Os fatos e as versões

Tomislav R. FemenickHistoriador, membro do IHGRN

vinheta119

Recentemente descobri que eu faço parte da história das lutas de classe. Na sua edição de junho de 2014, a Revista Critica Histórica, editada pelo Centro de Pesquisa e Documentação Histórica, dos cursos (sic) de História da Universidade Federal de Alagoas, publicou o artigo “Os trabalhadores também são notícia: a relação dos operários alagoanos com os jornais nos anos 1950”, de autoria de Anderson Vieira Moura, mestre em História pela UFP e doutorando em História Social pela Unicamp.

Lá pelas páginas 234 e 235, diz o autor: “Uma característica bem comum da imprensa operária/partidária é a ausência de repórteres. A Voz do Povo, no entanto, possuía jornalistas em sua redação, como os já citados irmãos Miranda, por exemplo. Outro era o potiguar Tomislav Rodrigues Femenick. A polícia política de Alagoas o taxou de ‘jornalista de caráter subversivo’, prendendo-o dentro da redação ‘em franca atividade’ em 1955, no derradeiro ano do mandato de Arnon de Mello. Na ocasião, Tomislav foi preso com uma “grande quantidade de jornal de caráter comunista, e em seu poder diversos documentos também de caráter comunista e boletins de propaganda de caráter subversivo(Arquivo Público de Alagoas. Ficha sem numeração. Pasta 14, pp. 29-30).

Faltou ao pesquisador pesquisar um pouco mais. Se assim tivesse feito teria descoberto que na época eu tinha apenas 16 anos, trabalhava no Jornal de Alagoas (órgão dos Diários Associados), e colaborava com a Voz do Povo. Foi o próprio governador Arnon de Mello quem me mandou soltar. A minha prisão foi apenas um ato de vingança do senhor Álvares Flores, então secretário de segurança de Alagoas, pelo fato de eu ter publicado uma série de denúncias contra seus métodos nada ortodoxos de comandar a pasta.

Essa matéria evidencia como a versão de um fato pode tomar uma dimensão maior do que o próprio fato em si, ao mesmo tempo em que esconde a realidade. Tomemos dois outros exemplos. Primeiro, o discurso da professora Amanda Gurgel em novembro de 2011, em audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. A repercussão foi tão grande que Amanda pulou do anonimato para convidada do Programa do Faustão. Embora correta, sua fala somente serviu para alavancar seus interesses políticos e sua curta carreira como vereadora em Natal. Hoje se desconfia que aquilo tudo foi planejado e ensaiado. Segundo, o discurso da jovem Ana Julia, de 16 anos, na Assembleia Legislativa do Paraná, favorável às ocupações de escolas. Ela disse que o movimento era apartidário e que os deputados tinham “as mãos sujas de sangue” pela morte de um estudante que ocupava uma escola em seu Estado, assassinado por um colega também invasor – ambos estavam drogados.

Deixemos Amanda de lado, pois sua história já é passado; nem se reelegeu. O discurso de Ana Julia tem erros crassos, rudimentares, talvez desculpáveis pela sua tenra idade. Os deputados não tinham que estar nas escolas ocupadas e quem matou o estudante foi um outro estudante. Vamos nos focar no dito aspecto apartidário das invasões das escolas. As ocupações das instituições de ensino são sim partidárias. Quem as está incentivando são os partidos de esquerda e os movimentos por eles patrocinados. E disso não há hesitação. O seu discurso, sem sombra de dúvida, foi inspirado e orientado pelo seu pai, o advogado Júlio César Pires Ribeiro, militante petista desde novembro de 2000 – inscrição nº 056837060620 – e integrante da Setorial de Energia e Recursos Minerais, PT do Paraná.

Qual a lição que se tira de tudo isso? Em primeiro lugar, nem tudo que é escrito ou dito é verdadeiro. Segundo, nem tudo que é dito por jovens é para se levar a sério; embora os jovens tenham o condão de acertar mesmo sem saber o caminho certo. Terceiro, tudo que é dito com emoção deve ser testado, pois muitas vezes esse é o caminho escolhido por pessoas espertas para nos envolver em causas escusas.

Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes” (Mateus 7:6. A Bíblia de Jerusalém, 9ª reimpressão. São Paulo: Paulos, 2000).

Tribuna do Norte. Natal, 10 nov. 2016