Objetos de cena para 2008

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 30 dez. 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 30 dez. 2007.

No teatro o contra-regra é um dos técnicos menos visto e citado. No entanto, o êxito da representação depende de sua capacidade e de sua ação. Ele é o encarregado de cuidar dos objetos de cena (móvel, adornos etc.) utilizados como elementos de cenografia, dos adereços, das entradas e saídas dos atores, da movimentação de mecanismos, dos efeitos sonoros e outras coisas do gênero. Tudo isso é essencial para o êxito do espetáculo. Dependendo da complexidade do cenário e do enredo, essa função pode ser exercida por mais de uma pessoa.

Na economia acontece a mesma coisa, só que no lugar do contra-regra entra uma coisa chamada “conjuntura”, que nada mais é que uma conjunção de elementos de que depende, num dado momento, a situação econômica, política e social (taxa de crescimento econômico, taxa do aumento de encomendas, nível de emprego, crescimento demográfico etc.) e que se considera como o ponto de partida de uma evolução, considerando às variáveis de curto prazo. E o que é que a análise dos nossos elementos de conjuntura deixa antever para o próximo ano?

Primeiro vamos aos bons. A previsão de crescimento do PIB-Produto Interno Bruto (tudo o que será produzido no país em bens e serviços) em 2007 subiu para 5,12%, mas para 2008 espera-se que caia para 4,50%. Mesmo assim, ainda será um dado positivo, se comparado com os resultados do passado recente. Essa expansão pode ser comprovada pela produção rural e da indústria, pelas vendas do comercio e, ainda, pelo consumo das famílias. A produção agropecuária cresceu 9,2%, a industrial 5% e o consumo das pessoas 6%, este último o maior dos últimos 10 anos. Entretanto a melhor de todas as notícias é que os investimentos realizados pelas empresas cresceram 13%, o maior desde 1996. Mais investimentos é igual a mais emprego, mais pessoas empregadas representam mais salários e com mais salários as famílias consumem mais.

Outro fator positivo é que o saldo parcial da Balança Comercial (exportações menos importações), antes do final de dezembro, já superou a meta para as exportações de US$ 157 bilhões. A má é que as importações tiveram um desempenho ainda mais forte; cresceram 34%. Dessa forma o saldo da Balança Comercial do país está acumulado em US$ 38,39 bilhões, porém o desempenho foi 13% menos que o resultado positivo de US$ 46,07 bilhões, alcançado em 2006. O próprio Banco Central já projeta para o ano que vem um saldo negativo de US$ 3,5 bilhões. Porém há instituições, como o Departamento Econômico do Bradesco, que prevêem um déficit ainda maior. Elas estimam que a “conta corrente” da Balança de Pagamento terá saldo negativo de US$ 7,6 bilhões. O professor Antônio Corrêa de Lacerda (meu colega de mestrado na PUC-SP) vê com preocupação essa inversão no comportamento das contas externas. Ele culpa a política de valorização do real (da qual o BC se valeu para manter baixa a inflação) e teme que o Brasil se torne um mero exportador de commodities, com baixo valor agregado.

Outro elemento extremamente positivo da conjuntura diz respeito às reservas internacionais brasileiras, que se aproximam dos US$ 180 bilhões, conforme os dados divulgados pelo Banco Central neste fim de ano. Essa montanha é que tem pressionado a desvalorização do dólar e de outras moedas fortes, favorecido as importações, incentivado a remessa de lucros das multinacionais para seus países de origem e, consequentemente, reduzido o superávit da Balança Comercial.

Outros fatores há que se apresentam negativos para 2008. O primeiro deles, e o mais preocupante, diz respeito às contas governamentais. O governo não está fazendo a sua lição de casa. O maior exemplo vem da proposta orçamentária apresentada ao Congresso Nacional, que prevê a contratação de 56.348 funcionários públicos. O Executivo pretende contratar 40.032 novos funcionários, o judiciário 12.604, o legislativo 1.417 e o Ministério Público 2.295, se o Projeto de Lei Orçamentária for aprovado. Essas contratações representam uma despesa corrente (que se repetirá nos anos seguintes) que atinge R$ 1,89 bilhão. Estudos realizados pela ETCO-Fundação Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial, apontam que esse valor é muito dinheiro para se atingir pouco resultado. Segundo o economista André Franco Montoro Filho, presidente do Etco (e meu professor, também na PUC-SP), “as variáveis de gestão são mais importantes do que o montante investido”, isso porque em certas áreas temos gastos semelhantes às das nações desenvolvidas e resultados iguais aos dos países mais atrasados do terceiro mundo.

Ainda na casa dos fatores negativos há nossa escandalosa carga tributária, que beira os 40% de toda a renda nacional e os juros que fazem a alegria do sistema bancário. Mesmo considerando as sucessivas reduções na taxa básica de juros do BC (a taxa Selic), que hoje está em 11,25%, o juro médio dos bancos ainda é 35,4% ao ano, mas há operações, como os cheques especiais e os cartões de crédito, em que juros ultrapassam 100% ao ano.

DESCOBERTO PETRÓLEO EM MOSSORÓ

A notícia sobre a descoberta de petróleo em Mossoró foi por mim transmitida para Recife, usando o equipamento de rádio amador de um amigo. No dia seguinte foi publicada na primeira página do Diário de Pernambuco e teve ampla divulgação na imprensa nacional.

“MOSSORÓ (Do correspondente) – A escavação de um poço com a finalidade de encontrar água fez com que, ontem, na Praça Padre Mota, no coração de Mossoró, jorrasse petróleo abundantemente, de uma profundidade de 645 e 650 metros. O primeiro jorro petrolífero em Mossoró ocorreu em fins de 1955, julgando os técnicos de então (inclusive alguns norte-americanos) que as pesquisas deveriam ser abandonadas, estando a Petrobrás ausente daquele centro potiguar. A perfuração do poço estava, ontem à noite, em sua fase final, devendo hoje ocorrer a retirada dos aparelhos de escavação”. Diário de Pernambuco, 31 dez. 1967.