PETRÓLEO? Made in RN?

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 10 nov. 2003
Gezeta do Oeste. Mossoró, 19 jan. 2004

 

Os jornais deram a notícia de que a produção de petróleo no Rio Grande do Norte bate recorde; e a Petrobrás faz propaganda em cadeia nacional destacando a produção da região de Mossoró. É muito bom, é bom de mais. Entretanto houve muita luta para que isso acontecesse. E é preciso contá-la.

A história do petróleo norte-rio-grandense iniciou-se pelo meado do século XIX, quando o padre Florêncio Gomes de Oliveira (mossoroense de São Sebastião e um estudioso de assuntos tão diversos como botânica, zoologia, topografia, mineralogia, geografia etc.), por volta de 1853, tomou as primeiras iniciativas para se estudar cientificamente ?uma substância betuminosa, inflamável e de boa luz, semelhante à cera?, encontrada na Chapada do Apodi. Em 1922, o prof. John C. Branner, presidente emérito da Universidade Starford, da Califórnia, publicou em New York um estudo sobre as possibilidades petrolíferas do Brasil, destacando como áreas petrolíferas as ?formações terciárias costeiras, que se estendem com interrupção até Cabo Frio, perto do Rio de Janeiro e o Maranhão. Parece inteiramente possível que esta zona contém petróleo onde ela se alarga para o interior, como na Bahia e Mossoró, no Estado do Rio Grande do Norte?.

Depois de outros estudos sobre a bacia Potiguar, inclusive um de Luciano Jacques de Morais datada de 1929, e de vários indícios que apontavam a ocorrência de petróleo na região, entre eles a presença de água salgada, de gases e manchas de óleo em cacimbas abertas em pontos diferente do Chapadão do Apodi, o Conselho Nacional de Petróleo autorizou, em 1949, que se fizesse levantamentos geológico e geofísicos na região de Mossoró. Posteriormente, com a criação da Petrobrás, esta continuou os estudos e, em 1956, realizou duas perfurações na região, uma na localidade Gangorra e outra em Macau, que permitiram constatar uma boa possibilidade de ocorrência de óleo, porém em quantidade considerada não comercial.

Dez anos depois, espontaneamente o óleo negro jorrou em terra mossoroense, quando era perfurado um simples poço de água, em pleno coração da cidade, na Praça Padre Mota. Jorrou e, durante muito tempo, ficou correndo pelas ruas da cidade. Em agosto de 1967, quando operários trabalhavam em um poço de água na localidade Saco, na periferia de Mossoró, foram surpreendidos por um jato de óleo e gás metano. Os exames realizados pela Petrobrás constataram o óbvio: o óleo do Saco era petróleo mesmo. Agora arregaçaram as mangas. Foi autorizada a realização de um mapeamento geológico da região de Mossoró, cujos resultados evidenciaram a existência de um folhelho formador de petróleo, de aspecto igual ao do recôncavo baiano, na época a região de maior produção na país. Turmas de técnicos, ostentando nos seus capacetes o logotipo da Petrobrás, escavavam o chão mossoroense, outros faziam levantamentos aeromagnéticos, gravimétricos e sísmicos na plataforma marítima, isso porque, em matéria de petróleo, as coisas têm que correr dentro de um calendário que não pode ser violado, sem que se corra perigo de graves erros, às vezes até vitais do ponto de vista técnico e econômico. A empresa estava seguindo esse calendário.

Em 1968 publiquei em alguns jornais do país (Diário de Natal, Diário de Pernambuco, O Povo e Folha de São Paulo) uma longa reportagem que terminava assim: ?Bem… enquanto as sondas não vêm para furar o chão da terra de Santa Luzia de Mossoró, pessoas curiosas ou estudiosos sérios vêm de longe para ver o óleo de cor negra brilhante, viscoso e com forte cheiro de alcatrão, que corre pelas ruas da cidade. Frascos são presenteados a amigos de outras localidades, acompanhados de livro Alguns apontamentos sobre o petróleo mossoroense, publicado pelo pesquisador, historiador, estudioso da paleontologia e entusiasta pelas coisas mossoroense, dr. Jerônimo Vingt-un Rosado Maia?.