Padre Mota

Tomislav R. Femenick
 Natal: Fundação José Augusto, 2007.

Prefácio

Biografia de um Monumento Humano: Padre Sátiro Cavalcanti Dantas

Nota do Autor

Primeira Parte

Exposição Preliminar: A terra e a Gente

Capítulo 1 – O Cenário: 1. O oeste potiguar – 2. O clima – 3. O chão – 4. A seca – 5. O Rio – 6. A caatinga

Capítulo 2 – A gente do Lugar: 1. As Tribos – 2. Os Cariris – 3. Os Tapuios ou Tapuias – 4. Índios do Rio Grande do Norte

Capítulo 3 – A Cidade: 1. Os Índios – 2. Visitantes, Desgarrados e Colonizadores – 3. Os Desbravadores – 4. Os Fundadores

Capítulo 4 – Os Motas: 1. Origem – 2. Brasão e Armas – 3. Títulos nobiliárquicos

Capítulo 5 – Os Motas do Oeste e de Mossoró: 1. Os Primeiros – 2. O Coronel Mota

Segunda Parte
Luiz Ferreira Cunha da Mota: o Homem e o Padre

Capítulo 6 – Os Estudos: 1. A Criança e o Jovem – 2. Vocação Sacerdotal

Capítulo 7 – A Itália: 1. Roma, a Cidade Eterna – 2. A Guerra – 3. Cultura – 4. Dois Presidentes – 5. Três Papas – 6. Em Nápoles, Pompéia e Capri – 7. Em Florença, a Firenze dos Italianos

Capítulo 8 – Voltando à Ribeira do Mossoró: 1. Da Itália a Mossoró – 2. 7 de Setembro – 3. De Volta à Terra Mater – 4. Perda da Liderança Comercial

Capítulo 9 – Pastoreando para o Senhor: 1. Ministério Sacerdotal – 2. A Visão do Novo Padre – 3. Missão Sacerdotal
4. Ações Paroquiais

Capítulo 10 – O Tenente e o Cangaceiro: 1. Uma cidade cobiçada – 2. A Ameaça da Coluna Preste – 3. O Ataque de Lampião

Capítulo 11 – Alicerçando a Diocese: 1. O sonho de Padre Antonio Joaquim – 2. O Trabalho de Padre Mota – 3. Ambiente Religioso Favorável – 4. Ambiente Econômico Adverso
5. Ambiente Político Adverso – 6. A Vitória do Povo de Deus
7. Instrumentando a Diocese – 8. Os Frutos das Vinhas do Senhor

Capítulo 12 – Tempos Conturbados: 1. Preliminares Nacionais – 2. Preliminares Estaduais – 3. Preliminares Mossoroenses – 4. Nihil Obstat – 5. A política dos Homens – 6. A Intentona de Natal – 7. E no Oeste… Messianismo, Cangaço, Ideologia e Repressão

Capítulo 13 – Tempos de Prefeito: 1. Prefeito em Três Tempos – 2. Prefeito Provisório – 3. Prefeito Constitucional – 4. O Estado Novo – 5. Prefeito Nomeado

Capítulo 14 – A Administração do Padre Mota 1. Res Pubica – 2. As Finanças Públicas – 3. O Funcionalismo – 4. A Luta pela Água – 5. Urbanização da Cidade – 6. Ecologia e Estética Urbana – 7. Limpeza Pública – 8. O Ensino – 9. A Banda – 10. A “Voz da Cidade”

Capítulo 15 – O Humor do Padre Mota: 1. Deus não é Triste – 2. Um Padre que Sabia Rir – 3. Gordo e Buchudo – 4. Pega pra Capar – 5. O Homem do Circo – 6. A Mulher que não Gosta do Padre – 7. A Orgulhosa – 8. Briga de Irmãs – 9. Um Protestante na Catedral – 10. Café Comunista – 11. O Glutão

Capítulo 16 – A Calçada do Padre: 1. Uma Assembléia de Amigos – 2. Uma Calçada Democrática – 3. Um Local suprapartidário – 4. Conversas Sem Fim – 5. Em Mossoró Padre Mota; em Roma o Papa – 6. O Puxa-Saco do Governador

Capítulo 17 – A Morte do Padre Mota: 1. Perto do Fim – 2. O Fim – 3. A Configuração do Herói

Terceira Parte
Alguns Depoimentos: Sobre o Padre Mota

1. Padre Mestre Luiz Mota, Prefeito de Mossoró: Luis da Câmara Cascudo
2. Adeus, Padre Mota: Raimundo Soares de Souza
3. Probo por Excelência: Vingt-un Rosado
4. Uma família sem Caim; só Abel: Gorian Jorge Freire

