PASSADO, PRESENTE & FUTURO

Tomislav R. Femenick
O Globo. Rio de Janeiro, 15 set. 2008
Tribuna do Norte. Natal, 14 set. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 13 set. 2008

Duas noticias recentemente divulgadas, devem nos causar preocupação. A primeira delas diz que algumas empresas estão tendo que formar tecnicamente os candidatos a preencher as vagas de emprego, porque não há técnicos capacitados no mercado. Isso está acontecendo nos setores que usam tecnologia mais avançadas e, também em outros; na construção civil, há escassez de mestres-de-obras. A outra noticia fala que o Brasil está perdendo a corrida com outros países em desenvolvimento, quando se trata de geração de novos conhecimentos e de como convertê-los em resultados práticos. Essa última conclusão é de um estudo do Banco Mundial, recém divulgado – somente 0,18% das patentes internacionais são brasileiras e aqui aplicamos apenas 1% do PIB em pesquisas cientificas, enquanto na China eles aplicam quase o dobro. Esse fato pode vir a ser um grande empecilho para o nosso desenvolvimento futuro.

Se formos procurar as causas dessa acomodação, talvez as encontremos em nosso passado de sociedade escravista colonial e nas contradições ímpares desse tipo de modo de produção. Tomemos a tecnologia sob dois aspectos distintos: como forma humana de realizar um trabalho e como emprego de técnicas mecânico-científicas de aprimorar um serviço; a divisão do trabalho e a qualidade dos instrumentos de trabalho. É fato sabido que a escravidão somente permitiu a divisão do trabalho, até determinado ponto. Se por um lado a “plantation”, a grande plantação, era quase que auto-suficiente, por outro o escravo que plantava era o mesmo que cuidava, cortava, transportava e moia a cana, às vezes participando da feitura do açúcar. Em outras palavras: todos formavam um grande contingente de mão-de-obra não especializada. Entretanto, não há porque dizer que não houve mão-de-obra qualificada no sistema escravista. Houve sim, porém não era a síntese do regime, era um apêndice ao grande exército de escravos utilizados em todos os serviços, situação que evidenciava um regime de trabalho com emprego de baixo índice de tecnologia e, consequentemente, com a utilização de instrumentos de trabalho que agregavam pouco desenvolvimento tecnológico.

Há aqui duas perguntas a responder. Primeira, o trabalho escravo não visou nenhum progresso técnico? Segunda, o escravo não sabia usar novas técnicas de trabalho? Alguns autores focam suas luzes nas inovações técnicas, existentes em alguns setores do escravismo, chamando a atenção para: a) a complexidade e alta produção dos grandes engenhos hidráulicos, operados por escravos; b) a utilização da máquina a vapor na produção do açúcar na Jamaica, desde 1768 e, por último, c) o uso de barcos a vapor e de trens, no transporte da produção escravista. A essas posições contrapõem-se outras que afirmam que o fato mais característico na cultura de açúcar colonial escravista é a “estabilidade da técnica” (a quase não inovação) do processo de produção.

De fato, há dois exemplos típicos da paralisa, do torpor tecnológico existente no regime escravista. Na década de vinte do século XIX, o porto do Rio de Janeiro trouxe da Europa um guindaste que, movimentado por apenas dois homens, poderia fazer o trabalho que antes era realizado por vinte escravos. Essa tentativa de introdução de nova maneira de movimentação de cargas provocou indignação e violentos protestos contra a sua utilização, já que o trabalho era realizado por escravos pertencentes a funcionários da própria alfândega. O guindaste ficou parado por vários anos. Mas a característica do regime era a resistência passiva à introdução de novas tecnologias. Ainda no Rio de Janeiro, os proprietários de escravos que os explorava como serradores de tábuas se recusavam a instalar serras mecânicas, uma vez que o custo dessas máquinas era bem superior ao custo dos escravos necessários para fazer o mesmo serviço. Isso explicaria a origem da recusa generalizada a qualquer inovação.

O historiador Fernando Novais chega a uma conclusão feliz para o problema da tecnologia na América colonial e escravista. Diz ele: “A verdadeira questão não é obviamente entre ‘escravos’ e ‘máquinas’, mas entre ‘escravidão’ é ‘progresso técnico’. O ponto essencial é que o escravismo não é um sistema que funciona à base do progresso técnico; e isso não se afirma com exemplos de que escravos, em determinadas situações, foram empregados no manejo de instrumentos sofisticados. Seria preciso demonstrar que o desenvolvimento tecnológico era constante, e um requisito essencial para a reprodução do sistema. Por outro lado, a própria estrutura escravista bloquearia a possibilidade de inversões tecnológicas; o escravo, por isso mesmo que escravo, há que manter-se em níveis culturais infra-humanos, para que não se desperte a sua condição humana – isso é parte indispensável da dominação escravista. Logo, não é apto a assimilar processos tecnológicos mais adiantados”.

Claro que eventualmente eram incorporadas à economia escravista tecnologias desenvolvidas nos países capitalistas, bem como algumas outras nascidas no próprio seio da escravidão. De todas elas, a que teve mais efeito foi o descaroçador de algodão, que, ao transformar mais rentável a lavoura algodoeira, fez crescer a demanda por mais escravos nos Estados Unidos e no Brasil, quando aqui passou a ser utilizado.

Publicado em O Globo com o título de O PROBLEMA DA QUALIFICAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA NO BRASIL.