POLÍTICA, PODER E GOVERNO

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 22 mar. 2010.
O Mossoroense. Mossoró, 31 mar. 2010.

Os sociólogos, antropólogos sociais e estudiosos afins estudam o processos civilizatório da humanidade partindo de vários pressupostos. Dentre os quais está a compreensão do que seja política, poder e governo, em cada agrupamento social. Esses pensadores sabem, ainda, que a evolução não foi uniforme e standard no tempo e no espaço, isso é, não aconteceu em todos os lugares da mesma forma e ao mesmo tempo. Umas sociedades foram mais rápidas, outras mais lentas; umas se aperfeiçoaram e outras ainda estão engatinhando, quanto a esses aspectos.

No inicio do processo, as tribos primitivas confundiam política, poder e governo, como se fossem a mesma coisa, pois tudo era resultado da força de seus líderes, que impunham sua vontade pela força. Derivadas da simples força física aparecem outras formas de governo, porém todas ainda baseadas na imposição da vontade dos líderes, até em povos altamente desenvolvidos, como os gregos e romanos. Entretanto, nesse novo ambiente, haveria que se buscas justificativas para legitimar o poder dos governantes. O caminho foi a transformação das concepções da física aristotélica de “lugar natural”, e criar um modelo político que justificasse a divisão da sociedade; em Roma entre “patrícios” (patricius, a), a elite, e “plebeus” (plebeius, a), o povo.

A consolidação do processo civilizatório – nesse campo específico – deu-se durante o iluminismo, movimento cultural e intelectual que ocorreu na Europa no decorrer do século XVIII, e que se caracterizou pela exaltação da ciência e do questionamento filosófico, pela refutação de todos os dogmas, inclusive os políticos. Dentre os pensadores do iluminismo, destacou-se o filósofo Jean-Jacques Rousseau que, em sua obra “Do contrato social” (Du contrat social, 1762) dizia que somente uma forma de sociedade organizada politicamente era aceitável: aquela fundamentada em consentimento geral e onde a liberdade fosse o consenso e predominância, onde houvesse a garantia de direitos iguais para todos. Assim, a política deveria ser uma prática para se chegar ao governo da sociedade; o poder somente uma decorrência natural, porém circunstancial.

Depois de quase 250 anos, parece que essas ideias ainda não chegaram ao nosso país e à nossa querida província potiguar. Aqui, tanto a política como o governo é uma busca e um exercício do poder. Os grupos que se sucedem no governo, usam todo o aparato estatal em seu proveito e a oposição reclama dos governantes, talvez só por vício e não por se opor ao fato em si. Quando há revezamento de comando, alternam-se os grupos e permanecem os hábitos.

E ainda há mais. Há comportamentos esdrúxulos, garantidos por leis e outros expedientes legais. Os cabos eleitores dos governantes e dos parlamentares dos dois lados são pagos com o dinheiro público, travestidos que são de assessores ou com outro título qualquer – diretores e conselheiros de estatais, aspones etc. As televisões públicas (inclusive as ditas educativas) somente servem para divulgar quem está em cargo público – mais uma vez governantes e parlamentares. Ora, em uma sociedade de cultura de massa, cultura esse feita pelas telinhas de TV, quem já foi eleito ganha de longe a vantagem nas corridas eleitorais, pois a sua visibilidade é maior do que a daqueles que ainda não estão lá. Cadê a igualdade?

Tomemos por exemplo a atual campanha eleitoral. Os programas, as proposituras de governo é o que menos é propagado. O que se destaca é quem tem e melhor probabilidade de ganhar a eleição, quem está na frente nas pesquisas, quais as coligações possíveis. Parece até os antigos Concursos de Miss ou a votação de um desses BBB’s imbecilizantes.

Nos campos rio-grandenses do norte, o culto ao poder é gritantemente acintoso. Há poucos meses foi aqui lançada uma revista que poderia trazer uma nova mensagem no campo da política e de governo, pois seus dirigentes são jovens (um deles foi meu aluno) e, poderiam ainda não está contaminados pela idolatria. Entretanto pelo próprio título da revista, “O Poder”, parece que até para os jovens que agora entram no cipoal das campanhas este é o objetivo, e não o efeito natural da política e do governo