Para Aprender Economia

Tomislav R. Femenick
 2ª ed. 6ª reimpressão. São Paulo: CenaUn, 2003.

 

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

PREFÁCIO

Capítulo 1 – PARA APRENDER ECONOMIA

1 – As Origens
2 – O que é Ciência
3 – O que são as Ciências Econômicas
4 – A estrutura das Ciências Econômicas
5 – Fatores de Produção
6 – A base metodológica
7 – Correntes e escolas
8 – Um Modelo de estudo

Capítulo 2 – O QUE É VALOR

1 – O conceito de valor
2 – Conceitos sobre valor
3 – As teorias sobre o valor
4 – Valor e realidade

Capítulo 3 – OS FATORES DA PRODUÇÃO

1 – O conceito de fatores de produção
2 – O trabalho
3 – Os recursos da natureza
4 – O capital
5 – A tecnologia
6 – Fatores de produção e desenvolvimento

Capítulo 4 – AS ATIVIDADES PRODUTIVAS

1 – Conceitos de produção
2 – Evolução do processo produtivo
3 – Função de produção
4 – Produtividade
5 – A organização da produção
6 – As empresas
7 – Os setores produtivos
8 – A classificação da produção

Capítulo 5 – O FLUXO ECONÔMICO

1 – O produto nacional
2 – O destino da produção
3 – A renda nacional
4 – Produção x Renda
5 – Fluxo de produtos x Fluxo de renda
6 – Demonstração gráfica

Capítulo 6 – O PROCESSO PRODUTIVO

1 – O ambiente onde acontece a produção
2 – Como acontece a produção
3 – Os caminhos do produto
4 -Valor agregado
5 – Produzindo o valor agregado
6 – O valor agregado = renda = produto
7 – Renda bruta x Renda líquida

Capítulo 7 – O GOVERNO

1 – A evolução e as escolas
2 – O que é governo
3 – O governo e os fatos econômicos
4 – O “crescimento” do governo
5 – O Estado moderno

Capítulo 8 – OS MEIOS DE PAGAMENTO

1 – Uma categoria comum a todas as sociedades
2 – A natureza da moeda
3 – A moeda hoje
4 – As características da moeda
5 – As funções da moeda
6 – A teoria quantitativa da moeda
7 – O uso da política monetarista

Capítulo 9 – O MERCADO INTERNO

1 – O comportamento do mercado
2 – A lei da procura
3 – A lei da oferta

Capítulo 10 – OS SISTEMAS CONCORRENCIAIS

1 – Como funciona o mercado
2 – O mercado de fatores
3 – O mercado de bens e serviços

Capítulo 11 – O MERCADO EXTERNO

1 – O País e o resto do mundo
2 – As Importações
3 – As Exportações
4 – As trocas de insumos
5 – A alteração da composição dos fluxos
6 – A transações financeiras internacionais
7 – O balanço de pagamentos
8 – Superávit ou déficit

Capítulo 12 – A ERA DA GLOBALIZAÇÃO

1 – Um mundo sem fronteiras
2 – O que é globalização
3 – A concepção do paradigma
4 – Reduzindo as fronteiras
5 – A economia virtual
6 – A internacionalização da produção
7 – Um processo continuado, com algumas paradas
8 – A globalização, a internacionalização e a mundialização
9 – Os blocos econômicos
10 – Síntese

Capítulo 13 – OS FORMADORES DAS CIÊNCIAS ECONÔMICAS

1 – As escolas do pensamento econômico
2 – O mercantilismo
3 – Os fisiocratas
4 – Os clássicos
5 – Os neoclássicos
6 – Keynes e os keynesianos
7 – Os socialistas

Capítulo 14 – A ECONOMIA DA PASSAGEM DO SÉCULO

1 – A miséria e a riqueza do mundo
2 – A ação liberalizante
3 – Os blocos econômicos
4 – Os novos liberais e os neoliberais

Capítulo 15 – A GLOBALIZAÇÃO, O NEOLIBERALISMO E O BRASIL

1 – O neoliberalismo e a globalização
2 – A globalização e o desemprego
3 – As consequências sociais da globalização
4 – Visão micro e macroeconômica da globalização
5 – A economia brasileira e a globalização

Capítulo 1

PARA APRENDER ECONOMIA

1. As origens

Os primeiros estudos e investigações, formalmente estruturados, sobre as relações econômicas da sociedade humana foram elaborados na Grécia antiga. Foram esses trabalhos que iniciaram o processo racional que deu origem às ciências econômicas. A palavra portuguesa “economia” deriva da palavra latina “æconomia” que, por sua vez, vem do grego antigo “oikosnomos”, que significava “governo e administração da casa e da família” – “oikos”, casa, moradia, pátria; “nomos”, lei. Três pensadores gregos destacaram-se pelos seus estudos econômicos: Xenofontes (430 ou 425-359 ou 355 a.C.), Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.). A análise elaborada por Xenofontes está, principalmente, na sua obra Econômico. Platão abordou alguns aspectos da economia em República e Leis. Entretanto foi Aristóteles, entre os filósofos gregos, o que mais se dedicou a interpretar as ações econômicas. Seus estudos estão em Política (livro I), Ética a Nicômaco (livro V) e Econômico. Pela abordagem sistematizada de suas formulações, este último é considerado o fundador das Ciências Econômicas, pois sua abordagem sobre o assunto tanto contemplou a propriedade privada como as finanças públicas.

Nos dias de hoje os estudos econômicos englobam quase todas as atividades humanas e se compõem de uma série de interligações com várias outras ciências, tais como sociologia, geografia, matemática, história, estatística etc.

2. O que é ciência

Ciência é o conhecimento que se tem sobre um determinado assunto, obtido com o emprego de métodos e processos específicos e recomendados para cada área do saber humano. Entende-se por método científico um conjunto de processos utilizados na busca da verdade. É, também, um comportamento de dúvida sistemática e uma forma de se testar as afirmações da própria ciência, submetendo-as a uma análise crítico-construtiva.

A edificação das ciências requer o uso de um método construtivo constituído de uma cadeia de processos que se alternam e se entrelaçam, com avanços e recuos constantes, até se encontrar a verdade do fato pesquisado. Essa sistematização tem quatro etapas distintas:
a) Observação – Consiste na coleta de dados sobre determinados fatos, sobre os quais se propõe fazer um estudo científico. Esses dados devem ser representativos da vida real.
b)Hipótese – De posse desses elementos formula-se um modelo, que nada mais é do que uma explicação provisória para o conjunto de fatos a ele relacionados. É um pressuposto teórico simples que ainda deverá ser comprovado.
c) Experimentação – Essa é a fase em que se testa a consistência da hipótese e se procura encontrar falhas em sua proposta, estrutura e conceito, bem como verificar se suas afirmações são aplicáveis, sempre que o fenômeno acontecer nas mesmas circunstâncias. A experimentação é o confronto da hipótese com o mundo real, quando há oportunidade de se fazerem alterações e correções. Quando suas afirmações não são comprovadas, a hipótese deve ser abandonada.
d) Teoria – As teorias científicas são modelos que procuram representar a realidade de forma organizada. Uma teoria em particular é, então, uma abstração racional que explica um determinado fenômeno ou uma série de fenômenos. Para isso ela deve passar por todas as etapas anteriores e se basear em todos os conhecimentos necessários e disponíveis. As teorias são as bases lógicas e racionais de todas as ciências e fazem com que elas dêem ao ser humano a possibilidade de conhecer e de fazer as coisas.

Segundo Bunge, as ciências são divididas em Formais (que seriam a Lógica e a Matemática) e Fatuais. Por sua vez as, Ciências Factuais subdividem-se em Ciências Naturais (Física, Química, Biologia, Psicologia Fisiológica e Antropologia Física) e Ciências Humanas (Psicologia Cultural, Antropologia Cultural, Sociologia, Economia, Ciências Políticas e História).

Há outras classificações para as ciências. Entretanto em todas elas as Ciências Econômicas estão sempre entre as Ciências Humanas.