Posfácio

Padre Mota… Falando sério: Crispiniano Neto

Bibliografia
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Prefácio
BIOGRAFIA DE UM MONUMENTO HUMANO

Há poucos dias, o menino do “Colégio Santa Luzia”, que aliás nunca foi menino por causa de suas aparências intelectuais e presença para coisas sérias, o hoje escritor Tomislav Rodrigues Femenick, telefonou premiando-me com o convite para prefaciar o livro que acabara de escrever sobre Monsenhor Motta, seu tio e mestre de infância. Por sinal este jovem estudante nas décadas de cinqüenta e sessenta, convivia no casarão da Rua 30 de Setembro, sob os cuidados e carinho do velho amigo Zé Rodrigues, seu avo. Cabia ao patriarca da família, apesar da mãe e do padrasto, responder pelo estudante na vida colegial. Acontecendo estar o jovem afastado da sala de aulas por falta do uso da farda, o velho amigo escreveu-me um bilhete: “Padre Sátiro, quem assiste às aulas é o menino ou a sua farda?”. Realmente, esse aspecto carece de aprofundamento pedagógico, penso hoje, com a experiência de tantos anos de ensino.

Hoje, os livros Tomislav são usados por importantes universidades brasileiras e, também, estão nas prateleiras das bibliotecas das mais importantes instituições de ensino da América do Norte e da Europa. Suas obras estão em Harvard, Princeton, Stanford, Brown University, Illinois University e na Universidade de Coimbra.

Feita esta observação sobre o autor do livro a ser lançado, comento não em forma de Prefácio, na forma tradicional como introdução sobre a obra escrita, mas “currente calamo” aplaudindo esta justa oportunidade, tão merecida ao Retratado na obra.

O autor já deu sinal sobre o conteúdo pesquisado, em artigos recentes editados na imprensa. Baseado no artigo Palavra “Os Motas” – etimologia incerta, contudo passando pelo Provençal e principalmente pelo italiano “Motta”, francês “Motte” –, apego-me à ortografia empregada pelo ilustre escritor Monsenhor Francisco de Sales Cavalcanti, na obra Monsenhor Luiz Motta, traços biográficos, com dois “t”. Ainda mais. Relaciono esta grafia ao interesse do então Prefeito Padre Motta, marginando o rio Mossoró, flanco esquerdo, erigindo uma balaustrada com 643 metros de extensão, dotando-as de 41 postes de cimento armado, com instalação elétrica subterrânea. Verdadeira represa, ou aterro, justificando, portanto, o seu sobrenome “Motta”.

Os estudiosos, principalmente os da nova geração universitária, encontrarão na obra dados referentes às ações do padre, do prefeito e do cidadão mossoroense que, por assim dizer, deu o pontapé inicial de obras e projetos aperfeiçoados pelas administrações posteriores, mesmo em época em que as campanhas políticas não permitiam a estabilidade necessária para vôos mais altos. Mesmo em pequenas atividades encontramos a presença do ilustre Prefeito, à execução de tantos melhoramentos em prol da população.

Hoje falamos em bolsa família, programa do leite, cidadania, instrução pública, projetos estes, à sua maneira, presentes no Lactário mantido pela Prefeitura em uma casa doada pela Diocese, nas praças e jardins, no serviço de limpeza pública, no calçamento regular das ruas e praças, nas 12 escolas municipais, tudo isso já pesquisado em livros e citações de autores potiguares.

Sua vocação sacerdotal foi tardia, pois antes desejava estudar agronomia, o escritor Raimundo Nonato viu nesse fato um segredo não revelado pelo sacerdote. Padre Motta foi um sacerdote que soube muito bem exercer o seu sacerdócio como Vigário, Cura e Pároco da Freguesia de Santa Luzia, posteriormente catedral da Diocese, passando logo quando voltou de Roma como capelão de São Vicente.

Como político, como prefeito, não trouxe constrangimento aos seus bispos, sendo escolhido pelo próprio Dom Marcolino Dantas como o presidente da comissão na criação da Diocese de Mossoró. Ao primeiro pedido do nosso Segundo Bispo, Dom João Costa, pelo qual mantinha carinhoso afeto e admiração, em 1945 renunciou o cargo de Prefeito, para o qual tinha sido eleito e mantido pelo governo estadual após o golpe de 1937.

Passou ao seu sobrinho, Mota Neto, líder em ascensão, seu prestígio político, ao fundar com os líderes potiguares Monsenhor Walfredo, Georgino Avelino, Teodorico Bezerra, Israel Nunes e tantos outros o Partido Social Democrático–PSD, enfrentando em Mossoró as assim chamadas forças econômicas da época, Rosados, Alfredo Fernandes, Tertuliano Fernandes e Família Duarte, todos alinhados na União Democrática Nacional–UDN. Desta forma, renovou o poder político em Mossoró, obtendo na eleição da redemocratização de 1946, com o general Eurico Gaspar Dutra, uma maioria de 800 votos, coisa admirável na época, e fazendo Mota Neto deputado federal. Depois dessa época Monsenhor Motta ausentou-se abertamente da política do estado.

