Rio Grande do Norte”. Os consultores fizeram ver a possibilidade de uso do gesso de Governador Dix-sept Rosado, associado com o calcário de Mossoró, Ceará-Mirim ou João Câmara, para a instalação de uma indústria cimenteira no Estado. Três anos depois, em 1966, o Dr. José Lima, médico mossoroense radicado em Apucarana, norte do Paraná, comunicou ao prefeito de Mossoró, Raimundo Soares de Souza, a disposição de empresários daquela região em canalizar incentivos fiscais para o Rio Grande do Norte, preferencialmente para serem usados em uma fábrica de cimento. Visando oferecer estrutura aos paranaenses, foi constituída a Cipamos-Cimento Portland Paraná-Mossoró, tendo como sócios, entre outros, Enéas Negreiros, Antonio Florêncio de Queiroz, Francisco Ferreira Souto Filho e Renato Costa. Foi-me dada a incumbência de realizar os primeiros acertos nesse sentido, estendendo a opção para Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Já estávamos com subscrições relativamente vultosas, quando João Santos (Cimento Nassau, de Recife) anunciou a instalação de uma unidade de seu grupo no Estado.

A presença da Itapetinga Agroindustrial S/A no Estado, hoje já é história. Mas essa história só é completa quando se diz da imensa contribuição que dois homens deram para a concretização desse empreendimento: o prefeito Raimundo Soares e Emerson Azevedo. Este último então presidente da Cia. Melhoramentos de Mossoró, que disponibilizou energia elétrica farta e abundante no local da fábrica, antes mesmo do inicio de sua construção.

Entretanto, o Rio Grande do Norte ainda é um Estado importador de cimento. Segundo dados do Sindicato Nacional da Indústria de Cimento, no ano passado produzimos 377.727 e consumimos 526.789 toneladas. O déficit de 149.062 toneladas foi coberto com importação do produto, trazido de outras unidades da Federação. O quadro se mantém este ano: de janeiro a maio, a fabrica de Mossoró produziu 151.331 e o Estado consumiu 224.541 toneladas. Daí o porquê da importância das noticias, divulgadas recentemente, da instalação de mais duas fabricas de cimento no Estado.

Operam no Brasil dez grandes grupos cimenteiros: Camargo Corrêa Cimentos, Cimento Itambé, Cimento Nassau, CP Cimento, Cimpor, Ciplan, Holcim, Lafarge, Soeicom e Votorantim Cimentos. A unidade já existente em Mossoró pertence ao grupo Nassau (João Santos), que controla 10 unidades no país. A ela virão se juntar mais duas. O empreendimento da Votorantin (da família Ermírio de Moraes, um dos maiores conglomerados empresarial do Brasil e o maior grupo cimenteiro nacional, com dezessete unidades instaladas) será localizado entre Mossoró e Baraúna, está previsto para produzir 800 mil toneladas de cimento por ano e será um investimento de cerca de 150 milhões de dólares. Por sua vez, o grupo CP Cimento, do industrial Carlos Alberto Ribeiro (que possui quatro fábricas – uma no Estado do Rio, duas em São Paulo e um outra em Minas Gerais), anuncia uma instalação industrial entre os Municípios de Mossoró e Serra do Mel, orçada em aproximadamente 100 milhões de dólares.

A concretização desses novos empreendimentos fará com que o Estado do Rio Grande do Norte fique auto-suficiente na produção de cimento e tornará a região de Mossoró um dos mais importantes pólos cimenteiros do país. Mas não somente isso. Abrirá um relativamente grande número de postos de trabalho diretos (provavelmente cerca de dois mil), e gerará um número de empregos indiretos bem maior (talvez uns quatro mil). Há ainda um fator que tem que ser levado em consideração: a presença de três fabricas de cimento na mesma região fará com que a competição por mão-de-obra especializada aumente o salário desses profissionais.

Porém o mais importante é que outras indústrias poderão nascer como derivadas das fabricas de cimento: indústrias de postes, de pré-moldados, de lajes para pavimentação etc.