3. O que são as ciências econômicas

Ao se iniciar o processo de aprendizado sobre qualquer matéria, uma série de perguntas vem à mente. Sobre as Ciências Econômicas, as primeiras perguntas a ocorrerem certamente serão: O que é Economia?; Que tipo de ciência é essa?; Quais os assuntos que estuda? Outras indagações existirão, mas estas já são o bastante, por enquanto.

Como se viu, a Economia é uma ciência que tem lugar entre as ciências humanas e portanto não é uma ciência exata como, por exemplo, a matemática, a física e a química. O seu campo de atuação é o estudo de como a sociedade usa seus recursos (Fatores de Produção) para a obtenção de riquezas, com vistas a atender as necessidades das pessoas e como essas riquezas são distribuídas e consumidas pela sociedade, partindo do pressuposto de que os recursos são limitados e as necessidades são ilimitadas. Portanto, a preocupação de todas as teorias econômicas é o bem estar das pessoas. Todo o esforço das Ciências Econômicas é desenvolvido para atender às necessidades humanas.

E que necessidades são estas? Elas são de dois tipos: as biológicas, (também chamadas de naturais ou primárias) e as sociais. As primeiras representam as exigências para a sobrevivência do ser humano, tais como alimentação, abrigo e vestuário. Já as sociais variam com os hábitos de cada grupo de pessoas e, em épocas diferentes, podem variar no mesmo grupo. Quanto mais desenvolvida for a sociedade, maiores serão as aspirações de seus integrantes, pois elas estão relacionadas com desejos de status que são variáveis de lugar para lugar, de época para época. Assim, um nativo da selva amazônica para se locomover certamente desejará uma canoa; um habitante de uma metrópole moderna, um automóvel.

4. A estrutura das ciências econômicas

As Ciências Econômicas dividem-se em dois grandes segmentos de estudo: a Microeconomia e a Macroeconomia.

a) A Microeconomia desenvolve as:

- Teoria do Consumidor.
– Teoria do Produtor.
– Teoria da Produção.
– Teoria da Distribuição ou Repartição.

Até as primeiras décadas do século XX, as teorias econômicas clássica e neoclássica estiveram voltadas quase que somente à Análise Microeconômica, enfocando o exame do comportamento dos agentes econômicos privados (consumidor e produtor), através do que procurava a eficiência e o equilíbrio do sistema econômico.

Por causa dessa origem teórica, a Microeconomia é também chamada de teoria dos preços, uma vez que postula a articulação e coordenação das ações dos produtores e consumidores, através do sistema de livre funcionamento dos preços. Ao estudar a formação dos preços, a Microeconomia analisa: a oferta dos bens e serviços de consumo (comportamento dos produtores) e a demanda desses bens e serviços (comportamento e reação dos consumidores); o mercado em suas várias formas (monopólio, oligopólio e livre concorrência); a oferta e procura de Fatores de Produção e suas respectivas remunerações.

Partindo de um enfoque particular (produtor e consumidor), a Microeconomia atinge todo o sistema econômico, via preços livres. O meio usado é a divisão em setores específicos. Com a integração das quatro ramificações teóricas, toda a vida econômica é abordada e analisada pela Microeconomia, processo teórico elaborado com vistas a determinar as condições gerais de equilíbrio da economia, a partir do comportamento autônomo dos agentes econômicos individuais – produtores e consumidores.

b) A Macroeconomia estuda as:

- Teoria dos Agregados.
– Teoria Geral do Equilíbrio e Crescimento.

Por sua vez, a Teoria Geral do Equilíbrio e do Crescimento se subdivide em: Teoria da Moeda, Teoria das Finanças Públicas, Teoria das Relações Internacionais e Teoria do Desenvolvimento.

São as quatro teorias microeconômicas (do consumidor, do produtor, da produção e da distribuição) e as cinco teorias finais da macroeconomia (dos agregados, da moeda, das finanças públicas, das relações internacionais e do desenvolvimento) que proporcionam as condições para a elaboração e aplicação das Políticas Econômicas.

5. Fatores de produção

Os elementos básicos com que as Ciências Econômicas trabalham são os Fatores de Produção que são os recursos de que as pessoas e, consequentemente, a sociedade (que pode ser um país, um Estado, uma comunidade etc.) dispõem para produzir qualquer bem ou serviço. Eles se dividem em quatro categorias:

a) Trabalho – Físico ou intelectual.
b) Recursos da Natureza – Terra, água, vento, sol, mineral, animal e vegetal de florestas naturais.
c) Capital – Tanto pode ser o dinheiro em uso, chamado de Capital Financeiro, como os meios de produção (prédios, máquinas, computadores etc.), conhecidos como Capital Produtivo.
d) Tecnologia – Entendida como a maneira de se fazerem as coisas e não os objetos empregados para fazê-las; por exemplo, os programas de computadores e não os computadores.

Todos esses Fatores de Produção são recursos limitados, ou porque eles não existem em quantidades compatíveis com as necessidades gerais da sociedade ou porque não estão disponíveis para uso por essa mesma sociedade. Em economia, o emprego usual do termo riqueza não está ligado nem aos tesouros dos piratas nem às fortunas dos xeques árabes do petróleo. Para os economistas, riqueza são os bens e serviços obtidos com o emprego dos meios de produção. Por exemplo, bens são os automóveis, as geladeiras, as casas, as pizzas, os cadernos, os livros, os móveis, as roupas; serviços são os transportes coletivos, as peças de teatro, o ensino. Esses bens e serviços visam atender às necessidades básicas do ser humano (abrigo, alimento, vestuário) e também às suas necessidades sociais. Em qualquer circunstância, a sociedade sempre terá necessidades ilimitadas desses bens e serviços, se não em quantidade, porém em qualidade, isto porque a própria evolução social redefine o que seja necessidade. A indústria automobilística é um exemplo: há alguns anos, toda família necessitava de um carro, depois o objetivo era o segundo automóvel da família, hoje cada adulto da família necessita de um carro para uso individual. Por decorrência, se antigamente a grande maioria das residências não possuíam garagem, hoje as ofertas imobiliárias anunciam apartamentos com duas, três ou mais vagas (para carros) destinadas aos moradores e visitantes.

As Ciências Econômicas também estudam a distribuição da riqueza, analisando ou projetando a maneira como os bens e serviços, produzidos em uma dada sociedade chegam às pessoas que integram essa mesma sociedade, isto é, como essa riqueza é distribuída. Além da própria distribuição entre as pessoas, analisa também a distribuição entre regiões, entre profissões, entre classes e grupos sociais etc.

Passado despercebido, às vezes, o aspecto de como se dá o consumo da produção é um indicador dos mais importantes do estado da economia de uma sociedade. As sociedades produzem bens e serviços que, por sua vez, conforme o seu uso, dividem-se em bens e serviços de consumo e de produção. Quanto maior a necessidade de uma sociedade de produzir bens de consumo menos desenvolvida será ela. Ao contrário, quanto maior for o percentual de bens de produção maior será o índice de bem estar já atingido por essa comunidade.

6. A base metodológica

Como ciência a Economia usa uma série de métodos para formular seus modelos, teorias, princípios e leis. Dentre as inúmeras ferramentas metodológicas que emprega, as mais usuais são: o levantamento dos elementos a serem estudados, a “construção” do modelo teórico, o teste do modelo com a realidade objetiva e, finalmente, a formulação das teorias, princípios e leis. Durante todo esse processo, usam-se como instrumento de trabalho os métodos de indução e de dedução.

Na primeira fase, durante o levantamento dos dados, a economia descreve e classifica os elementos pesquisados – por exemplo: identifica a renda de determinado grupo de pessoas, o valor de alguns objetos oferecidos à venda, a forma de comercialização desses produtos e sua origem, se nacionais ou importados. Na segunda etapa, “constrói” uma hipótese econômica que poderia ser: “em determinada região, quanto maior a renda das pessoas maior a tendência para consumo de produtos importados”. Depois de preparado o modelo, as suas proposições modais são confrontadas com o comportamento real da sociedade, ou seja, deve-se pesquisar se as pessoas de maior renda, daquela determinada região, são realmente compradores preferenciais de produtos importados. É claro que este caso não é um modelo de teoria econômica (que requer um exemplo com pressupostos muito mais amplos e elaborados, o que não seria recomendado apresentar agora); é apenas um instrumento para facilitar o aprendizado de como se faz uma teoria econômica.