Homem de tino administrativo, dizia o nosso Bispo Dom Costa, consultar Padre Motta é ter certeza de uma resposta certa, prudente e eclesial. Gozava de estima e respeito entre os irmãos sacerdotes, sendo escolhido por três vezes vigário geral pelos seus bispos diocesanos, e eleito vigário capitular, com a sede vacante, no interregno da sucessão de Dom Costa e Dom Eliseu.

Com a transferência de Dom Jaime para Belém do Pará, sendo Padre Motta Prefeito, na política interna diocesana estava em vista o Cônego Jorge O’grady, então diretor do Colégio Diocesano, para eleição do vigário capitular, Monsenhor Motta liderou a campanha “queremos Julinho” elegendo-o para o cargo. “Julinho” era Monsenhor Júlio Bezerra, vigário em Açu, vindo morar em Mossoró.

Por causa do seu espírito alegre, mesmo as coisas sérias Monsenhor Motta realizava sempre com certo tom de jocosidade. Eis aí porque a campanha do “queremos Julinho”. Aliás, as anotações do jornalista Lauro Escóssia em Anedotas do Padre Mota, retratam com muito humor vários relatos jocosos e até picantes na vida do Padre.

Voltando de Roma, após sua ordenação sacerdotal, seu estudo superior, fixou-se em Mossoró, em cuja história de 1922 ao fim de sua vida, marcou presença ativa na administração do Município e nas atividades religiosas, cujos cargos exercia com muito amor e zelo sacerdotal. Ninguém poderá apagar esta presença efetiva em obras como o calçamento da cidade, ponte Jerônimo Rosado, plantação de “fícus benjamins”, limpeza pública, registro das carroças e até mesmo dos “cabeceiros” (os assim chamados chapeados), praças, mercado central, Banda de Música, serviço de som a “Amplificadora Mossoroense”, estradas intermunicipais, subvenções para escolas particulares, para o Hospital de Caridade entre tantos outros empreendimentos. Infelizmente o Município “homenageou” a sua memória apenas com a Praça Monsenhor Motta, aquela pobreza das Caixas D’água, em frente ao atual Seminário Santa Teresinha, e a Escola Municipal “Monsenhor Mota”, localizada na Rua Monsenhor Gurgel, no Bairro Abolição.

Afirmo com repúdio, este verdadeiro monumento humano Mossoroense que foi Padre Motta, pedra fundamental da modernidade municipal, mereceria homenagens mais expressivas, que retratassem fielmente o seu trabalho por essa terra. Com justiça escreveu nosso historiador maior Câmara Cascudo: “Tua história é o teu grande trabalho, tua fé incontida no futuro do teu povo, tua esperança, tua teimosia em realizar certo que a razão cobrirá de argumentos o sonho que erguestes em pedras, cimento e amor”.

As mensagens fúnebres, enviadas à Diocese de Santa Luzia de Mossoró por ocasião do seu falecimento – por autoridades e pessoas amigas, desde o Núncio Apostólico D. Sebastião Baggio e inclusive instituições nacionais e estaduais – e a multidão de pessoas presentes no Cemitério São Sebastião, comprovam o valor da vida deste grande sacerdote e cidadão mossoroense.

Diante desta grandeza a inteligência brilhante do então Prefeito Municipal, Dr. Raimundo Soares de Sousa, à beira do túmulo do Monsenhor Motta, registrou a figura do Padre Motta, na mais bela página da antologia potiguar. Numa conclusão saudosa e maravilhosa: “Adeus, Padre Motta, porque se o céu é o prêmio dos justos, tu foste justo; se é o prêmio dos bons, tu foste bom; se é o prêmio dos puros, tu foste puro, tu foste humilde, tu foste simples. Assim seja! Adeus, Padre Motta, sem lágrimas, sem desespero, sem desgraça! Mas com muita saudade, com infinita tristeza! Adeus!”.

Mossoró, abril de 2007.

