PIB, CRESCIMENTO E CARÊNCIA

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 23 mar. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 22 mar. 2008.

Quando eu fazia pós-graduação na FGV, em São Paulo, um dos meus colegas tinha por diversão fazer-nos perguntas aparentemente fáceis de responder, mas que eram verdadeiras ciladas colocadas no caminho dos incautos. Quase todas as questões que ele levantava eram relacionadas com economia. Certa ocasião perguntou-me: “Se você e Sebastião Camargo (presidente da construtora e do grupo Camargo Correia, onde então eu trabalhava) tivessem um aumento de 100% das suas rendas individuais, quais dos dois iria aumentar o consumo também individual, em proporção que chegasse mais perto dos 100%”.

Mesmo conhecendo “as cascas de bananas” do meu colega, porém sabendo que o meu patrão ganhava zilhões de vezes mais que eu, não tive dúvida e respondi de pronto: “Claro que é seu Sebastião”. Mas eu estava errado. Os ricos já têm de tudo, portanto, toda sua renda marginal, isto é, tudo que eles ganham a mais se transforma em poupança, renda não consumida que se transforma em investimento; em prédios não residenciais, máquinas e outros instrumentos de produção, ampliando seus negócios ou criando empresas novas. Por outro lado, os não ricos têm carência de tudo, de tal forma que toda sua renda extra é destinada à aquisição de comida, roupa, móveis e até à construção de famosos “puxadinhos” das habitações populares.

O mesmo princípio é aplicável aos países. Assim, uma parcela muito grande do PIB, o Produto Interno Bruto, da Suíça, um país tremendamente rico, se transforma em poupança que, por sua vez, se transforma em bens de produção: prédios, máquinas e outros instrumentos de trabalho, que vão produzir novas riquezas, elevar o PIB e, em menos proporção, também o consumo das pessoas. O Brasil está do outro lado. Como somos uma nação com grande número de pessoas pobres – resultado de nossa perversa distribuição de renda -, quase que todo o nosso PIB vira feijoadas, carne-de-sol, sapatos, roupas e algumas cervejas e doses de pingas a mais. Sobra muito pouco para poupança, para se transforma em investimentos do aparelho produtivo.

Isso tudo vem a propósito da notícia divulgada pelo governo de que o PIB brasileiro cresceu 5,4% em 2007, o melhor resultado desde os 5,7% de 2004. Em valores absolutos, no ano passado o PIB atingiu R$ 2,599 trilhões, ante R$ 2,333 trilhões em 2006, o que representa um crescimento de R$ 266 bilhões. É uma notícia muito boa, entretanto ainda é um crescimento pequeno, quando comparado com o de outros países emergentes. A Argentina, nossa vizinha, estima que, em 2007, houve um aumento da produção de mercadorias e serviços em 8%. Isso para não falar na China, Rússia e Índia, que cresceram muito mais.

Porém ainda há algo melhor que o simples crescimento da produção de riqueza. O IBGE calcula que a taxa de investimentos (a parte da renda que não é consumida) está crescendo desde 2003. Naquele ano foi de 15,28% e em 2007 foi de 17,6%. Esse indicador é tão – ou mais – importante que a elevação do PIB, pois aponta que a política econômica vai permitir que a economia continue crescendo de forma sustentada nos próximos anos. E, mais do que isso, que estão crescendo os investimentos em máquinas e equipamentos mais modernos, em relação aos equipamentos tradicionalmente usados pelo agro-negócio, indústria, comércio e empresas de serviços instaladas no país.

Todavia, nem tudo são flores e só o crescimento do PIB não dá para que fiquemos deslumbrados. Ainda há muito pouco investimento em infra-estrutura, que garanta o desenvolvimento e que façam acontecer o tão esperado “espetáculo do crescimento”. As empresas se deparam com estradas, portos e ferrovias que, quando não sucatados, são deficientes e entravam o desenvolvimento dos seus negócios. A tão anunciada PPP, Parceria Pública Privada, quase que somente ficou no papel. O PAC, Programa de Aceleração de Crescimento, agora é que dá seus primeiros passos. No geral, o governo federal acelera as despesas de manutenção da máquina governamental e destina poucos recursos para os seus investimentos em obras públicas e de infra-estrutura – aqui considerado também aquelas relacionadas com o saneamento básico, água potável de boa qualidade e esgotamento sanitário.

Não há como sermos uma grande nação se os dejetos gerados nos centros urbanos pelas atividades humanas, comerciais e industriais não sejam coletados, transportados, tratados e alocados em locais apropriados, mediante processos que não gerem ameaça à saúde pública e ao meio ambiente. Alia-se a esse cenário a carência de centros de saúde e hospitais e, também, uma estrutura de ensino público e privado que ofereça condições de aprendizado e cultura às pessoas. Se não há recursos públicos para essas coisas, fica no ar uma grande interrogação: e para onde vai a astronômica soma de quase R$ 1.039,6 trilhões dos tributos que é tirada das empresas e das pessoas?