E como se usam a indução e a dedução em todo esse trabalho? Primeiro deve-se entender o que esses termos significam em Metodologia Científica. Ambas, a indução e a dedução são formas de raciocínio, isto é, de reflexão sobre algo. Ao contrário do pensamento não científico, por natureza espontâneo, dispersivo e descomprometido, o pensamento científico é uma reflexão sistematizada, dirigida e planificada. Assim a reflexão leva a conclusões mais acertadas e próximas da verdade. Seu propósito é chegar a afirmações verdadeiras porém, para isso, é necessário partir de premissas também verdadeiras. Os dois métodos se diferenciam entre si em formas e conteúdos essenciais, como veremos a seguir:

a) Indução – O método indutivo parte da observação de um certo número de casos, acontecimentos, fatos, comportamentos etc., dos quais se tira uma conclusão aplicável aos elementos observados. Essa mesma conclusão é aceita como aplicável para um universo maior de elementos da mesma natureza, mesmo que todos eles não tenham sido objeto de observação, isto é, a indução aceita como geral o resultado de observação realizada em um número particular de fatores. Dois exemplos clássicos são citados como erros da indução: o sol nasce todos os dias, portanto no futuro o sol também nascerá todos os dias; até o século XVIII, todos os cisnes conhecidos pelos naturalistas eram brancos, portanto todos os cisnes tinham que ser brancos. O sol não nasce todos os dias nas regiões polares do globo terrestre, onde os dias e as noites se revezam em períodos muito mais longos do que doze horas cada, às vezes durando dias seguidos. Além do mais, um dia o próprio sol deixará de existir. Quanto aos cisnes, há cisnes negros na Austrália. Em ambos os casos não houve erros de raciocínio, houve premissas falsas.
No modelo sobre o consumo de pessoas de alta renda, citado em página anterior, se realmente houve condições de identificar, se não todos os consumidores mas, uma maioria representativa, tem-se uma base verdadeira para se chegar a uma formulação teórica também verdadeira.
b)Dedução – O processo dedutivo parte de um antecedente para chegar a um consequente, ou seja, parte do conhecido para o desconhecido. Aqui há um caminho quase que inverso da indução. A dedução toma um universo maior de fatores (antecedente), para concluir sobre um número menor ou mesmo singular de fatores iguais (consequente). Assim, no exemplo adotado, pode-se dizer que, se tudo indica que pessoas de maior renda tendem a comprar produtos importados, todas as pessoas de alta renda – inclusive qualquer uma pessoa determinada – só compram produtos importados, quando estes estão disponíveis. Certamente essa seria uma conclusão inverídica, mesmo que o antecedente fosse uma verdade comprovada.

7. Correntes e escolas

Há pelo menos duas razões pelas quais existem divergências entre os economistas: a primeira – sendo uma ciência não exata, a Economia congrega idéias divergentes e até opostas entre si; a segunda – e talvez a mais importante, o pensamento econômico tem componentes ideológicos. O estudante de qualquer das ciências humanas, incluindo-se, portanto, o de Economia, deve sempre ter em mente um fato essencial para a compreensão das ciências: todos os modelos, teorias, princípios, leis e formulações possuem um forte componente ideológico. Essa carga ideológica resulta da própria maneira de pensar dos cientistas, pois eles raciocinam de acordo com as suas respectivas formações acadêmicas, histórias pessoais, maneiras de formular pensamento, raciocínios, lógicas etc., todas elas com forte presença de matizes ideológicos.

As ciências têm por objetivo entender o comportamento do mundo real, tendo por base o “estado da arte” (o conhecimento acumulado até determinada data) de cada ciência. Por isso sempre há constantes alterações e mudanças das “verdades” em todas as ciências. As verdades científicas são, portanto, as verdades que se conhecem em determinadas épocas da história da humanidade. O avanço do conhecimento resulta no sepultamento de velhas teorias e no surgimento de novas.

Durante a transição entre a verdade antiga e a nova, há um período de discordância entre as correntes opostas de pensamento, até que uma das escolas “prove” a sua teoria. Há na história um exemplo célebre: a terra sempre foi redonda e sempre girou em torno do sol, mas houve época em que a ciência explicava que o planeta terra era plano e que o sol e todos os outros objetos celestes giravam em torno dele. Essa teoria, embora contestada por alguns cientistas, era aceita como verdadeira até que Colombo, Américo Vespúcio e, principalmente, Fernão de Magalhães provaram que a terra era redonda, comprovando que as idéias de Copérnico e Galileu eram as corretas.

A Economia, como se conhece hoje, é uma ciência nova, surgida no final do Século XVIII, possuindo muitos campos de estudos que ainda não foram esgotados, sobre os quais os economistas discordam, destacando-se as explicações sobre as relações sociais, objetos da própria Economia, concepção do que seja valor e emprego político da ciência. Essas divergências persistem em decorrência do fato de as cogitações tratadas pela Economia não poderem ser testadas em laboratórios, de forma que as teorias possam ser submetidas a experiências controladas que repitam as mesmas condições e apresentem os mesmos resultados – as Ciências Econômicas possuem um componente imprevisível, o comportamento e as reações do próprio ser humano. O teste das teorias econômicas é, então, substituído pelo rigor científico exigido na sua formulação, rigor esse que é interpretado de forma diferente por cada uma das várias correntes de pensamento, resultando na introdução de elementos particulares, variáveis de uma escola para outra, podendo ser até puramente pessoais ao variar de um economista para outro.

8. Um modelo de estudo

Para mais facilmente entender como funciona a economia, adotou-se um modelo abstrato segundo o qual, partindo de uma situação teórica simples, vão-se, paulatinamente, agregando novos elementos, até chegar ao mundo real com toda sua complexidade de relações econômicas. Assim, inicialmente não serão estudados os fatores governo, comércio exterior, moeda, instituições financeiras etc. À medida que se entende uma fase, adicionam-se novos elementos e passa-se para a fase seguinte até que se possa analisar a sociedade como um todo, como ela é realmente

Capítulo 2

O QUE É VALOR

1. O conceito de valor

O caminho para se aprender Economia começa em estradas bastante acidentadas, mas esse percurso pode ser facilitado, se se escolhe a trilha com menos obstáculos. Existe um problema, porém, para o qual não há contorno: as várias teorias de valor. Deve-se estudá-las para que se possa compreender a própria economia, pois, sem valor não existe nenhum modelo econômico, nenhuma teoria, lei ou qualquer outra coisa relacionada com as Ciências Econômicas. Deve-se, portanto, começar aprendendo o que é valor, um conceito que é expresso de formas diferentes, conforme as diferentes escolas de pensamento.

É bom destacar que uma das maiores e mais controvertidas formulações das Ciências Econômicas é, sem dúvida, aquela que explica a idéia do valor dos objetos. A discussão sobre essa matéria é tema de vários livros. É claro que aqui não se vai esgotar o assunto, mas apenas abordá-lo usando uma linguagem menos tecnicista possível.

2. Conceitos sobre valor

Conceitualmente valor é a relação comparativa que se faz de um objeto com outro. Nas teorias de valor esses objetos devem atender a algumas ou pelo menos a uma necessidade humana e não serem abundantes e ilimitadamente disponíveis. Somente assim eles adquirem a qualidade de objetos econômicos que se dividem em bens (estes os de natureza material) e serviços, muitas vezes simplesmente denominados bens.