Padre Sátiro Cavalcanti Dantas
Diretor do Colégio Diocesano Santa Luzia,
o colégio do biografado e do biógrafo

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NOTA DO AUTOR

O Padre Mota foi uma das figuras mais emblemáticas da história de Mossoró. Emblemático, tendo em vista suas várias qualidades: determinação, seriedade, honradez, humildade, probidade, coragem, obediência e grande senso de humor. Determinação, quando resolveu ser padre e se ordenar pelo Colégio Pio Latino-Americano de Roma e, para isso, aprendeu Latim em somente dois meses. Determinação, ainda, quando tomou a peito a fundação da Diocese de Mossoró. Honradez, por não aceitar o convite do interventor do Estado para continuar à frente da Prefeitura de sua cidade, quando seu mandato, conquistado nas eleições de 1936, foi cassado pelo Estado Novo. Humildade, quando aceitou continuar prefeito, a pedido de seus amigos e do então Bispo de Mossoró, Dom Jaime de Barros Câmara. Probidade, porque sempre soube defender os bens públicos sem deixar manchar, macular ou infamar as suas mãos com o dinheiro do povo. Coragem, ao enfrentar as hordas de Lampião, participando de uma das trincheiras montadas para defender a cidade. Obediência, por renunciar ao cargo de Prefeito, atendendo a um pedido do seu Bispo. Senso de humor, porque sabia que Deus não é triste.

Entretanto, a história dessa grande figura humana, desse grande filho de Mossoró, tem sido negligenciada. Poucas, muito poucas mesmo, têm sido as homenagens que sua terra fez em sua memória. Nenhuma delas – o nome de uma via pública sem destaque ou uma escola pública sem nenhuma ligação com a sua biografia – reflete a grandeza e a importância que esse homem teve para a construção da identidade mossoroense. A verdade é que até conspurcaram sua memória. O belo espetáculo público Chuva de bala no país de Mossoró tem uma mancha: transformou o Padre Mota em uma figura caricata, grosseira, desbocada e até pornográfica. O Padre corajoso que, de arma em punho, defendeu os mossoroenses é apresentado como um personagem picaresco, burlesco, cômico e ridículo. E isso tudo pago com o dinheiro da Prefeitura de Mossoró, Prefeitura que Luiz Ferreira Cunha da Mota comandou por nove anos, dois meses e dezessete dias, cuidando para que esse mesmo dinheiro público fosse gasto com inteira e total probidade.

Incentivado pelos familiares do Monsenhor Mota é que tomei a sério a tarefa de escrever a sua biografia, mesmo em tão exímio espaço de tempo: menos de cinco meses. Se por um lado foi fácil contar a história do Padre, do homem público e do homem Luiz Ferreira Cunha da Mota; por outro, a minha grande dificuldade foi me abster da condição de seu sobrinho. Dificuldade porque convivi intensa e duradouramente com ele.

Recordo-me de que foi com ele que aprendi as sutilezas da poesia. Deveria andar pela casa dos nove ou dez anos, quando, mexendo e remexendo nos livros de sua biblioteca, li as primeiras poesias. O contato causou-me espanto. Afinal, que linguagem era aquela, cheia de rodeios, usando palavras incomuns e complicadas, com uma sonoridade e um ritmo diferentes? Umas falavam sobre o amor e coisas belas; outras sobre a dor e o desespero e outras mais sobre fatos e feitos gloriosos. Marilia de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga, Eu e outras poesias, de Augusto dos Anjos, e os Lusíadas, de Luís de Camões, abriram, para mim, as portas desse mundo misterioso, envolvente e encantador. Foi o Padre Mota quem me explicou a estranheza e a maravilha daquela forma peculiar de escrever; quem chamou a minha atenção para o fato de que somente há poesia, se houver emoções e não apenas fatos, ações e pessoas a serem objeto da escrita. Se fechar os olhos, ainda serei capaz de ver aquele homem gordo, sentado em sua cadeira de balanço, fumando seu charuto, suando as bicas e ensinando-me o que é poesia. Mostrou-me os clássicos, alguns poetas brasileiros, franceses e ingleses, os estilos barroco, romântico e moderno. Mas não se esqueceu de me chamar à atenção para a poesia popular, a dos cantadores de cordéis.

Já adulto, secretário da Prefeitura, na gestão de Raimundo Soares de Souza, muitas vezes levei, a pedido do prefeito, esboços de projetos de Lei, de Decretos ou de planos administrativos para que o Padre Mota, com a sua longa experiência, desse a sua opinião sobre aqueles assuntos de uma administração que não era sua, mas de um dos seus grandes amigos. Doente, com a vista fraca e um olho atacado pelo glaucoma, o Padre Mota, usando uma forte lupa, lia tudo e fazia suas sugestões com letras pouco estáveis, já indicando o seu frágil estado de saúde.

Por isso e pela carga de sentimentos, que me atinge quando rememoro sua figura, é que resolvi escrever este livro de forma impessoal, procurando excluir da sua história qualquer emoção advinda da minha condição de seu sobrinho e seu amigo. Procurei, em todo o texto, ser o historiador impessoal. Se em algumas passagens não o consegui, aqui me desculpo com a humildade que com ele aprendi.

Natal, 19 de abril de 2007.
Tomislav R. Femenick