Os chatos do mundo

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 09 abr. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 08 abr. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 13 abr. 2007.

Uma das principais características dos tempos atuais é a velocidade das informações, neste mundo globalizado. Em tempo real, ao vivo e em cores, como dizem os noticiosos da televisão, é possível se assistir a ocorrência de um tsunami na Indonésia, uma briga de socos de pontas-pé no Legislativo de Taiwan, uma maratona em Nova Iorque ou a morte de uma vítima de bala perdida no Rio de Janeiro ou em São Paulo. De manhã cedo, sem sair de casa, qualquer um pode ler os jornais de qualquer lugar do mundo, mesmo sem ser assinante. De qualquer lugar do planeta, a pessoa pode movimentar suas aplicações na bolsa de valores, fazer pagamentos ou transferir recursos através de sua conta bancária… E sacar dinheiro em Caixas Automáticos.

Porém, melhor, muito melhor, está a vida de quem faz pesquisas acadêmicas. A internet é o paraíso dessa gente. Qualquer assunto, qualquer assunto mesmo, está à disposição de todos os viventes. O perigo está na qualidade do material divulgado, pois todo mundo se acha doutor em tudo e haja festival de bobagens divulgadas como se ciências fossem. Outro dia, um aluno mostrou-me um trabalho “baixado” da internet, no qual se fazia a apologia ao “vencer a qualquer preço”, pois somente assim se poderia “subir na vida no Brasil”. Nem sempre o que é dito, escrito ou divulgado é correto ou verdadeiro.

Para completar, há o telefone celular. Ah, o celular. Que coisa fantástica. Com uma caixinha de nada o cidadão, praticamente pode falar com qualquer pessoa em qualquer lugar. Aquilo que há quinze anos era uma aventura para os beneficiados com a graça de Deus – possuir um telefone, desses simples mesmo, que hoje é chamado de telefone fixo -, depois da privatização das telecomunicações é coisa para qualquer vivente. Outro dia, o meu sócio em São Paulo me ligou para tratar de um negócio sem importância nenhuma, somente para passar o tempo, enquanto seu carro estava parado em um daqueles monumentais engarrafamentos de trânsito da capital paulista. A minha sobrinha me ligou de um veleiro que estava em um daqueles fiordes da Suécia, simplesmente para dizer que estava com saudades. E eu ligo para minha mulher procurando-a, sempre que nos perdemos pelos corredores dos supermercados. Falar no celular é coisa banal. O ruim é quando o usam na sala de aula, no teatro, na missa. Tem gente que usa.

Óbvio que não estou falando do avanço das comunicações sem ter um motivo forte. No ano passado fui assaltado aqui em Natal, quando o ladrão levou meus cartões de crédito e somente “uma folha” de cada um dos meus talões de cheque. Clonaram cheques das minhas contas e os meus cartões. O resultado é que, ainda hoje, tenho dor de cabeça para provar que não emiti alguns cheques e não usei meus cartões em Miami, Frankfurt, Londres, Porto Alegre, Rio de Janeiro ou Caldas do Rio Quente, em Goiás. Semana passada, recebi uma “Notificação de Infração de Trânsito”, que um dos meus carros teria cometido em São João do Meriti, no Estado do Rio, em data que, tanto o veiculo como eu, estávamos aqui no Rio Grande do Norte. Há alguns meses, recebi uma cobrança da Vivo, uma empresa de telecomunicações de São Paulo, cobrando-me uma conta de um aparelho celular que não assinei. Mesmo informando que alguém deveria ter clonado os meus dados e que nunca tinha morado no endereço mencionado pela companhia, tive que usar meus advogados para que o meu nome não fosse registrado do SPC e no Serasa. Para completar, já por duas vezes tentaram me extorquir dinheiro com ameaças falsas de sequestro de pessoas de minha família. Um das vezes era minha mulher, que estava na minha frente; outra seria um filho, que não tenho.

Afora essas ocorrências mais sérias, há aquelas que simplesmente enchem o saco da gente. Sempre que vou abrir meus e-mails, recebo uma tonelada de mensagens oferecendo jogo em cassinos virtuais, viagras, acompanhantes sexuais, viagens, cursos, relógios, participação em congressos e seminários etc. e tal. Diariamente o correio me traz malas-diretas de produtos que não me interessam: promoções de revenda de automóveis, super-mercados, lançamentos imobiliários, lojas de departamento, vestuário e outras coisas mais. Nos domingos, feriados e dias-santos, logo de manhã cedo, “obreiros” de igrejas batem à minha porta convidando-me à assistir milagres preta-à-porter; milagres com lugar e hora marcada.

Já não tenho paciência para essas coisas. Por favor, deixem-me, vão chatear outros. Esqueçam de mim. Eu só quero ouvir em paz uma música de Noel, um rock antigo e assistir mais uma vez Casablanca, com Ingrid Bergman e Hamphrey Bogart.

DEU EM NADA

Quinta-feira passada completou um ano da conclusão dos trabalhos da CPI dos Correios, quando as investigações sobre o mensalão foram concluídas. “Ninguém foi preso ou virou réu. E até hoje a maioria dos órgãos que recebeu o relatório final da CPI não se pronunciaram sobre as irregularidades. Nenhum dos denunciados pela Procuradoria Geral da República virou réu e 14 autoridades informadas oficialmente pelo Senado ou não tomaram nenhuma medida sobre o caso ou nem sequer responderam ao Congresso”.

ÁGUA, HÁ 40 ANOS

No dia 8 de abril de 1967, portanto há quarenta anos, publiquei no Diário de Natal notícia da qual extraio esse trecho: “O Setor de Hidrologia do Departamento de Produção Mineral, do Ministério de Minas e Energia, após fazer a perfuração de poços profundos na localidade Panela do Amaro, onde encontrou importante lençol aquífero, deslocou suas máquinas para o Largo de São João, no bairro Doze Anos, para nova escavação em busca do precioso líquido. Calcula-se que ali o lençol de água subterrânea tinha uma profundidade de 657 metros. A perfilagem eletrônica feita no poço da Panela do Amaro demonstrou uma espessura de 225 metros de água de boa qualidade e com condições de jorro espontâneo. Idênticas condições poderão ser encontradas no Largo de São João”.

PETRÓLEO, HÁ 39 ANOS

No dia 8 de abril de 1968, há trinta e nove anos, publiquei no jornal O Povo, de Fortaleza: “Desde 30 de dezembro passado que o poço perfurado na Praça Padre Mota, no centro da cidade, expele petróleo. O poço foi perfurado para encontrar água, mas localizou um veio de óleo. Essa ocorrência foi classificada como sem maior importância pelos técnicos da Petrobrás. No entanto, algumas centenas ou talvez alguns milhares de barris de óleo já se perderam, jogados que foram nas sarjetas das vias públicas da cidade. O petróleo jorrou a uma profundidade de 647 a 650 metros, quando a tubulação metálica de revestimento do poço quebrou e deixou exposto o veio petrolífero, fato que provocou o processo de surgimento espontâneo do óleo, que permanece até esta data. Apesar dos estudos que a Petrobrás vem fazendo na região de Mossoró, seus técnicos informam que somente dentro de alguns anos é que se poderá saber qual o potencial do lençol petrolífero local. Enquanto isso, o petróleo sangra da terra mossoroense como um grito desesperado, como que querendo ser notado e explorado”.