Alguns pré-requisitos são aceitos, em nível maior ou menor, quando se discutem as várias correntes de pensamento econômico. Esses pontos, que se apresentam a seguir, necessariamente devem ser entendidos para que se possa compreender o mecanismo da formulação de construção das teorias de valor. O primeiro deles diz que as mercadorias para terem valor necessitam ter valor de uso e valor de troca – um deles ou ambos. E qual a diferença entre esses valores, aparentemente tão similares? O segundo estabelece que valor não é preço. Por último, deve-se entender o que é valor absoluto. A seguir são apresentados todos esses conceitos:

a) Valor de uso – É a característica qualitativa das mercadorias, pela qual elas devem atender a algum desejo ou necessidade humana, quer seja material quer seja social. Todas as coisas úteis, portanto, tais como roupa, alimento, carro, ensino, circo e tudo o mais que é objeto de desejo do ser humano têm valor de uso, pois as pessoas têm interesses em possuí-las ou usá-las. Se uma dada mercadoria não atender a esse requisito, consequentemente, não tem valor de uso. É o interesse que as pessoas têm por uma mercadoria que lhe atribui valor de uso.
b) Valor de troca – O valor de troca de uma determinada mercadoria é a relação quantitativa que um bem tem, quando comparado com outros bens. Se o valor de um determinado livro for igual a uma sessão de cinema, ou a dois lanches, ou a uma corrida de táxi ou a uma dúzia de lenços em uma promoção de loja, conclui-se que todos têm o mesmo valor de troca. No exemplo citado, pode-se dizer que o valor relativo do livro é igual a uma sessão de cinema, a dois lanches, a uma corrida de táxi e a 12 lenços.
c) Valor Absoluto – Outro pressuposto é o conceito sobre o valor absoluto, isto é, um atributo que bens e serviços adquirem nas sociedades que possuem um meio de troca padrão. Esse padrão pode ser uma mercadoria (sal ou ouro, por exemplo) ou mesmo a moeda circulante no país (o real, no Brasil), no bloco econômico a que o país pertença (o euro, nos países do União Européia) ou até a moeda de outro país (o dólar norte-americano, no caso da Argentina). O meio de troca padrão transforma-se no paradigma, o referencial de valor de troca de todas as outras mercadorias. Se o livro do exemplo anterior custar R$ 10,00, um lanche não custará meio livro, mais R$ 5,00; um lenço custará R$ 0,83 e não do livro.
d) Valor não é preço – O valor de uma determinada mercadoria é proporcional à sua importância para a sociedade enquanto que o seu preço é o quanto ela vale em relação à mercadoria padrão (sal ou ouro) ou à moeda circulante na sociedade. Enquanto os preços são apenas a expressão monetária (numérica) dos bens e serviços, em determinado instante, o valor é uma medida de prazo mais longo.

3. As teorias sobre o valor

O problema fundamental nas questões que tratam do valor dos objetos é encontrar a sua essência. Aqui está o ponto central do combate teórico sobre o que seja valor, conflito este que acontece entre os teóricos do pensamento econômico desde o final do século XVIII ou quando a noção do valor começou a ser discutida cientificamente. Essa controvérsia parte do princípio axiológico da identidade implícita (próprio de) ou explícita (externa) do valor dos objetos e serviços; em outras palavras, se os bens e serviços têm ou não valor por si mesmos ou se esse valor lhes é atribuído.

Em economia, existem duas correntes principais de pensamento sobre o que seria valor: as teorias objetivas, iniciadas por Adam Smith e David Ricardo e, depois, cooptadas e desenvolvidas pelos pensadores socialistas, e as teorias subjetivas, originadas nas escolas marginalistas. A simbiose (associação) dessas duas concepções acabou por criar uma terceira compreensão sobre o assunto, as teorias “mistas”. Todas essas correntes estão melhor detalhadas a seguir:

a) Teorias objetivas – Partem da idéia de que a atividade econômica seria um resultado da divisão do trabalho, só acontecendo no âmbito da sociedade como um todo e não atribuindo importância às atitudes isoladas das pessoas, isto é, cada grupo de pessoas se dedicaria a realizar determinado tipo de atividade econômica, uns como agricultores, outros como comerciantes, outros como operários e assim por diante.
Essa teoria sofreu um processo evolutivo que se iniciou com a concepção de valor de Adam Smith, para quem o valor de um bem é decorrente do custo de remuneração do uso dos Fatores de Produção (Recursos da Natureza, do Trabalho e Capital). David Ricardo reduziu este custo ao pagamento dos Fatores Trabalho e Capital e Marx, para o Trabalho Socialmente Necessário. Essa abordagem socialista estabelece o princípio segundo o qual o valor das mercadorias e serviços é o “valor-trabalho” necessário para a sua obtenção, ou seja, o tempo e o trabalho que forem gastos por todos os indivíduos envolvidos no processo de elaborar esses bens. Exemplificando: o valor de uma roupa confeccionada com tecido de algodão seria o tempo do trabalho do agricultor que plantou e colheu o algodão, do transportador que o levou até à fábrica onde o algodão foi beneficiado, dos trabalhadores dessa fábrica (operários, técnicos, funcionários de escritório etc., mão de obra especializada ou não), do transportador que levou o algodão até à fábrica de fios e tecidos, dos trabalhadores dessa fábrica, do transportador que levou o tecido até à fábrica de roupa, dos seus trabalhadores etc., até dos empregados da loja que venderam a roupa. Não se deve esquecer dos envolvidos indiretamente em todas essas operações: os trabalhadores das fábricas de equipamentos agrícolas, de adubos e inseticidas; os publicitários; os funcionários públicos e outros mais. Assim, o valor surge no processo de produção. Todo valor advém do fato de se produzir e nenhum valor existiria fora do trabalho social. Além do mais, o valor de cada item seria algo fixo, intrínseco e imutável. Essas teorias tomam por base a oferta.
b) Teorias subjetivas – Essa corrente de pensadores parte de uma outra premissa: todo objeto ou serviço deve possuir uma utilidade, visando satisfazer um desejo ou uma necessidade humana, chegando-se a um princípio de “valor-utilidade”. Isto estabelecido, o valor é o resultado da escassez ou abundância dos bens e serviços e da soma das preferências que as pessoas têm por eles. Explicando melhor: o valor de uma roupa confeccionada com tecido de algodão está na sua utilidade, na quantidade disponível no mercado para venda e no número de pessoas que estão interessadas em comprá-la (pela sua qualidade, modelo etc.).
Alguns pensadores do século XVII já externavam o conceito de que o valor dos bens está na sua característica de atender às necessidades do homem. Dois séculos depois, o economista inglês Williams Jevons desenvolveu o modelo de uma das teorias subjetivas do valor que interliga o interesse que a sociedade tem pelo bem, a quantidade disponível no mercado e o seu valor. Por esse raciocínio, fatores externos são os atribuidores de valor aos objetos, podendo esse valor ser alterado para mais ou para menos, em decorrência da mudança do comportamento da oferta e da procura, ou seja, do comportamento do mercado. A ênfase dessas teorias está na procura.
c) Teorias “mistas” ou terceira abordagem – Muitos pensadores socialistas (dos vários matizes ideológicos) e marginalistas (liberais de vários graus) adotaram uma linha de pensamento que inclui tanto os conceitos das teorias objetivas como das teorias subjetivas do valor. Por essa linha de raciocínio, o valor de um bem ou serviço estaria na sua utilidade, na necessidade que as pessoas tivessem deles, no interesse que essas mesmas pessoas expressassem por eles e no custo social exigido para a sua produção.

4. Valor e realidade

A análise das três teorias evidencia um fato relevante. Partindo-se do custo social de produção ou do interesse da sociedade por uma determinada mercadoria (não importa qual a base) ela tem valores diferentes para cada grupo de pessoa, entretanto o preço desse bem é igual para todas as pessoas. Para os economistas que privilegiam o mercado como regulador dos preços, a explicação seria que o preço é o resultado do nivelamento entre o custo social de produção (oferta) e a satisfação que esse produto proporciona à sociedade (procura). Para àqueles que vêem no preço a expressão do valor-trabalho, a explicação seria que os produtores somente produzem se o preço cobrir a remuneração do esforço exigido para elaborar a mercadoria.

