PALHAÇADA DEMOCRÁTICA

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 04 ago. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 07 ago. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 29 ago. 2008.

De vez em quando me flagro passeando pelos caminhos das lembranças dos meus tempos de criança. Não é constante, mas não é raro isso acontecer, principalmente quando ocorre algum fato de me leva a comparações entre as coisas de hoje com as de antigamente. Coisas importantes e coisas banais, daquelas que acontecem no dia-a-dia e que não alteram a vida de ninguém, levam-me aos tempos passados. As eleições são fatores recorrentes; sempre me jogam na intensa movimentação que acontecia na casa dos meus avós. Lá o ser político era minha avó, D. Mariquinha. Lia todos os jornais da cidade e da capital, ouvia todos os noticiários e programas de rádio que tratassem da campanha. Era uma leitora e ouvinte com uma fina percepção crítica. Não acreditava em nada e duvidava de tudo o que os candidatos diziam. Na final da tarde sempre ia muita gente lá em casa (eu e minha mãe, que era viúva, morávamos na casa dos meus avós); parentes, aderentes, vizinhos, amigos ou pessoas simplesmente conhecidas. O assunto: política. Dizia a minha avó que era coisa de sangue – seu pai, dois irmãos e três sobrinhos tinham sido prefeitos da cidade, um irmão e um sobrinho deputados estaduais e um deles também deputado federal.

O meu avô, José Rodrigues, coronel da guarda nacional, a tudo ouvia e nada dizia. Sua participação, discreta, era efetiva somente na procura de votos. Foi assim nas campanhas que elegeram seu sogro, cunhados e sobrinhos. Pedia voto, dava transporte e comida para que os eleitores fossem tirar os títulos eleitorais e votar no dia da eleição – naquele tempo era legal e todo mundo fazia isso. Entretanto, o meu avô tinha um procedimento todo e somente dele: fazer campanha para seus candidatos ele fazia; pedir voto ele pedia; mas forçar o eleitor, mesmo que este fosse seu empregado, nunca. D. Mariquinha não se conformava, o que era motivo de discussões entre eles; mas tudo civilizado, com voz baixa. Minha avó falava e meu avô somente ouvia e balançava a cabeça de um lado para outro.

Numa ocasião em que Mota Neto – sobrinho de minha avó e na ocasião candidato à reeleição de deputado federal – estava lá em casa, D. Mariquinha resolveu mais uma vez fustigar o marido:

– Motinha, Zé Rodrigues continua com essa coisa de somente pedir o voto e sem dá nenhuma forcinha para que votem em você. Nem dos empregados ele cobra voto.

Mota Neto, que era advogado e tinha sido constituinte em 1946, deu uma daquelas suas risadas estrondosas e respondeu à sua tia e madrinha:

– O coronel Zé Rodrigues é assim mesmo, minha madrinha. Ele acredita na democracia; e na democracia o voto tem que ser livre.

Eu, uma criança de menos de dez anos, que assistia a tudo sem entender nada, arrisquei uma pergunta:

– Vô, o que é democracia?
– É o voto livre – respondeu ele -, sem dono, pois na democracia o dono do voto é mais importante que o candidato. Se o dono do voto não é o eleitor, não há democracia. Poderá até ser uma palhaçada, mas democracia não é.

Vendo as eleições modernas, noto que o sistema evoluiu muito, a ponto de eleger um operário presidente da Republica. Mas… que ainda há muitas palhaçada, há.