OLHA A INFLAÇÃO AI, GENTE!

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 06 jul. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 05 jul. 2007.

Parafraseando letra de música de Adelino Moreira, imortalizada na voz do imortal Nelson Gonçalves, podemos dizer que “ela voltou, a inflação voltou novamente”. Para que os puristas da língua não contestem – dizendo que aqui o termo “novamente” é desnecessário, pois quem volta, retorna outra vez -, no caso presente digo que a inflação retorna mais uma vez. Ela, a inflação, era alta no final dos governos militares, parou e voltou nos Planos Cruzado I e II e Bresser, no governo Sarney, para voltar galopante no mesmo governo e seguiu pelos governos Collor e início do período Itamar, somente reduzindo o ritmo quando Fernando Henrique Cardoso, então ministro da fazenda, implantou o Plano Real. De lá para cá a dita cuja vinha se comportando em níveis educados. Portando, nos últimos cinquenta anos a inflação brasileira anda e pára; melhor dizendo: acelera e diminui a marcha. Porque parar mesmo é difícil, em qualquer economia do mundo.

Mas, voltemos ao Brasil de hoje. Entre janeiro e junho, a inflação medida pelo IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado) atingiu o índice de 6,82%. Esse índice somente foi ultrapassado em duas oportunidades, desde que a Fundação Getulio Vargas instituiu essa metodologia: em 1997 e 1999, anos de crises financeiras internacionais, que se refletiram em cheio na economia brasileira – lembremo-nos que naqueles anos nós estávamos bem mais vulneráveis às oscilações externas, pois não havia o confortável colchão de quase 200 bilhões de dólares de reservas externas.

O que afinal é essa coisa que chamamos de inflação e de que forma ela pode nos atingir? Primeiro ela não é o simples aumento de preço das mercadorias; isso é muito mais efeito que causa da inflação. Para explicar aos meus alunos, de uma maneira simples, o que é inflação, eu recorro à figura de uma balança de feira, daquelas que têm dois pratos. Se colocarmos em um deles todas as mercadorias e serviços postos a venda em um país e, no outro, todos os meios de pagamentos, haverá equilíbrio e não haverá inflação, enquanto as quantidades se mantiverem equivalentes. A inflação aparece quando há menos mercadorias que meios de pagamento; quando a oferta de mercadorias é menor que a quantidade de dinheiro que as pessoas têm e desejam fazer compras. Ai a lei da oferta e da procura entra em cena e “desvaloriza o dinheiro”.

E agora cabe uma outra pergunta: e quais as causas da atual inflação brasileira? Primeiro há as externas. Hoje não se pode pensar na economia de qualquer país sem pensar no mundo globalizado. Em quase todos os países houve a migração de um grande contingente de pessoas que saíram do campo para morar nas cidades. O efeito foi a retração na oferta de grãos (arroz, milho, feijão, café, soja etc.), no mercado internacional. Paralelamente, houve uma crescente inserção de pessoas no mercado de consumo desses alimentos, principalmente na China, Índia, Brasil e outros países emergentes. Resultado: quando há pressão da demanda e retração da oferta, o preço sobe. Há ainda de se considerar dois outros fatores: a alta do preço do petróleo – e, consequentemente dos combustíveis -, que aumentou o custo de toda a cadeia produtiva dos alimentos; bem como de todos os outros produtos, commodities ou bens finais. É claro que a crise imobiliária americana, a desvalorização do dólar perante as outras moedas e a retração de crédito global provocou fortes ondas especulativas nas bolsas de mercadorias e futuros, fazendo com que os produtos agrícolas se valorizassem ainda mais.

E as causas internas, quais são elas? No primeiro patamar está a inflação provocada pelo aumento do custo de produção. O Brasil é campeão inconteste em dois quesitos que formam os custos: temos as maiores taxas de juros e uma das mais altas taxa tributária do mundo. Obviamente que esses custos são repassados para o consumidor final. Depois, a Bolsa Família e outros programas do governo deu a um grande número de pessoas condições de aumentar suas compras. Isso é bom, mas quando não há mercadorias para atender a demanda, o resultado é o aumento do preço das mercadorias e a desvalorização do dinheiro. O resultado é perverso. De janeiro para cá, o custo da cesta básica subiu em todas 16 capitais pesquisadas pelo Dieese-Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos. Os maiores aumentos foram apurados em Recife (29,24%) e em Natal (25,91%). Resultado da opera é que, hoje, a inflação é a maior preocupação dos brasileiros, segundo pesquisa do Ibope, encomendada pela CNI-Confederação Nacional da Indústria. Isso porque quem mais sofre com a inflação, principalmente com o aumento dos preços dos alimentos, são as pessoas das classes de menor poder aquisitivo, que gastam quase 60% dos seus ganhos com comida.

É o que tem feito o governo para segurar o dragão da inflação? O Banco Central reforçou a sua política de juros altos, alguns ministros já falam em aumentar o aperto fiscal, aumentando tributos e a fiscalização, e muitos, muitos discursos. E pior, muito pior, alguns luminares querem ressuscitar a finada indexação dos preços e salários, muito embora que envergonhados de falar o palavrão da “correção monetária”, mas falando em sua metodologia. E por que a correção monetária é tão ruim assim? Simplesmente porque ela traz a inflação de ontem para hoje e leva a de hoje para manhã, no circulo constante que imortaliza o monstro.