A questão fundamental seria, então, qual das correntes é a mais verdadeira e mais indicada para ser adotada? Aqui se depara uma condição da Ciência: As ciências, quaisquer que sejam elas, não devem comportar dogmas ou pontos indiscutíveis, senão deixam de ser ciências para se transformarem em ideologias. Não há um caminho, há vários. O melhor é aquele que melhor evidencia a realidade encontrada na sociedade, que melhor reflete essa realidade e que, ao mesmo tempo, é objeto e comprovação da teoria. Isso estabelecido, pode-se dizer que a terceira abordagem, por ser mais ampla e mais abrangente e, conseqüentemente, comportar mais elementos possíveis e, ainda, por ser mais flexível, tem sido a mais comprovada na realidade e em maior número de sociedades.

(…)

Capítulo 12

A ERA DA GLOBALIZAÇÃO

1. Um mundo sem fronteiras

No início do século, havia duas instituições antagônicas, entre si, que se posicionavam em campos contrários, em quase todos os aspectos, a Igreja Católica e o movimento comunista. Tinham somente uma coisa em comum: enquanto os comunistas propagavam a internacionalização do seu movimento, seguindo a palavra de ordem do manifesto de Marx e Engels “trabalhadores de todos os países, uni-vos”; a Igreja também não respeitava fronteiras porque ela era, como sua própria doutrina e nome já diziam, católica, universal. No entanto, embora no decorrer do século os partidos comunistas assumissem o governo de vários países europeus, asiáticos, africanos e até na América, Lênin, líder da revolução russa de 1917 e fundador do Estado soviético, primeiro governo comunista do mundo, pôs fim às pretensões “internacionalistas” dos marxistas. Por sua vez, a Igreja de Roma não conseguiu uma presença marcante no mundo árabe, na Ásia e na África; sua influência preponderante conteve-se na Europa e nos países americanos de colonização ibérica. Porém ambos convergiram novamente em outro terreno: comunistas e católicos elegeram o mercado como o vilão do século, estes últimos principalmente depois do Concílio Vaticano II e da Teoria da Libertação e com mais intensidade na América Latina.

A discussão de que comunistas e católicos estivessem certos ou errados restringe-se apenas ao campo ideológico. Entretanto não há como contestar a realidade dos fatos: nesta passagem de século, para o bem ou para o mal da humanidade, a globalização do mercado se impôs às nações e à própria humanidade. E a internacionalização mesma que eles não conseguiram, conseguiu-a o mercado que eles tanto combateram.

2. O que é globalização

Globalização é a palavra da moda nas ciências econômicas. Não como resultado de formulações teóricas, mas como consequência do puro pragmatismo. Os fatos se impuseram aos estudiosos. Para ser sintético, pode-se dizer que globalização, teoricamente idealizada, seria a economia de mercado sem fronteiras, com a menor intervenção do governo nas trocas internacionais. Esse estado ideal ainda não foi conseguido. O que há hoje é uma maior liberdade econômica, com uma crescente parcela da população do mundo beneficiando-se do comércio internacional, quer como consumidora de produtos importados, quer como produtora de mercadorias exportadas.

Por outro lado, a OMC-Organização Mundial do Comércio tem forçado os governos reticentes a liberalizar suas operações de trocas externas, fazendo no comércio o que o FMI-Fundo Monetário Internacional faz ao forçar a desregulamentação das transações financeiras entre as nações. Hoje as lojas de New York vendem como souvenir miniaturas da estátua da liberdade ou do Empire State Building fabricadas na China; enquanto isso em Cingapura ou em outro tigre asiático qualquer são vendidos equipamentos japoneses e roupas produzidas na América Central. Em Pequim e em Moscou pode-se comer um Big Mac, tomando Coca-Cola ou Pepsi Cola. Londres é a sede da afamada linha esportiva Reebok, mas os produtos da marca ali vendidos são fabricados na Coréia do Sul, na Tailândia ou na Indonésia. Os automóveis fabricados em todo o mundo são consumidos, indistintamente, em toda parte do planeta. Há carros “japoneses” fabricados na Europa e nos Estados Unidos. Isso para não falar nos filmes de Hollywood, assistidos nas maiores cidades e nos menores povoados de todos os países – hoje e desde os primórdios da indústria cinematográfica.

3. A concepção do paradigma

A história da humanidade mostra que os povos e os países só conseguem viver isolados por um curto período de tempo, pois o intercâmbio é uma tendência natural entre os homens. Nenhum país, mesmo os mais ricos e poderosos, consegue viver por muito tempo isolado do resto do mundo. Dependendo do período da história, os povos omitem-se, entram em conflito ou cooperam entre si. As relações entre as nações têm-se ampliado – com avanços, recuos e novos avanços – ao longo da história. Hoje elas englobam tanto as relações econômicas quanto as políticas, culturais, religiosas etc. No momento, vive-se um período de cooperação que parece ser de natureza duradoura.

Para se poder localizar, historicamente, o início do processo de internacionalização das relações comerciais, há de se retroceder aos descobrimentos ibéricos do final do século XV, quando portugueses e espanhóis lançaram-se ao mar desconhecido, em busca do caminho das Índias. Esse passo quebrou as economias fechadas da Europa de então, proporcionando meios de comercialização de mercadorias europeias na Ásia, África e América e de produtos dessas novas regiões no mercado internacional, se bem que em pequena escala.

O passo seguinte foi o colonialismo, também um movimento europeu, que sedimentou o mercantilismo e intensificou a quantidade das trocas internacionais, objeto mesmo da empresa colonial. Junto com o comércio, intensificaram-se as relações culturais que alteraram costumes e comportamentos de colonizados e colonizadores, num processo de assimilação mútua.

Desmoronado a partir do final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o colonialismo deixou herdeiras: as empresas multinacionais que, a partir de então, controlaram o comércio entre as nações do mundo, naquilo que se convencionou chamar de imperialismo econômico. Essas organizações são as maiores de alcance além-fronteiras. Na esfera capitalista, eram as norte-americanas Exxon, General Motors, General Electric, MacDonald, Douglas, Dow Chemical; as inglesas British Petrolium, Guinnes, Rolls-Royce; as alemãs Krupp, Siemens, Bayer; as francesas Alsthon, Citroën, Renault, Elf; as italianas Fiat, Agip, Pirelli; as japonesas Honda, Sony, Mitsubishi, e as suiças Nestlé e Ciba-Geigy. No mundo atrás da cortina de ferro, eram as grandes corporações estatais soviéticas e chinesas – e algumas poucas da Checoslováquia e da Alemanha Oriental – que desempenhavam esse papel, com o mesmo caráter de exploração comercial.

Hoje, nesse passar de século, as multinacionais estão tomando outra feição, estão lentamente perdendo as amarras com os interesses dos países que lhes deram origem e se tornando empresas transnacionais, isto é, organizações sem limites fronteiriços. Essa demorada metamorfose não é resultado de planejamento interno, é consequência de movimentos exógenos a essas empresas. Porém ainda há um longo caminho a ser percorrido.

4. Reduzindo as fronteiras

A globalização comercial não poderia acontecer, entretanto, sem a participação ativa dos governos nacionais. Não como no tempo do mercantilismo, quando buscavam monopólio para as companhias privilegiadas dos seus países, mas, pela contrário, propugnando pela queda das fronteiras, do protecionismo, dos incentivos aos produtores locais, das barreiras alfandegárias e tarifárias, pela cooperação internacional. Deve-se destacar que há uma enorme diferença entre as intenções e os fatos. Os Estados Unidos, o Japão, o Canadá e os países desenvolvidos da Europa, apesar dos discursos neoliberais, ainda possuem fortes esquemas de proteção às suas indústrias e à sua agricultura. Por suas vez os países emergentes ainda relutam em aderir totalmente à nova onda.

Não obstante, alguns movimentos caminham em direção da redução das fronteiras econômicas. A associação de países em organismos regionais, com regulamentação comum aos seus integrantes, é um desses passos. A formação do Mercosul provocou a intensificação das transações comerciais e financeiras entre o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O Nafta, a associação dos Estados Unidos, Canadá e México incentivou o crescimento dos negócios na América do Norte. Na Europa, a Comunidade Econômica teve resultado idêntico. O mesmo aconteceu no Sudeste Asiático.

