OS ANTICIDADÃOS

Tomislav R. Femenick (www.tomislav.com.br)

 vinheta175

            Quando eu estudava no Colégio Diocesano Santa Luzia, lá em Mossoró, antes do início das aulas era praxe formar filas no pátio interno do prédio, para que os alunos contassem estrofes do Hino Nacional, de outros hinos pátrios ou do Hino do Colégio. Na minha lembrança ainda estão algumas palavras desses cânticos que me faziam crer que éramos uma nação formada por pessoas destemidas, honradas, cheias de entusiasmo varonil, com direitos iguais e com um futuro glorioso. Como era bom pensar assim.

            Infelizmente há muito tempo cai na real. Hoje sei que a história é outra. Sei que no Brasil varonil há uma perversão estrutural, legal e comportamental. Tenho consciência de que nós brasileiros somos divididos em grupos diferentes: os que estão no poder e nós outros que somos meros eleitores; os poucos que foram apadrinhados pela fortuna (nem sempre de forma honesta) e a imensa maioria dos desafortunados e miseráveis. Há um muro – pior que o de Berlim ou o da Palestina – que nos separa daqueles outros que nos governam ou que são possuidores de imensas fortunas, isso porque há uma sistemática separação entre as elites e o cotidiano da sociedade. Enquanto eles desfrutam a vida, o povo desesperadamente sofre a vida.

            Não entendo por que os detentores de mandatos, quando cometem crimes, têm fórum privilegiado e somente podem ser julgados por Tribunais de Justiça, que são instâncias superiores. No meu entender isso é uma aberração, porque se todos somos iguais perante a lei, a lei também tem que ser igual para todos. Não sei por que o povo paga as despesas com a manutenção do governo e dos governantes e não tem o direito de saber o que está pagando, sob a alegação de segredo de segurança nacional. Há no país é uma verdadeira síndrome de afastamento das elites, que se distancia do povo, fato que somente acontece nos países mais atrasados da África, Ásia e América Latina.

            Não compreendo por que os senhores e senhoras que estão no poder, além de ganhar bons salários (direta ou indiretamente) ainda têm direito a moradia, transporte, alimentação e outras benesses pagas pela massa que anda apertada em ônibus lotados, mora em favela e tem necessidade de recorrer à bolsa família para poder se alimentar melhor. Não sei por que todas as instancias e repartições dos executivos, legislativos e do judiciário têm que funcionar em imensos palácios, alguns suntuosos e com decoração até exageradamente extravagante, enquanto a parcela mais significativa da população vive em favelas e palafitas. Isso para não falar em algumas escolas públicas com goteiras, infiltrações, rachaduras e banheiros não recomendados para uso, além de desaparelhadas de recursos pedagógicos; em hospitais sem atendentes, médicos, remédios e a mínima estrutura de atendimento aos pacientes e com imensas filas de doentes. Se os senhores governantes e magistrados de qualquer nível, bem como senadores, deputados e vereadores merecem trabalhar em ambientes condignos, o povo também merece morar, estudar e ser atendidos em hospitais adequados à sua condição de pagante pelas despesas públicas.

            Não sei por que há uma diferença entre aposentados do governo e aposentados da iniciativa privada. Enquanto os primeiros têm aumento sempre que há aumento dos salários de seus companheiros da ativa (o que é justo), nós outros da iniciativa privada temos redução de ganho quando há aumento do salário mínimo, a titulo de contingenciamento previdenciário.

            Minha desilusão, desengano e decepção se acentuam quando antigos lideres sindicais, pessoas que vieram das classes mais humildes, ascendem ao poder e não alteram o esquema, mas, ao contrário, simplesmente se adaptam – mudam sua maneira de pensar e seu comportamento. Hoje eles, os ex-sindicalistas, fazem parte “dazelit”, têm ojeriza à simples ideia de prestar conta dos seus gastos com o dinheiro público, perderam a vergonha e viram anticidadãos. Pior, ainda: se associam com os corruptos que melhor representam as antigas oligarquias políticas e são pelegos de um governo decrépito.