ONDAS DE GLOBALIZAÇÃO NO OESTE POTIGUAR

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 08 jul. 2007.
Tribuna do Norte. Natal, 08 jul. 2007.

A consolidação da cidade de Mossoró como líder comercial da região que compreende o oeste do Rio Grande do Norte, a região jaguaribana do Ceará e o alto sertão paraibano, deu-se em função de um longo ciclo de ascendência do capitalismo, período este que se iniciou com a revolução industrial e se encerrou com a quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929. Na última quadra do século XIX, a cidade já contava com quase uma centena de casas comerciais, que pertenciam a mossoroenses e pessoas de outros lugares do Nordeste. Pólo comercial sólido, o comercio mossoroense tinha como ação primeira a compra dos produtos locais (algodão, sal, cera de carnaúba, couros e peles), para beneficiamento e revenda em outras regiões do país ou mesmo no estrangeiro. Em contra partida, servia como intermediárias entre produtores e grades atacadistas do país e o pequeno comércio e consumidores da região. Essa onda de desenvolvimento atraiu, inclusive, empresas e pessoas de outros países, entre elas: Johan Ulrich Graf, Feles Finizola, Leges & Cia., William Dreifles, Henri Adams & Cia., Gustav Brayner, Guines & Cia., Conrad Mayer, “Alemão Maia” e o português José Damião de Souza Melo.

Toda essa agitação de negócios se refletia na intensa movimentação do porto de Areia Branca. Em 1911, 113 navios nacionais e outros 143 estrangeiros (noruegueses, ingleses, alemães, dinamarqueses, suecos, holandeses, portugueses, norte-americano, franceses e russos) levaram produtos negociados por empresários de Mossoró e trouxeram mercadorias para abastecer a região. Naqueles anos, o porto de Areia Branca movimentava anualmente de 200 a 250 mil toneladas de cargas, enquanto o porto de Natal movimentava cerca de 40 mil e os de Fortaleza e Cabedelo, 90 mil cada um deles. Era o sétimo maior porto do Brasil, em movimentação de tonelagem de cargas e contribuía com 58% das receitas portuárias do Estado.

O primeiro revés aconteceu após a Primeira Guerra mundial, quando parte do sistema se esfacelou e somente as empresas mais fortes tiveram condições de prosseguir exercendo as mesmas atividades. O conflito, se não fez cessar, reduziu a quase nada as exportações de produtos da região para a Europa. As vendas para os Estados Unidos, outros países da América e para outros continentes eram praticamente nulas. Os lucros chegaram a perto de zero. A economia local e do oeste sofreu violentamente com esse fato, pois a cidade era o centro exportador de produtos da região.

A recuperação econômica da região deu-se ao longo dos anos 20 do século passado. Os empresários de Mossoró adotaram novos métodos de negócio, incorporaram novos grupos econômicos e trabalharam uma nova dinâmica de enfrentamento das situações conjunturais. Ou seja, buscaram novas oportunidades de negócio e novas maneiras de fazê-los. Então, para vencer, a crise a cidade trocou o seu foco empresarial, recorrendo à mineração e à indústria: extração de gipsita (gesso e cal); extração e beneficiamento de oiticica, fabricação de fio, aniagem, sabões e bebidas e, agora, também a trituração do sal – que antes era todo exportado em estado bruto. Isso tudo sem se descuidar dos produtos primários tradicionais.

No final da década deu-se outra crise, reflexo do colapso da bolsa de Nova Iorque. A Europa foi afetada, por ter grande parte de seus negócios e interesses ligados diretamente à economia norte-americana. O resto do mundo foi, porém, mais atingido em seus negócios. As nações exportadoras de matérias-primas primárias se viram, de um momento para outro, sem compradores para seus produtos. Foi a derrocada fatal do modelo primário-exportador. Agravando mais ainda a situação, a interrupção dos fluxos financeiros internacionais inviabilizou o financiamento da dívida externa dos governos federal e dos Estados e até mesmo o pagamento dos serviços da dívida – juros, taxas e outros encargos. No Brasil, a queda vertiginosa das exportações de produtos primários evidenciou a vulnerabilidade do modelo dependente do mercado externo, como sempre foi a brasileira desde os primeiros tempos coloniais.

A industrialização brasileira, acontecida nos anos 30, e a Segunda Guerra Mundial, à qual o Brasil aderir só em 1942, proporcionaram períodos de fluxo e refluxo na economia do Oeste Potiguar, até que esta se estabilizou em um patamar mais ou menos constante, isso nos anos 60, quando uma nova onda de busca por matérias-primas aconteceu no cenário internacional. O primeiro reflexo foi a presença de capitais internacionais na indústria salineira, quando a Norton, empresa de Salt Lake City, dos Estados Unidos, se associou à S/A Mercantil Tertuliano Fernandes, de Mossoró, para exploração das maiores salinas do Brasil de então, Sosal, Salmac e Guanabara, e a Selmer francesa, se associou à Cia. Comercio e Navegação, do Rio de Janeiro, em seus negócios salineiros de Macau.

Nos anos 70 outro fenômeno da economia internacional afetou, desta vez positivamente, o Oeste Potiguar, porém com reflexos retardados. Muito embora já se soubesse da existência de petróleo na região de Mossoró desde o século XIX – fato melhor comprovado desde as décadas de 50 e 60 do século XX -, a sua extração não era economicamente recomendável, pois o custo da extração era maior que o preço internacional do produto. Somente com as duas crises provocadas pelos países exportadores, em 1974 e 1979, e a conseqüente disparada do preço do barril de petróleo no mercado internacional é que o quadro se reverteu. Esses fatos, e mais a quebra do monopólio que a Petrobrás tinha na exploração, fizeram com que a região de Mossoró se transforma na maior produtora de petróleo em terra do Brasil.