5. A economia virtual

O desenvolvimento tecnológico, acontecido nas três últimas décadas do século XX, propiciou o aperfeiçoamento, a simplificação e o barateamento dos custos das comunicações internacionais. Uma vasta rede de satélites quebrou a barreira das distâncias entre os povos e forneceu condições para a transmissão de som, imagem e dados em tempo real, transformando o planeta em uma quase aldeia global.

Essas condições deram lugar a uma extensa rede de comunicações, usadas por empresas financeiras do mundo todo. Aplicadores de Londres, Paris, New York, São Paulo, Buenos Aires, Tóquio e Frankfurt, por exemplo, podem-se fazer presentes nos pregões das bolsas dessas cidades, interagindo entre si. Entretanto, as mais ágeis na utilização do sistema são as instituições administradoras de fundos e geradoras de recursos, somando mais de dez trilhões de dólares. Operadores do mercado, em frente dos seus computadores, comandam entrada e saída nas bolsas, aplicando e resgatando somas volumosas em ações de empresas, no mercado de futuros ou em títulos públicos, como se estivessem simplesmente jogando em uma potente máquina de videogame. Vivem um mercado virtual, onde o capital é remunerado quase por si mesmo, quase desassociado da produção.

Nos últimos vinte anos, as empresas do mundo gastaram cerca de US$ 2 trilhões na compra de computadores e seus periféricos. Entretanto, até 1996, os 15 sites mais visitados na Internet eram os de assuntos educacionais. Três anos depois, as páginas mais visitadas da Web são aquelas relacionadas a algum tipo de negócio. As vendas efetuadas pela rede mundial de computadores movimentaram cerca de US$ 80 bilhões em 1998 e calcula-se que no ano seguinte atingiram a casa de US$ 170 bilhões, o que representa um crescimento de 112%. Esses números evidenciam o rumo da Nova Economia, expressão usada para identificar as empresas e negócios virtuais.

Agora uma outra novidade que vai ser herdada pelo novo milênio: as empresas virtuais, não tendo ou quase não ocupando espaço físico, estão se impondo às empresas tradicionais. A America Online (uma provedora da Internet) fundada em 1985, tem suas ações cotadas em bolsa no valor de US$ 164,333 milhões; a Amazon.com (uma livraria virtual, com departamento de brinquedos etc.), fundada em 1994, vale, também em bolsa, US$ 21,202 milhões. As empresas de tecnologia não estão comandando o mercado acionário norte-americano, embora seus papéis já representem 22% do valor de total das ações negociadas nas bolsas do país (com base nos índices Russel das 3 mil maiores empresas do mercado).

Segundo Gregory ZUCKERMAN: “É uma obsessão que produz alguns desequilíbrios. A Dayton Hudson, a quarta maior varejista americana, tem receitas anuaius de US$ 33 bilhões. Elas (as receitas das varejistas americanas) são infinitamente maiores do que as receitas de US$ 1,2 bilhão da Amazon.com. A ação da Dayton não é nenhuma tartaruga: ela subiu 25% este ano (1999), dando à empresa um valor de mercado de US$ 30 bilhões. Mas isso é só um pouco mais do que o da Amazon, cuja ação acumula alta de 63% no ano. (…) Em Wall Street não é muito diferente: 16 corretores fazem recomendações sobre a Dayton Hudson e 25 sobre a Amazon, apesar de a Dayton ter quase quatro vezes mais acionistas institucionais que a Amazon”.

As empresas de tecnologia, de uma forma ou de outra ligadas à Internet, têm até um índice próprio para avaliar a cotação de suas ações em bolsas: o “índice Fortune-50”. Na lista há empresas novas e antigas, como a Princeline.com, fundada em 1998, e a AT&T, nascida em 1875; há a eBay, que tem apenas 138 funcionários, e a IBM que conta com 300 mil empregados no mundo todo; algumas acumulam prejuízos gigantescos como a MCI WorldCom, que registra perdas de US$ 883 milhões, outras têm lucros invejáveis, como a Microsoft com resultados positivos que atingem US$ 7,785 milhões.

As 50 empresas que compõem este índice apresentaram um lucro total anual (não observado o ano fiscal) no montante de US$ 41,172 milhões e têm um valor de mercado (cotação de suas ações nas bolsas de valores norte-americanas) calculado em US$ 2,609,908 milhões. A análise destes números evidencia o quanto a economia virtual é desvinculada da economia real: pela relação “valor de mercado x lucros”, os proprietários dessas ações levariam 63 anos, 4 meses e 22 dias para receberem os seus capitais de volta. O que eles esperam é simplesmente a valorização desses títulos.

6. A internacionalização da produção

Num movimento iniciado logo após a Segunda Grande Guerra, o sistema produtivo mundial sofreu um processo de fragmentação e integração da produção, nunca visto até então. A antiga divisão do trabalho, defendida e, de certa maneira, imposta pelas grandes potências mundiais, segundo a qual alguns países – e mesmo regiões do mundo – eram vocacionados para certos tipos de atividades (o centro industrial e financeiro, a periferia agrícola e mineradora; os países adiantados produzindo bens de tecnologia avançada e os países subdesenvolvidos produzindo matéria-prima com baixo índice de tecnologia) cedeu lugar a uma nova realidade. Barnet e Cavanagh assim descrevem esse panorama: “Na segunda metade do século XX, o sistema produtivo global foi transformado. O aparecimento dos sindicatos, a incorporação da mulher, raça e nacionalidade (como aspectos relacionados) da força de trabalho, as mudanças nas relações trabalhador-administração e a quantidade cada vez maior de bandeiras estrangeiras ondulando nas portas das sedes centrais (das multinacionais) de todo o mundo, anunciaram uma nova era da história do trabalho. As colossais linhas de montagens imaginadas por Henry Ford e Joseph Stalin, entretanto são bem visíveis, muitas delas agora em lugares remotos, um pouco maiores que antes, ainda que o trabalho mundial seja efetuado cada vez menos nessas fábricas. Uma das razões é que a produção de bens foi distribuída entre unidades menores ao redor do mundo, sendo realizada por subcontratados, fornecedores e trabalhadores temporários, muito dos quais cortam, cosem e processam informações em seus lares. Porém a causa principal é que, em todo o mundo, cada vez mais o trabalho não mais se relaciona com o processo de fabricação”.

A série de perguntas a se fazer é: Por que essa reversão de tendência? Por que a industrialização das economias periféricas? Por que isso resultou na industria globalizada? Por que grandes plantas industriais se complementam até com trabalho caseiro? Em primeiro lugar o desenvolvimento das relações financeiras, comerciais e mesmo políticas, após a quebra da fronteira comercial da China e a queda do muro de Berlim, fez com que a antiga divisão internacional do trabalho ficasse irracional. Todas as nações ganharam direito a um lugar ao sol (por mais sombra que algumas ainda façam). Além do mais, nos países do Terceiro Mundo, as matérias-primas básicas são mais baratas assim como o custo da mão-de-obra, aluguéis, tributos etc. A par disso, há o grande despertar da população dos países desenvolvidos para os problemas ecológicos, principalmente para os perigos que os dejetos industriais representam para a saúde pública, os estresses provocados pelo trabalho industrial e os desastres como o provocado pelo petroleiro Exxo Valdez no Alasca. Esses fatos foram uns dos que empurraram as indústrias para os países emergentes.

A grande maioria das industrias instaladas nos países subdesenvolvidos são subsidiárias de empresas localizadas em países do Primeiro Mundo; quando não subsidiárias elas são controladas, associadas ou funcionam à base de licença de marca, patente ou simples transferências autorizadas de tecnologia. Em qualquer dessas formas, elas estariam umbilicalmente ligadas às matrizes detentoras do capital e/ou da tecnologia de produção.

