Pecados Políticos

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 25 jun. 2007.
O Mossooroense. Mossoró, 28 jun. 2006.
Metropolitano. Parnamirim, 20 jul. 2007.

Desde março passado que eu tenho fugido de comentar qualquer coisa relacionada com o cenário político nacional ou mesmo estadual. Logo eu, que sou aquilo que é conhecido como “um animal político”, isto é, uma pessoa que gosta de falar e discutir sobre política, tanto do ponto de vista ideológico como da práxis. Ideologia entendida como um conjunto articulado de idéias, valores, opiniões e crenças; práxis com a atividade, a ação e o exercício da política. Política entendida como proselitismo partidário e a ciência da administração dos negócios da nação, dos Estados e dos Municípios e não a atividade exercida simplesmente pela disputa dos cargos públicos. Por que tenho me furtado a falar sobre esse assunto? Porque o palco esta mais para “políticos animais” que para “animais políticos”.

Já vai longe o tempo em que nós, o povo, tínhamos motivos para nos orgulhar dos dirigentes deste imenso e maravilhoso país. Não porque eles eram santos, imaculados, limpos e transparentes. Não. Isso nunca houve. Os pecados políticos sempre existiram. Entretanto em sua grande maioria eram pecados veniais, leves, dignos de desculpa; perdoáveis. Os pecados maiores e graves – iguais aos mortais, àqueles que, segundo a doutrina cristã, levam à danação da alma – eram praticados às escondidas e, quando descobertos, seus atores eram condenados, execrados pela opinião pública. Houve até um presidente da República, Getulio Vargas, que se suicidou quando as entranhas do seu governo foram escancaradas e a sujeira de sua cocheira foi jogada às vistas de todos.

Mesmo que pecadores, ninguém tinha o descaramento de se dizer pecador convicto. Ideologicamente, todos diziam que buscavam o melhor para o país e para o povo. Isso era importante porque os políticos transmitiam a nós, o povo, o ideário do bem, do bom caráter, do desejo de ser honesto. O que é que vemos hoje? Um governo que diz, às claras, que assumiu o poder porque pensava uma coisa e dizia outra, quando estava na oposição (isso é, mentia); uma Ministra da República, que tem o despudor de mandar o povo “relaxar e gozar”; um ex-desafeto do Presidente, que inclusive pedia a sua cassação, nomeado Ministro; um outro diz que o apagão dos aeroportos é somente um problema de excesso de passageiros, prova do bem estar econômico dos brasileiros. Quando aos problemas reais ninguém fala. A crise permanente do ensino é empurrada para baixo do tapete, enquanto professores fingem que ensinam e alunos fingem que estudam. As últimas notas de aferimento da qualidade do ensino (público e privado) atentam o atraso do país num setor que é determinante para o nosso futuro. A saúde pública não existe. Seria melhor falar em doenças públicas. Basta ver como anda o atendimento nos hospitais governamentais: filas e mais filas, ambulâncias rodando de hospital e hospital a procura de vaga, atendimento e internações nos corredores, falta de medicamento e material hospital etc. E já se fala em um novo apagão de fato: racionamento de energia elétrica.

Pobre país, pobre povo esse que é simples joguete nas mãos de políticos que somente pensam nos seus ganhos (honestos ou não), nas verbas distribuídas não conforme o interesse da nação, mas pela ação dos lobistas das construtoras. Infelizes de nós que temos representantes que pensam mais em nomear parentes e apaniguados para sinecuras governamentais. Mas… o que se pode esperar de um Congresso, cujo presidente (que acumulava essa função com a presidência do Senado) teve que renunciar para não ser cassado: Antonio Carlos Magalhães, em 2001. No mesmo ano, o então senador Jader Barbalho, que disputou a presidência com ACM, também teve que renunciar, também para não ser cassado. O primeiro foi reeleito senador, Jader foi eleito deputado federal. Não devemos nos esquecer que o Collor, aquele que era mais que amigo do PC Farias e que foi cassado pelo Congresso, como desonesto. Ele voltou. Agora como senador.

A bola da vez é Renan Calheiros. Ele prevaricou contra a sua esposa, quando a traiu e teve uma filha com outra mulher, uma jornalista. Mas isso é problema particular – apesar de que a minha opinião é de que homens e mulheres públicos não têm vida privada, pois os crimes privados terminam por se repetirem no âmbito públicos. Entretanto o imbróglio não é esse, é que “o honrado senador presidente do Congresso Nacional”, não tem renda suficiente para pagar a milionária pensão que paga ao seu “caso extraconjugal”. Primeiro o Renan se apresentou como vitima de chantagem; depois com documentos aparentemente falsos e, consequentemente, como estelionatário fiscal. Penso que o senador e a jornalista se merecem.

Por aqui, na Província, como lá na corte, em Brasília, há reflexos das bandalheiras praticadas por políticos. O que nos pode salvar é a atuação dos políticos honestos (sim, ainda os há), mesmo que eles sejam minorias aqui e lá. Basta que comecem com atos simples. Por exemplo: lutem para acabar com a partinha das remunerações dos assessores parlamentares (inclusive nas Câmaras Municipais).