O grande número de implantação de empresas industriais ao redor do mundo resultou na globalização da indústria, ao ensejar que os mesmos produtos fossem produzidos em vários países, utilizando matérias-primas e tecnologias similares, não importando onde sejam produzidos, se no Primeiro ou Terceiro Mundo. A indústria automobilística é um exemplo disso. Além de possuírem subsidiárias em vários países, as montadores de veículos concorrem e se associam entre si, transferindo Capitais e Tecnologias entre países e empresas. O Brasil é um exemplo. Aqui existem fábricas das mais importantes marcas. Porém o que ultimamente vem caracterizando este setor industrial é o arrojo dos grande negócios com visão planetária. As fusões, composições e instalações se espalham pelo mundo todo, resultando na posição apresentada a seguir:

- Daimler/Chrysler – A mais espetacular das operações recentemente havidas na indústria automobilística foi a fusão da Daimler-Benz alemã (no Brasil conhecida como Mercedes-Benz) com a Chrysler americana, acontecida no final de 1998. A nova empresa detém as marcas Mercedes Bens, na Alemanha e Chrysler, Dodge, Jeep e Plymouth nos Estados Unidos, com uma folha de pagamento que contempla mais de 421 mil empregados. Um ano após a fusão, o faturamento da mega empresa superou a marca de US$. 158 bilhões, representando a venda de 4,4 milhões de veículos. A Chrysler e a Daimler-Benz, através de sua controlada Steyr-Daimler-Puch, já eram associadas em uma fábrica que produzia minivans e o Jeep Grand Cherokee. Na China a nova empresa possui 42% da Beijing Jeep, em parceria com a Beijing Automobili Works.

- BMW – A empresa alemã é dona das marcas inglesas Rover, Land Rover, MG e Mini. No ano 2003 receberá a Rolls-Royce, que até lá ficará em poder da Volkswagem. No Brasil está associada com a Daimler/Chrysler em uma fábrica de motores.
– Volkswagem – Na trilha de compra das empresas alemãs, a Volkswagem tem a Audi, na Alemanha; a Seat, na Espanha; a Skoda, na República Checa; a Bentley, na Inglaterra, e a Lamborghini (pela qual pagou US$ 111 milhões) e a Bugatti, na Itália. Até 2003 ficará com a Rolls-Royce inglesa.
– Ford – Tem as marcas Lincoln e Mercury, nos Estados Unidos; Jaguar e a Aston Martin, na Inglaterra; a divisão de automóveis da Volvo, na Suécia, e 35% de participação na Mazda japonesa e 9,7% da Kia, da Coréia do Sul. A empresa coreana fabrica o sub-compacto Aspire para exportação para os Estados Unidos e comercializa os veículos Ford no seu país. Em Michigan, a Ford e a Mazda são sócias na Auto-Alliance, que produz veículos de ambas as marcas. Em Kentucky e New Jersey, a Ford monta veículos da marca Mazda. Na Espanha, o sócio da empresa americana é a japonesa Nissan, para produção de utilitários esportivos. Em Ohio essa associação produz a minivan Mercury Village e a Nissan Quest. A Ford e a Volkswagem se associaram em Portugal para fabricação de minivans.
– General Motors – Nos Estados Unidos possui as marcas Chevrolet, Cadillac, Oldsmobile e Buick, além de controlar a Opel na Alemanha, a Vauxhall na Inglaterra, a Holden na Austrália. Participa com 50% na Saad Sueca e 40% na Maruti da Índia. No Japão tem 37,5% na Isuzu, 20% na Fuji Heavy (fabricante da marca Subaru) e 3,5% na Suzuki. Esta última também monta veículos para a empresa norte-americana. A associação com a Suzuki permite que a GM fabrique carros com essa marca japonesa na Venezuela e possua uma fábrica no Canadá, onde são montados os veículos de ambas as marcas. Na Califórnia a General Motors e a Toyota são parceiras em partes iguais em uma montadora. Em dezembro de 1999, a GM apresentou uma proposta para a compra dos ativos da coreana Daewoo.
– Fiat – A montadora italiana concentra seu controle somente em marcas do seu país: Alfa Romeo, Ferrari, Innocenti e Maserati.
– Renaut – A empresa francesa comprou 37% da Nissan japonesa, e assumiu a responsabilidade pela reestruturação operacional da empresa japonesa.
– Nissan – Por sua vez, a empresa japonesa controla a Infiniti no Japão, participa com 5% no capital da Subaru, é dona da Proton na Malásia e da Lotus na Inglaterra.
– Mitsubishi – Possui 53% das ações da Hyundai sul coreana (controladora da Kia e da Asia Motors). No Japão a empresa fabrica veículos da linha Dodge (Daimler/Chrysler) e os exporta para os Estados Unidos.
– Toyota – A empresa centraliza suas operações de controle de marcas no próprio Japão, onde tem a marca Lexus, controla a Daihatsu com 51,2% do capital e participa da Hino com 10%. Na Austrália, a Toyota e a General Motors são sócias, com partes iguais, em uma fabricação de veículos de ambas as marcas.
– Volvo – No segundo semestre de 1999 a empresa sueca propôs a compra de 78,4% de sua concorrente Scania, por US$ 6,3 bilhões. Antes já possuía 3,5% das ações ordinárias.

As recentes negociações entre as grandes montadoras desencadearam uma onda de entendimentos e rumores envolvendo os fabricantes de veículos. Um deles fala de uma possível fusão entre a Honda, a BMW e a Fiat. Outros falam do desejo da General Motors de assumir o controle da Daewoo coreana e da possível compra da Honda pela Daimler/Chrysler, que também estaria negociando um acordo com a Fiat italiana e a Peugeot francesa, que incluiria uma participação acionária da nova gigante no capital destas duas montadoras. A Peugeot já se pronunciou negando essa possibilidade. A Mistubishi Motors, quarta maior montadora japonesa, estaria negociando um acordo de troca de ações com a Volvo sueca.

Ao sair da esfera automobilística, encontram-se equipamentos de som, de fotografias, computadores e eletrodomésticos – de todos os tipos, portes e com os mais variados níveis de tecnologias – fabricados na Europa, América, Ásia, Oceania e até mesmo na África. O passo seguinte direciona-se, agora, às chamadas indústrias de ponta, àquelas que necessitam de elevados recursos de capital e/ou tecnologia. As empresas aeronáuticas e aeroespaciais norte americanas e da Europa Ocidental se abastecem de componentes no leste europeu e mesmo na América Latina. A indústria de química fina já se instala nas economias periféricas – Química fina é um ramo da atividade química industrial que elabora, a partir de insumos produzidos pelas indústrias químicas de base (p. ex., a petroquímica), substâncias mais complexas, destinadas a aplicações específicas. A química fina se caracteriza por processos descontínuos, em várias etapas e em pequena escala, visando produtos de alta relação preço/peso. As substâncias ativas empregadas na indústria farmacêutica (fármacos), os catalisadores da indústria química e os reagentes de alta pureza, usados em análises e pesquisas químicas, são típicos produtos da química fina.

Há algo mais. Com os computadores pessoais e as redes de comunicação, tipo Internet e outras de intranets, permitindo fácil trânsito de dados e informações entre pontos distantes, não há o porquê de as atividades criativas serem exercidas em locais onde as pessoas ficam juntas fisicamente. Muitos engenheiros, arquitetos, contadores, economistas, publicitários e até administradores de empresas hoje trabalham em suas próprias residências, produzindo muito mais, com um custo muito menor para as empresas, quer como empregados das empresas ou realizando serviços terceirizados.

7. Um processo continuado, com algumas paradas

É a globalização algo novo, algo que somente agora chegou para a humanidade? Não. A internacionalização das relações de negócios é fato muito antigo na história dos povos. O novo é como este fenômeno se apresenta, é a sua intensidade, neste final de século.

a) Primeira Fase: O Império Romano – Os europeus (que geralmente concebem o seu continente como sendo o próprio mundo) dizem que a primeira ocorrência de mundialização da economia deu-se com a expansão do império romano que, ao crescer, estendeu um sistema viário de comunicação terrestre e marítimo para facilitar a ligação entre as várias províncias (e protetorados), permitindo a troca de produtos entre elas e a própria Roma. Paralelamente a isso, Roma espalhou pelo mundo, conhecido da época, a sua língua, a sua moeda, o seu sistema de propriedade privada, as suas leis e o seu modo de pensar. Isso somente foi possível pela proteção que o seu sistema militar dava à economia do império que, por sua vez, sustentava todo o arcabouço imperial. Antes dos romanos, nenhum outro povo – gregos, egípcios, chineses etc. – tinha realizado tal feito.
Após a queda de Roma e o desmantelamento do seu império, a Europa entrou em um período de esfacelamento do governo central e de drástica redução dos negócios. O mundo feudal nada mais era do que a redução do poder, das relações entre comunidades e povos e do comércio. Porém, mesmo então havia um certo nível de trocas comerciais entre nações.
b) Segunda fase: As Descobertas – Considerando global como relativo ao globo terrestre, deve-se entender que o conceito de global envolva algo mais que a mundialização mediterrânica, o que então leva a reconhecer que a primeira etapa real da globalização tenha acontecido com as viagens – termo mais apropriado que descobertas – e os conseqüentes negócios que os ibéricos fizeram no final do século XV e início do século XVI. Estes fatos realmente integraram o mundo, impondo um padrão de trocas comerciais que atingia todos os continentes. O feito ibérico foi seguido e aperfeiçoado por outros povos europeus, tais como, os holandeses, ingleses, franceses etc., que exploraram mais intensamente as rotas abertas pelos portugueses e espanhóis. O açúcar do Brasil e das Antilhas passou a ser comercializado na Europa, na Ásia e na África. Especiarias do oriente – pimenta, nós moscada etc. – eram disponíveis nos mercados de Lisboa, Amsterdã, Bahia, Londres. Tecidos também da Ásia eram vendidos na África, nas Américas e na Europa. Algodão dos Estados Unidos e do Maranhão supria os teares da Inglaterra e dos Países Baixos. O fumo da América era consumido por árabes, europeus, africanos, chineses e hindus. A prata do México e de Potosi e o ouro do Brasil, provocavam inflação na Europa. …Escravos africanos eram vendidos na América, na Europa e na Ásia (o quadro escabroso de uma época). Segundo Aldo Ferrer: “a partir da conquista da América e da abertura das rotas oceânicas para o Oriente, a expansão do comércio intercontinental provocou transformações profundas no desenvolvimento do capitalismo comercial. Maior que o aumento do tráfico intra-europeu nas costas do Mediterrâneo, do Báltico e do Mar do Norte, foram as novas fronteiras abertas pela expansão de ultramar que impulsionaram o desenvolvimento e a transformação do sistema. Em parte porque aumentou o peso relativo do tráfico intercontinental e, consequentemente, o comércio intra-europeu de produtos de ultramar. Porém, sobretudo, porque a conquista e colonização do Novo Mundo e o desenvolvimento das rotas interoceânicas com a África e o Oriente confrontaram as potências atlânticas com problemas radicalmente distintos do comércio tradicional”.

É claro que o produto desse comércio era consumido por uma pequena camada da população do mundo. Nem todo árabe tinha condição de comprar fumo, nem todo londrino podia usar especiarias do oriente. Muito embora já existisse uma rede de comunicação comercial, ligando as partes mais longínquas do mundo, e as trocas de mercadorias fossem em quantidade nunca vistas antes, ainda assim, os produtos importados e exportados por cada região eram em montante que atingia somente uma pequena parcela da população. Além do mais, os fatos econômicos acontecidos em uma região raramente tinham reflexo importante em outras – quando muito a ocorrência da matriz atingia uma ou mais colônias ou vice-versa.

Deve-se levar em consideração que essa foi a época do mercantilismo, quando as potências européias restringiam as transações comercias das colônias às suas próprias matrizes e as instalações produtoras nas colônias. Essas restrições somente foram relevantes na América. Na África e na Ásia o predominante era o assentamento de feitorias com representantes dos governos centrais e alguns poucos colonos.

a) Terceira Fase: A Revolução Industrial e o Novo Colonialismo – Uma outra fase do crescimento do processo da globalização teve início no final do século XVIII, com as revoluções industrial inglesa e republicana francesa; desenvolveu-se com a paz após as guerras napoleônicas e sedimentou-se com o colonialismo europeu na África e na Ásia.

O uso de máquinas rudimentares já era comum bem antes do século XVIII, principalmente em algumas atividades tais como na fragmentação de minério, no acabamento de tecidos, na moagem de grãos, no preparo de madeiras, nos engenhos de açúcar etc. As atividades que exigiam precisão e detalhe (cunhagem de moedas, confecção de móveis, impressão de livros e relojoaria) já contavam com equipamentos mais sofisticados, porém todas elas eram operadas com o esforço humano ou animal. Os trabalhos mais delicados eram exercidos por artesãos que contavam apenas com instrumentos simples, como rocas e teares manuais, limas, serras, tesouras e martelos. O aparecimento das máquinas movidas a vapor (e antes dessas as movidas com força hidráulicas) reduziu, no primeiro instante, a demanda por mão-de-obra, o que provocou a reação dos artesãos e trabalhadores contra as novas técnicas e invenções, causa de desemprego em larga escala.
Porém o uso das máquinas reduziu os custos e ensejou que um maior número de pessoas pudessem adquirir os produtos industrializados, fazendo com que a demanda por mão-de-obra se estabilizasse em um novo patamar, maior que o anterior. Com a revolução industrial, diz Hobsbawm: “…foram retirados os grilhões do poder produtivo das sociedades humanas que, daí em diante, se tornaram capazes da multiplicação rápida, constante, e até o presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços. Este fato é hoje tecnicamente conhecido pelos economistas como a ‘partida para o crescimento auto-sustentável’. Nenhuma sociedade anterior tinha sido capaz de transpor o teto que uma estrutura social pré-industrial, uma tecnologia e uma ciência deficientes, e consequentemente, o colapso, a fome, a morte periódicas, impunham à produção (…). A dianteira no crescimento industrial foi tomada por fabricantes de mercadorias de consumo de massa – principalmente, mas não exclusivamente produtos têxteis – porque o mercado para tais mercadorias já existia e os homens de negócio podiam ver claramente suas possibilidades de expansão (…). As possibilidades conseqüentes de expansão podem ser observadas no pequeno quadro que segue, onde é apreciado o crescimento a partir de 1815:

CONSUMO DE TECIDOS DE ALGODÃO BRITÂNICOS, EM MILHÕES DE JARDAS, em 1820, 1840 e 1860:

Europa: 128, 200 e 201.
Estados Unidos: 24, 32 e 227.
América Latina: 6, 279 e 527.
Índias Orientais: 11, 145 e 825.
China: 3, 30 e 324.

A revolução industrial transformou radicalmente os meios e a maneira de produzir. A manufatura caseira, pequena, sem uniformidade e feita por encomenda, cedeu lugar a produção em massa, realizada para atender ao mercado. Essa nova realidade forçou a concentração dos operários em um lugar longe de sua residência, fez divisão das tarefas do trabalho de fabricação e exigiu bens de produção (máquinas, equipamentos e ferramentas) em número cada vez maior. Se no princípio os ganhos de produtividade beneficiavam somente os empresários, a própria dinâmica da economia terminou por fazer a distribuição da renda nacional entre os trabalhadores diretos, claro que depois de muitas lutas reivindicatórias.

O século XIX foi uma época de grande crescimento econômico e também de importantes transformações político-sociais que prenunciariam a criação de uma nova ordem global, com a intensificação das pesquisas científica e tecnológica e com a concentração de capitais e novas formas de organização comercial e financeira. Porém esses também foram os anos de uma nova fase do colonialismo europeu que, embora não tão explorador como a colonização da América, não deixou de ser obscuro e extrator de riquezas, agora de outros povos, alguns dos quais já por eles explorados. Entretanto são inegáveis.